O pequeno fotógrafo

Pega em tudo o que tenha uma objectiva. A Nikon do pai, a Instax da mana, o telemóvel da mãe (a máquina da mãe está fora de serviço há algum tempo por… bem, o mais honesto será dizer: pura preguiça! Enfim, continuemos.). E é assim que de repente ganhamos 120 novas imagens no nosso cartão. Das quais 100 são assim, puros pretos.

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Tento explicar: “pões o dedo aqui, seguras assim, estás a ver? Olha, assim, vês, assim já não vês!”… Pormenores! pensa ele, enquanto olha para mim com ar de gozo. O que importa mesmo é divertir-se. Telemóvel na mão, clique aqui, clique ali e lá vai ele, de sorriso de orelha a orelha, casa fora a captar o que mais gosta. Brinquedos, muitos, um pai de esguelha, uma mãe desfocada e uma mana como aqui se apresenta…

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Bom quase fim-de-semana e bons cliques!

 

Domingos preguiçosos

Os últimos fins-de-semana em Phnom Penh têm sido uma roda-viva. É o ano novo chinês, são aulas de jardinagem, sessões de cinema, passeios arquitectónicos, hidro-ginástica, festivais de arte, concertos, jantares com amigos, conferências, workshops disto e daquilo… Para adultos, para crianças, para famílias, dentro de casa, ao ar livre… Parece que andamos numa corrida para aproveitar tudo ao máximo antes que a época quente se instale de vez e a única actividade possível seja a de ficar a vegetar no sofá com a ventoinha no máximo ou, eventualmente, na banheira porque até a piscina está quente demais e a simples ideia de pensar em sair de casa aumenta o grau de exaustão… E pelo caminho, ainda aquelas coisas do costume, tentar trabalhar um pouco, preparar a semana, fazer compras, ajudar nos TPC… Vai daí, um pensamento recorrente nos últimos Domingos tem sido: “amanhã já podia ser Domingo outra vez!”

Foi por isso, que lá em casa declarámos este Domingo, o Dia da Preguiça. Sim, apesar do Pai Nelson ter posto o despertador para ir jogar futebol às 7 da manhã. E do Gabriel ter acordado às 6:30. E de pouco depois já estarmos os dois na cozinha a fazer crepes com mel e canela para o pequeno-almoço. Sim, apesar disso tudo, foi dia de preguiça.

A Carolina apareceu na sala bem mais tarde e, vagarosamente, mudou-se da cama para o sofá. A sua melhor amiga, que lá foi passar o fim-de-semana, apareceu pouco depois e juntou-se a ela no sofá. As duas vinham de cabelos no ar e olhos empapados de quem ficou na conversa até bem depois da hora…

Infelizmente, esta coisa da preguiça nas crianças passa rápido. Demasiado rápido. Um bocadinho de sofá, dois episódios de Tivi5 e uns crepes com nutella são o bastante para repor os níveis de energia… E o Gabriel, bem o Gabriel tem dois anos. Ponto. Ora, se queríamos manter o nível de preguiça, tínhamos que arranjar um plano de sobrevivência. E já.

Com os cérebros claramente a meio gás, só conseguimos pensar em duas opções para salvar o dia: ir almoçar fora (e assim, evitar cozinhar e lavar loiça, que aqui não há esse objecto divino que se chama máquina de lavar loiça) e tirar as crianças de casa (antes que comecem a trepar paredes!).

“Meninos! Vamos passear!” (“Oh Não!”) “É capaz de haver batatas fritas!” (“IUPI!”) (Não houve, mas também ninguém se chateou por causa disso…)

Chapéus na cabeça, protector solar e carrinho de bebé, lá fomos nós de passeio até um cafézinho simpático, pertinho de casa, com comida boa e o melhor chocolate do Cambodja! Mas a verdadeira razão que nos levou até lá foi outra. Mesmo ao lado fica uma verdadeira relíquia, uma biblioteca comunitária, gerida por uma pequena associação chamada Au livre Ouvert e que tem como objectivo promover o prazer da leitura num país pouco dado aos livros. Com livros em Khmer, Inglês, Francês, Vietnamita, Alemão e muito provavelmente em Português, tem histórias do tamanho do mundo para todas as idades, gostos e aspirações. E tem também brinquedos. E outras crianças. E anda-se descalço. E foi assim que entrámos na nossa tarde, vagarosamente, entre livros, legos e sestas nas almofadas…

De regresso a casa, e para terminar o dia em beleza, os pais ainda tiveram direito a um luxo raro: SESTA! Nós e o pirata, enquanto as duas pulguinhas saltitantes aproveitavam as últimas horas em conjunto entre jogos, porquinhos da índia e conversas de raparigas.

Bom, bom. Nada como um Domingo preguiçoso. Boa semana para todas e para todos!

A borboleta

A borboleta
Sabia
A minha vida
Só dura um dia
Que vou fazer?

