A menina do monte e as grutas

A menina do monte não se lembrava, mas não gostava muito de grutas…

A menina do monte não se lembrava se era especificamente de grutas que não gostava ou simplesmente daquela sensação de estar fechada num sítio do qual poderá ter dificuldade em sair. Tipo, e se isto nos cai tudo em cima?

A menina do monte não se lembrava de nada disso, até porque há muito tempo que não se colocava numa situação em que tivesse que pensar sobre o assunto. Pois. Até que decidiu ir passear para o Vietname.

No Vietname, a menina do monte e a família, decidiram fugir aos turistas que se concentram em magote em Halong Bay e ir para um sítio, mais frequentado por locais e ao qual chamam “Halong na terra”.

Chegaram ao local, entraram para o barco, uma aventura por si só, que aquilo é pouco mais que uma jangada de bambu… Tudo a postos, lá vamos nós.

A menina do monte olha espantada para tudo o que a rodeia. Que maravilha, pensa, que paz. 

O que a menina do monte não pensou foi nas grutas. Até que viu a primeira. E mesmo ai também não pensou muito no assunto. Até que viu a placa: 350 metros. Ena, grande! Pensou ela. E foi das últimas coisas que pensou. A partir daí concentrou-se em tirar fotos, ver as estalactites, filmar o percurso, escutar os OH!!! da pulga e do pirata. E afastar os pensamentos do “epá, isto é mesmo baixinho…” e “e se ficamos aqui presos?”

Chiu!!!… dizia a menina do monte a si própria. Está tudo tranquilo… Eles fazem isto todos os dias.

Quando se vislumbra, literalmente, “a luz ao fundo do túnel”, a menina do monte finalmente esboça um sorriso. Está quase… E ao passar a barreira que nos divide entre o dentro da gruta e a liberdade exterior… Uau! Que lindo!… e respira pela primeira vez em algum tempo.

Grutas

Aliviada, a menina do monte confessa: “acho que não gosto muito de grutas”. Riso geral. “Para quem não gosta, portaste-te muito bem!”, dizem eles!

A menina do monte não se lembrava, mas não gostava de grutas. Mas depois foi ao Vietname. E passou dois dias a andar de barco. Barquinhos pequeninos, de bambu, a remos. Que entravam e saiam de grutas. E entravam e saiam de grutas. Umas compridas, intermináveis. Outras tão curtas que quase não dávamos por elas. Umas altas. Outras baixinhas, baixinhas, baixinhas. E entravam e saiam…

A menina do monte não se lembrava, mas agora também já não importa. O que importa mesmo, é chegar ao final de cada uma, e ver o que a Natureza guardou para nós. E ouvir o OHHH! da pulga e do pirata.

A menina do monte não se lembrava, mas faria tudo outra vez. Porque quando deixamos, a vida arranja sempre maneiras de nos surpreender.

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E nós somos o quê?

Conversas a caminho da Escola…

“Eu não sou budista! Os Cambodjanos é que são budistas, eu não sou Cambodjana… Nós (Os Portugueses) somos o quê?”

Nós somos o que quisermos ser, digo eu. Eu até pensava que eras um bocadinho budista, estás sempre a falar do ciclo da vida e como voltamos a viver…

“Não! – continua ela – Somos o quê, lá em Portugal? Ah… E nós também acreditamos nisso dos Católicos? Mas também achamos que as pessoas voltam a viver? E quem é Deus? Não estou a perceber… É diferente do Budha? E as pessoas depois de irem para o Céu também voltam a viver?.. Eu cá acho que devia ser assim, umas pessoas se quisessem iam para o Céu, outras se quisessem voltavam a viver e pronto, acabava-se a confusão das Religiões!”

… Silêncio…

“O meu professor de (Cultura) Khmer diz que as pessoas más ficam na terra e isso não é bom porque depois são comidos pelos bichos, pelas tartarugas e as minhocas e isso… É melhor ser-se bom. O que é isso do Inferno? Ufa! Ainda bem que o Big Cat era bom, ao menos assim, não ficou a ser comido pelos bichos e anda a brincar no Céu…”

Suspiro… (eu!)

Eu, o meu irmão e o 24 de Abril Sempre

Escrevi este texto a 24 de Abril de 2012. O dia em que o meu irmão faria 31 anos e o primeiro que passei longe de casa, da família e dos amigos. Hoje o meu irmão faria 35 anos e estou novamente longe. Ao acordar e dar novamente com este texto, achei que valia a pena ser de novo partilhado. Porque hoje é o seu dia. Porque tenho saudades dos seus sorrisos, da sua paixão, das suas aventuras e das nossas turras. Porque ele continua sempre connosco nas nossas memórias.

