Viver a vida com a casa às costas

Hoje de manhã quando saíamos de casa deparei-me com este caracol absolutamente gigante. Não tendo um objecto ao lado para comparar poderá ser difícil perceber a real dimensão do bicho, mas, assim a olho nu, posso assegurar que tem tamanho suficiente para ser considerado um Senhor Caracol! A sério, grande, gigante!
Achei piada ao Sr. Caracol. Já ele olhou para mim com o mesmo ar que encontro na maioria dos expatriados com que me cruzo por estas bandas. Tipo, “Só cá estás há quatro meses. Hum, pois… (Novata, pensam) eu já cá ando há quatro anos”, dizem eles com ar de quem sabe tudo, mas não vai partilhar nadinha. A não ser que peças, muito, claro. Coisa que, quem me conhece, sabe que bem podem esperar bem sentadinhos. E ficamos assim mesmo. Salvo raras e boas excepções, claro.
Mais espantoso ainda é que ele sobreviva dia após dia. De acordo com fontes seguras, o Sr. Caracol já por aqui anda há algum tempo. Aparentemente, o senhor vive junto ao nosso portão e gosta de atravessar de um lado para o outro, colocando-se em sério risco de ser atropelado pelo carro mais feio de Vientiane, o nosso, claro! Mais tarde, ao voltar a casa dei por mim a fazer marcha-atrás e a corrigir a rota, de modo a evitar passar por cima do dito Sr. Caracol).
Numa altura em que nos preparamos, mais uma vez, para soltar amarras e voltar a por a casa às costas, acho fantástico que este senhor Caracol, traga consigo toda a sua vida, ali, naquela casa móvel que o acompanha. Sem malas, sem tralhas, sem complicações. Um dia, quando for grande, hei-de ser assim, destralhada. Só com bagagem na memória, no porão do avião e, vá lá, no disco externo! Ou talvez não.

The Little House

The Little House

“The Little House” é um nome de um pequeno café perdido no meio de Vientiane. Não tem página no Facebook nem sítio na net. Não tem wifi nem se deixa encontrar pelo Google Maps. Aliás, dificilmente se deixa encontrar por quem não o procurar. Quem por ali passa, raramente repara que, para lá das árvores e do bambu, há uma pequena casa de madeira, sempre de portas abertas para quem quiser entrar. E ainda bem, digo eu, egoisticamente.
O espaço é simples, rustico e discreto. A dona é japonesa e talvez, por isso, seja sobretudo frequentado por japoneses. Talvez também, por isso, as empregadas se movimentem calma e silenciosamente, fazendo lembrar as gueixas dos filmes. O silêncio é apenas interrompido pelo barulho dos pássaros e pela máquina de moer o café. E que bem que cheira o café acabado de moer!…
Conheci este espaço por acaso, acabadinha de aterrar no Laos. Um dia, ao entrar de forma atabalhoada num restaurante da cidade à hora de almoço, ainda com as duas crianças atreladas a mim, ouço: “desculpe, falam português? São portugueses?”… Conversa puxa conversa e português que é português gosta de tomar café depois de almoço (e de manhã e à tarde… enfim…). Foi assim, que esse português vindo do nada me disse que me ia levar ao sítio onde serviam o melhor café da cidade. E não me enganou.
Haverá melhor forma de começar o dia do que sentar-me confortavelmente num grande ratan, a beber café e a olhar para o verde e para luz do sol que atravessa a copa das árvores e ilumina radiosamente o espaço? Melhor do que isso, só se o café fosse torrado no local. E se fosse possível escolher o tipo de torra. E melhor ainda, só se fosse moído na hora, deixando aquele fantástico aroma a café invadir o espaço. Melhor do que isso, só mesmo se o bebermos tranquilamente, enquanto o bebé dorme. Ou enquanto trocamos dois dedos de conversa com alguém que acabámos de conhecer. E o melhor, é que é mesmo assim.
É por isso que, se voltasse a encontrar este tal português lhe diria: Obrigada! E lhe diria também que o baloiço de madeira pendurado na árvore não foi feito para a filha da dona. Esse tal baloiço está ali, tal como estão as duas árvores e o caminho de entrada, porque aquela pequena casa foi inspirada no livro “The little house” de Virginia Lee Burton, escrito em 1942. Isto disse-me um menino inglês, que descobriu no meio das estantes cheias de livro em japonês, a versão em inglês do livro e a veio contar ao bebé.

Para os avós.

 

No Dia da Criança, a avó Mena mandou algumas fotos-miminhos para os netos. Esta era uma delas. O comentário da Carolina foi: “Xiii, o mano era mesmo bebezinho!”.
A avó Mena e o Avô Adérito são pessoas fantásticas. Ou, usando uma palavra que eles gostam muito de usar, são pessoas ESPECTACULARES. A vida tem-lhes pregado umas quantas partidas menos simpáticas (para ser também simpática no termo a usar). Apesar disso, mantém sempre o sorriso e a vontade imparável de lutar. Por eles e pelos outros. Muitas mais vezes pelos outros. Para a Carolina, a avó Mena é uma médica que gosta de ajudar os outros e que faz pasteis de carne. Já o avô Adérito é pastor, trata dos animais da quinta e trabalha numa carruagem de comboios. Lindo.
Nem sempre é fácil gerir esta coisa de se viver cada um na sua ponta do mundo. Faz-se o que se pode para gerir a distância, as memórias e a saudade. Felizmente, a tecnologia ajuda-nos bastante, contam-se as novidades, os netos mostram as suas gracinhas, rimo-nos com as parvoíces e aborrecemo-nos com as falhas de rede. De repente ficamos todos um pouco mais perto. Mas ainda assim, há coisas que não se substituem. Há coisas que fazem falta. Sobretudo em dias como o de hoje, em que mais uma vez, as forças são colocadas à prova. É, por isso, que, em especial no dia de hoje, daqui para ai vai um beijinho, um abraço e uma festa. Mas assim daqueles de partir pescoços. De todos nós. Para os pais e os avós mais espectaculares do mundo.