Escolheu um
Jardim
Extra-bonito
Conversou
Com todas
As outras
Borboletas
Passeou e
Partiu
Para o céu
Das borboletas

In Da girafa à pulga da areia

Esta menina é como tu, disse-lhe eu. Como eu? Sim, tu também falas com borboletas. EU?! Sim. Ou pelo menos falavas. Falavas com todas as borboletas que encontravas. E elas falavam contigo. E pousavam no teu cabelo, no teu nariz. Oh… (enterra a cabeça na almofada, envergonhada…) E o que é isso de partir para o céu? Então, sabes que as borboletas vivem uma vida curtinha e depois vão para o céu das borboletas. (ri, desconfiada) Sim, deve ser um local lindíssimo, já imaginaste um local onde estão todas as borboletas?!… Pois, mas não devem lá ficar muito tempo. Sabes que as borboletas nascem, vivem, morrem e nascem outra vez. Nascem, vivem, morrem e nascem outras vez. E vivem, morrem e nascem outra vez… (E assim continuou em loop budista)

 

O Pirata

Diz que não fala. Ou fala muito pouco. Mana, não, mãe, pai, (a)guá, bacha, non, batata, shoe, Céia, Joe, banana, bébé, doudou, iáuu (iogurte), (telev)isão, mais papa, one more, balão, bora, bye bye, tuk tuk, nez, au voi, cabou, não não não, um, doi, tés…

Diz que não fala. Ou fala muito pouco. Mas na verdade, é um tagarela que não se cala. E que vira um leão feroz quando não o entendemos. E com razão, que ninguém lhe facilita a vida. O seu mundo roda todos os dias em Português, em Francês e em Inglês. E segundo a nanny orgulhosa, até já sabe algumas coisas em Khmer… Mas não se enganem, se não lhe interessa, o Não sai rápido que nem uma flecha e com todas as letrinhas.

Diz que não fala. Ou fala muito pouco. Mas sabe o som de todos os animais. Em todas as línguas, que isto dos animais também tem que se lhe diga. Uma ovelha faz Mée em Português, mas faz Bah em Inglês. E faz quá quá quando quer o filme do patinho. E parece o Pedro Abrunhosa a tentar fazer a música da Aranhinha. E com tampas de marcadores nos dedos manda-nos cantar o “Daddy finger where are you?”, corrige quando nos enganamos e dizemos mummy no lugar do “bébé!” e acena com a cabeça e ar de professor quando corrigimos o erro.

Diz que não fala. Ou fala muito pouco. Mas aponta para as pernas e diz que lhe faltam os calções, que isto de andar despido é coisa de bebés. E escolhe a sua roupa todos os dias. Nada de tentar enfiar-lhe t-shirts aborrecidas. Super-heróis, leões e piratas é o que está a dar. E os sapatos. Que ninguém lhe troque os sapatos. E os óculos de sol. E um fio a condizer com a mãe, vá!

Diz que não fala. Ou fala muito pouco. Mas é o maior fiteiro do mundo. Encolhe os ombros, revira os olhos, finge-se envergonhado, agita as mãos, atira-se ao chão em agonia, arma-se em pinguim, vai buscar um banco para chegar ao que quer, atira as mãos à cabeça em sinal de espanto! e, qual asiático, arma sorriso para a foto.

Diz que não fala. Ou fala muito pouco. Até pode ser, mas que diz tudo o que tem para dizer, lá isso diz.

E o Rei ainda é vivo?

Qual Rei?, pergunto eu.

O Rei de Portugal, aquele que fugiu para o Brasil. Ou já há outro Rei? Há um Rei mas não diz a ninguém que é Rei para não o mandarem outra vez para o Brasil? Mas quem era a Corte? E porque é que eles ficavam com tudo? Também ficavam com a água? Quem era o Governo? Ah… então o Governo era o povo! E quando se chateavam também tinham que fugir? Porque é que o povo não fugia para o Brasil? E ainda há pessoas dessas do povo que estão vivas? Mas se a avó Mina não se lembra como é que tu te lembras?”

(Pausa)… “Eu acho que se calhar já estão vivas outras vez. (Como assim, vivas outra vez?) Sim, lembras-te do que te expliquei do Budismo? Nós nascemos, crescemos, vivemos, ficamos doentes e velhinhos, morremos e depois nascemos outra vez. É assim. É o ciclo da vida.”

Uma gargalhada por dia…

… Não sabe o bem que lhe fazia!