 

“Eu, o meu irmão e o 24 de Abril Sempre

Desde que me lembro de existir que sou a irmã mais velha do PuTo e também é mais ou menos desde essa altura que o fogo de artifício do 25 de Abril é, para mim, muito mais do que isso, é o momento alto do seu aniversário.

Lembro-me de quando era miúda e morávamos nas Pites e o nosso vizinho, que trabalhava na Câmara, disparava os foguetes em frente à nossa casa. Achava o máximo, que depois de cantar os parabéns, fossemos todos para a rua para ver o que na altura pouco mais era do que uns morteiros que faziam mais barulho do que outra coisa (só não percebia muito bem porque é que o meu aniversário não tinha daquelas coisas, mas enfim!). Mais tarde, mudámos de casa e os prédios em frente (ai cuquinha que nos tapaste a visão) pouco ou nada deixavam ver aquilo que começava a ser um fogo de artifício “a sério”, lançado no Jardim das Canas. Começaram então as corridas, depois de jantar e de cantar os parabéns, primeiro para a frente do teatro e depois para a Praça do Giraldo. Sim, corridas, porque por mais cedo que o jantar começasse, haveríamos sempre de chegar já ao som do primeiro morteiro (com algumas excepções em anos de bons concertos, mas sempre tarde demais para arranjar um cravo).

A verdade é que adoro fogo-de-artificio e não me lembro de um ano, de um aniversário, sem aquela explosão de cor e som. Mesmo naquele ano triste de 2004, mesmo nos anos que se seguiram, sempre fiz questão de continuar a correr para a Praça, umas vezes sozinha outras não, porque achava que ele, o meu irmão, o Puto de todos,  lá haveria de estar, a acompanhar-me, numa estrela, num foguete, num sorriso. Hoje estou longe, onde estou não há cravos e ninguém sabe o que é o 25 de Abril e, muito menos, o que é essa coisa fantástica de se ter um irmão lindo, que ainda por cima tinha a sorte de ter fogo-de-artificio só para ele. E, por isso, estou um bocadinho mais triste.

Mil beijos para sempre maninho. 24 de Abril sempre!

 

 

Andanças…

 

Só para dizer que não desapareci! Estas duas semanas têm sido um tal de cá para lá e de lá para cá, que tem havido pouco tempo para dedicar à escrita. Mas assim que tiver um tempinho, hei-de cá voltar para partilhar as nossas andanças. Sim, que já tenho saudades!

Entretanto, aqui fica um cheirinho das nossas aventuras. Um pedido da pulguinha saltitante que, de tanto me ver a fotografar soalhos, me disse: “olha aqui este chão! É tão bonito. Tira uma foto comigo!”. Cá está ela, algures em Hanói. Ate já!

O mocho

Carolina, porque é que andas com uma saia na mochila? Pergunto eu.

Porque sim. Quer dizer, eu sei que queres saber, mas não vou dizer, responde ela. E lá continuou a saia toda enrolada no meio dos livros da biblioteca e do saco da natação.

Uns dias depois chega o recado da escola. Visita à Krousar Thmey, uma das poucas associações que trabalha com crianças portadoras de deficiência, neste caso, visual e auditiva. É favor chegar cedo. E temos que levar um lanche para partilhar!, diz ela.

E a saia já pode ficar em casa! (Ai sim?) Lembras-te quando fui com a minha escola a Kampot? Fomos ver um espectáculo de umas crianças que não tinham umas mãos e uns braços e assim… E não ouviam, nem viam… Então, na minha sala estivemos a fazer como se fossemos elas. Tínhamos que esconder um braço atrás das costas e vestir a roupa e comer…

Uns dias antes desta viagem a Kampot, íamos no carro e na rádio ouvia-se uma entrevista a uma senhora fantástica que, tendo nascido sem mãos, tinha desistido de usar próteses e aprendido usar os pés para pintar e para tocar piano, por exemplo. Mais tarde, tornou-se a primeira pilota de avião sem mãos da história. Na altura ficou muito impressionada. Confusa. Como é que tal era possível? Como é que se segura o pincel nos dedos dos pés? Como é que se consegue mexer assim os dedos? Perguntas, perguntas e mais perguntas. Falámos muito sobre isso, vimos vídeos no youtube. E quando finalmente fez a visita à Epic Arts, tudo lhe fez mais sentido.

