O Skit – o cão caminheiro

Encontrei esta foto por acaso no meu telemóvel enquanto procurava por uma outra foto para um outro texto do blog (que há-de ficar para outro dia…). Não me lembro sequer de tê-la tirado, imagino que tenha sido durante as nossas férias relâmpago na Tuga, mas ao deparar-me com ela não pude deixar de ficar emocionada. Que foto mais doce.

O Skit era o cão da minha prima Rita. Uma mistura de Basset Hound e Dachshund, de smoking ao peito e voz grossa, era um cão deveras especial.

Chegou até nós numa tarde de Inverno, há 14 anos atrás, quando estávamos todos reunidos na casa do Castelo para comemorar o aniversário da minha mãe. Apareceu ele, uma mana malhadinha e a sua mãe, igualzinha a ele. Ao ver três cães tão diferentes num lugarejo tão pequeno quanto Évora Monte, foi num instante em quanto os puxámos para casa, demos de comer e saimos à procura dos donos. Ninguém parecia conhecê-los até que uma senhora se lembrou que um médico de Lisboa tinha uma quinta com uns cães assim “rodinhas baixas”. Não tardou muito até se localizar a quinta e o telefone do tal médico que já ia a caminho de Lisboa sem saber que os cães andavam no passeio.

Entretanto, a menina Rita, que ainda era pequenina, chorava: “Eu quero um cão! Eu quero um cão!!!” E o seu pai desperava. Sempre tinha dito que não queria animais, porque já sabia a quem iria sair a sorte do cuidar do dia-a-dia… As opiniões dividiam-se… E ela insistia: “Eu quero um cão!!!!”

Eis que chega o tal médico de Lisboa. “Olha, a menina já tem dono, mas se quiseres podes ficar com o menino, queres?”… E foi assim… amor à primeira vista.

E o Skit e a menina Rita nunca mais se largaram. Excepto quando ele ia aos seus passeios. E se ele passeava!

Quando era ainda novo, os meus tios viviam num bairro próximo do nosso e costumavam passeá-lo até nossa casa. Até que um dia, estávamos nós a jantar e ouvimos “Au… … Au!” (Nota: a dupla reticência é porque o ladrar dele era mesmo assim, pausado, profundo, solene)… Fez-se silêncio. Passado uns minutos… “Au… … Au!”… Isto parece mesmo o Skit!, diziamos nós. E o nosso Rufus parecia doido. Abrimos a porta e não vimos ninguém na escuridão. Estranho. Novo “Au!” E foi ai que vimos o reluzir dos seus olhos negros… Ligámos para eles: “Por acaso sabem onde anda o vosso cão?!”… E foi só a primeira de muitas.

Amante de caminhadas, tinha um faro incrível e atravessava a cidade de uma ponta à outra (sempre pela passadeira!) para ir visitar os velhos amigos. Quando mudaram de casa, para o outro lado da cidade, foram muitas as vezes que foi apanhado por amigos a meio do caminho a chegar à nossa casa! Em Santa Susana, na Malagueira, no Bacelo, na Senhora da Saúde… A mais caricata de todas foi quando ao chegar a casa dos meus pais, certa noite, o encontrámos deitado à porta, sem se mexer de tão cansado que estava… Pudera, de manhãzinha cedo tinha-o deixado na Azaruja! Nunca havemos de saber quantas horas demorou ou por onde veio. Estava cansado, mas estava feliz. Tinha chegado ao destino. E voltou a repetir a brincadeira.

Era assim o Skit, o cão caminheiro, o cão dorminhoco, o cão lorde, o cão rodinhas baixas, o cão incapaz de apanhar um biscoito no ar. Diz a lenda (aka Maria José) que ele até dizia Vó Vó Vó para pedir comida. Enfim, coisas de avós! Mas era sem dúvida nenhuma, o único cão da história com tanta classe, tanta classe, que partia um biscoito ao meio e pousava a outra parte no chão, para o poder saborear… Infelizmente, nunca conseguiu ser suficientemente rápido para impedir que o resto da matilha, comesse os deles e ainda fossem a tempo de lhe roubar o seu. Isso e aprender a abrir a boca e apanhar o biscoito no ar. Digamos que o Rufus e a Noa tinha sempre dose reforçada…

Enfim, era um cão meigo, que gostava da sua liberdade, mas também do seu descanso e, sobretudo das suas pessoas. Era o cão da minha prima e era o cão de todos nós. Era porque infelizmente, já partiu. Velhinho e doente, despediu-se de nós este Natal. Mas ficará para sempre na nossa memória. E como se pode ver na foto, até na memória do mais petiz da família. Até já grande Skit. “Au… … Au!” para ti também!

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