Vantagens de se viver no Verão o ano inteiro é que podemos aproveitar ao máximo tudo o que a cidade tem para nos oferecer (isto antes que chegue a época quente e o ar se torne tão irrespirável que damos tudo por ficar em casa!). Por isso, nada melhor do que terminar uma semana agitada com um passeio de barco entre amigos. Três casais, uma mão cheia de crianças e lá vamos nós…

Era o último dia do campo de férias da Caracolinhos, e havia uma sessão preparada para os pais, por isso, pedimos ao tuk tuk, para nos ir lá buscar. Depois da mega festa, lá entrámos nós para o tuk tuk, eu, o pirata e a caracolinhos, prontos para atravessar a cidade até ao cais. O céu estava cinzento, mas estamos na época seca, não ligámos. Pois… Surpresa das surpresas, a caminho do barco, uma mega chuvada. A chuva das mangas, dizem! Claro que ninguém estava preparado, nem o tuk tuk. Por isso lá fomos nós, a apanhar chuva por todos os lados, a ficar ensopadinhos. O que vale é que, lá está, aqui faz sempre calor! Os risos eram mais que muitos. Depois da festa, este passeio chuvoso já era suficiente para soltar umas boas gargalhadas. Mas ainda havia mais, mal sabia ele!

No barco, um manjar especial para os adultos com um chouriço português religiosamente guardado por uma amiga, um copo de vinho e uma sobremesa especial para as crianças: pipocas! O prato favorito do pirata. E bolo de chocolate. Combinação infalível. Escusado dizer, que agarrou-se à saladeira gigante e não mais largou.

Entretanto, a chuva acalmou e o barco lá se lançou às águas do Mekong. Enquanto a Caracolinhos, estourada de uma semana de grande animação no Campo de Férias, se deitava aborrecida nos bancos do barco (já chegámos?), o Pirata não podia estar mais feliz. Água, Água, Água! Exclamava sem parar! Estava doido com aquela piscina gigante. Água! (Ou Guá! em Gabrielês). E pipocas. (more? more? dizia.)

Foi mesmo um excelente início de fim-de-semana. Boa companhia, boa comida, uma vista fantástica. E nada como umas boas gargalhadas de Pirata para nos encher o coração.

 

O café como escritório

Desde que vim para o Cambodja, tenho vindo a trabalhar como consultora para diferentes organizações. Um trabalho individual, freelance, que traz consigo imensas vantagens e desvantagens já amplamente descritas em outros blogs da moda (que não é o meu concerteza!).

Como desvantagem, diria, o facto de ser na maioria dos casos um trabalho pontual e muito concentrado no tempo, quer dizer que somos contratados para fazer uma tarefa específica e não temos muitas vezes oportunidades de ver o produto crescer. Na maior parte das vezes, é também esperado que consigamos encaixar o equivalente ao volume de trabalho de dois funcionários a tempo inteiro durante o período de um ano em duas semanas e meia, com 324 revisões e recomendações pelo meio. E claro, dominar a linguagem técnica, e reconhecer de cor todos os acrónimos como se fossem a coisa mais natural do mundo. E no fim, talvez tenhamos logo outro em carteira, ou talvez não…

Como vantagem, o contacto com tantas realidades diferentes, desde as organizações às populações com as quais trabalhamos, os modos distintos de trabalho, a percepção de diferentes modos de vida, diferentes culturas e diferentes tempos. Também a diversidade do trabalho que tenho realizado, que vai desde a organização de conferências internacionais na área das políticas de género com pessoas de cinco países diferentes na região, consultadorias com agências das nações unidas ou desenvolvimento de projectos de educação e comunicação em saúde sexual e reprodutiva para trabalhadores das industrias têxteis. O termos que ser permanentemente criativo, termos um conhecimento novo e apresentar produtos diferentes para públicos novos em cada consultadoria…  Espectáculo, certo? Certo. E ainda sermos pagos (e bem) por isso. Maravilha.

Mas há também vantagens que são simultaneamente desvantagens. Uma delas é o não termos poiso certo. Não somos obrigados a estar fechados num escritório. Se isso nos pode afastar um pouco da organização e ter custos em termos de proximidade, pode trazer outras vantagens. Podemos escolher um escritório diferente todos os dias, de acordo com a nossa inspiração, humor, volume de trabalho, tipo de trabalho, apetência de comida… O que for. E nisso, haverá poucas cidades tão boas para o fazer como Phnom Penh.

Há dezenas de cafés espalhados pela cidade, para todos os gostos, carteiras e vontades. Uns mais cheios do que outros, uns mais na moda, outros mais outsiders, uns mais voltados para os “westerners” outros mais voltados para os “locais” ou os “asiáticos”. Todos com excelente wifi, bastantes já apresentam um bom café e comida (demasiado) apetitosa. E há centenas de pessoas como eu, todos os dias a trabalhar a partir desses escritórios ambulantes. Uns dias não falamos com ninguém. Noutro, a pessoa do lado decide meter conversa contigo. Noutro, encontras alguém conhecido e acabas por ficar a tagarelar mais do que devias…

Aqui fica uma das melhores vistas de um dos meus escritórios ambulantes preferidos… (Também podia ficar em casa, mas não seria a mesma coisa!)

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