Finalmente chegou o dia de visitar a Krousat Thmey. Apesar de ter entrado na escola bem mais cedo que o habitual, quando a fui buscar não tinha pressa de sair. Queria conversar. Contar tudo. Sentámos-nos junto ao campo de futebol e ficámos ai a falar sobre tudo o que tinha aprendido com os meninos que não ouvem nem vêem. Começam a escola cedo, diz ela, às 6 da manhã e almoçam às 11! E têm aulas como nós.

Os meninos que não vêem, escrevem as palavras num papel com a ajuda de uma máquina que faz bolinhas da direita para a esquerda. E depois viram ao contrário e lêem da esquerda para a direita. Como nós. Só têm problema com a matemática, porque é mais difícil escrever os números, conta ela.

Mas o que mais gostou mesmo foi de estar com os meninos que não ouvem (mas vêem!) e aprender língua gestual. Eles até me ensinaram a dizer “Eu chamo-me Ana”! Foram eles que escolheram Ana porque Carolina era mais difícil… Isso e os nomes dos animais, que é logo meio caminho andado para lhe prender a atenção. Pergunta-me lá um! Lembrava-se de todos, dos mais simples como o coelho aos mais complicados como o mocho que ela faz na foto tão bem e que eu não consegui fazer…

No Cambodja, não há essa coisa da inclusão, muito menos em escolas internacionais como aquela que ela frequenta. As disparidades no ensino são mais que muitas. E os meninos e meninas destas escolas, vivem por vezes em bolhas exclusivas, distintas, que dificilmente se aproximam uma da outra. Por isso, iniciativas como estas, parecendo tão pouco, quando devidamente trabalhadas são tão importantes. E foi isso que fizeram. Aos pouquinhos foram falando sobre o assunto, experimentado, aproximando. Dizem eles, os Srs. da escola, que a competência Ser Cidadão é tão importante como o Domínio da Língua e a Matemática. Ainda bem. E que assim seja, sempre.

O Sr UNICEF

Porque este blog não se faz apenas de três pessoas. Porque esta aventura só faz sentido a quatro. E porque há momentos que merecem mesmo ser partilhados, assim cheios de baba e orgulho. Porque hoje o Sr UNICEF cá de casa (também conhecido como Nelson. Ou Né. Ou Nel Son. Ou paiiiii!) é a pessoa de destaque no site da UNICEF Innovation.

Fica aqui o link! Vale a pena ler. Mesmo. Ou arriscam-se a perder coisas fantásticas como:

How would you describe your job to a 5-year-old?
For a 5 year old I’d probably say I try to do things that help children feel happy and smile.

What’s one of the biggest risks you’ve ever taken in your life?
Having my own children. Nothing could have prepared me for the first time I held my daughter in my arms.

É preciso dizer mais alguma coisa? Vão lá espreitar. Adoro. Um orgulho este pai Nelson.

Casa velha, casa nova

Há exactamente um ano atrás deixámos a casa da piscina e viemos para a casa nova.

Dizia eu, como legenda a esta foto: “Hoje foi assim… dia de despedida da casa da piscina e de mudança para a casa nova. Para já, no meio do caos de caixas, malas e brinquedos, tudo dorme tranquilo, sem piscina, mas no coração da cidade”.

Um ano depois, a casa da piscina continua a ser a nossa casa e a casa nova continua a ser… a casa nova. Porque isto acontece, não sei. Talvez porque as mudanças tenham sido mais que muitas. Desde Julho de 2011, quando nos metemos nesta aventura, consigo contar rapidamente umas seis ou sete casas. (Sem contar com os intervalos que fizemos na casa do monte) Por diversos motivos, em nenhumas delas, nos demorámos tanto como nesta…

Então, quando é que a casa nova passa a ser casa? Diria que as casas, por mais que as transformemos na nossa casa,  só passam mesmo a ser nossas, quando de lá saímos. “A nossa casa de Siem Reap”, “a nossa casa do Laos“…  Parece que em todas as elas estamos a prazo e, como tal, temos sempre receio de nos sentir em casa, de nos acomodarmos demasiado. Tal como nunca sabemos, verdadeiramente, quanto tempo iremos ficar neste país ou em qualquer outro… Até porque, será por aqui mesmo que queremos ficar? E se não, para onde ir?

Para já, acho que estamos de Parabéns por finalmente termos arranjado um poiso! Ou uma casa, vá!