Desta vez temos tempo…

Em 2011 tínhamos tempo, mas ela não percebia. Tentávamos explicar-lhe, mas era pequenina demais para perceber a dimensão do que ia acontecer.

Em 2013, num dia dizíamos que íamos ficar por ali e renegociávamos o contracto com o senhorio e no outro o resultado de umas análises de rotina, levam-nos a largar tudo e a regressar de emergência. Ela percebia mais ou menos, mas houve pouco tempo para explicar.

Em 2014, ela percebia e nós explicámos, ou tentámos, mas houve tanta, tanta coisa que as explicações eram tão difíceis de entender como de dar…  E, mais uma vez, parecia que tempo era coisa que escasseava…

Agora, pela primeira vez, temos tempo. E ela percebe e bem. E, por isso, ter tempo é muito, muito bom. Tempo para gritar que não quer, que é injusto, que agora é que era bom e que quer mais. Tempo para fazer despedidas e encerrar capítulos. Tempo para fazer festas e mimos, gritar, chorar e rir. Mas também tempo para explorar, fazer milhões de perguntas e sonhar com o que há-de vir.

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Lido na paisagem…

Gosto de me perder na cidade, nas ruelas, nos mercados… Virar à direita ou à esquerda quando sabemos que em frente seria o caminho certo. Ir a pé ou de tuk tuk em vez de pegar no carro…

Foi isso que fiz no outro dia… E de repente, algures em Phnom Penh, na parede duma ruela daquelas bem estreitas, lia-se assim em grandes letras pretas:

Open your eyes and dream.

Abre os olhos e sonha, em Português. Esteve quase para ser uma daquelas quase-fotografias. Aquelas que ficamos a pensar que devíamos ter tirado uma fotografia, mas não tiramos e depois ficamos a remoer sobre o assunto. Mas não. Parei o carro ali mesmo no meio da rua, sai e tirei a foto. Porque numa altura de grandes interrogações e ainda maiores transições, quando a vida nos manda recados, é melhor que os tomemos a sério.

A Avó Mina

A avó Mina deixou-nos no dia 9 de Abril. Já passou mais de um mês e desde então que tenho este rascunho guardado à espera de uma qualquer inspiração para falar sobre a decana da família. A avó Mina era aquela que falava pouco, mas que, no pouco que dizia, trazia tudo o que tinha para dizer. E assim, numa frase, lembrei-me do quanto o Pirata adorava passar tempo com ela durante as nossas férias no monte. Talvez por serem tão parecidos nesta sua utilização económica, mas super eficiente das palavras e dos sorrisos…

Era assim ela, distante e soberana, como na foto. Gostava de estar ao longe. No seu canto. Com a sua vida, aquela que só ela sabia o que tinha custado a viver e que teimava em prolongar-se para lá do que dizia desejar. Longe, mas não desatenta. Dava conta de tudo e de tudo sabia. Mesmo sem ouvir. Ou mesmo fazendo que não ouvia. Falava o que tinha a falar, mesmo quando parecia que não sabia, que não ouvia e não dizia.

Era a avó da pescadinha frita, da sopa de legumes, do arroz doce e dos biscoitos de areia. Que deixava amassar e que depois guardava (e controlava) na mais alta prateleira da despensa. Porque era preciso poupar. E porque nós tínhamos que aprender a chegar às prateleiras mais altas, que a vida não é fácil para ninguém. E das galinhas e dos coelhos. Que passávamos os dias a alimentar. Couves, ração, feno… Até que se aborrecia e dizia: “Já chega. Vais gastar a comida toda”. E que depois vendia e, se preciso, matava com uma pancada seca. E não me deixava ver porque: “eles assim ficam tristes e não morrem”. Penso agora que quem ficava triste não eram eles. Mas isso, devo dizer, jamais me tinha ocorrido.

Era a avó dos mil e um esconderijos: Das jóias, do dinheiro da luz, dos ovos e dos coelhos. E como não havia mais que fazer, revirar a casa a tentar descobri-los era diversão suficiente.

Era a avó dos padrões garridos, das meias de quatro agulhas e das almofadas de tricô. E dos gatos. Gatos de lã. Castanhos, azuis, vermelhos, cinzentos, amarelos… Unicolores, multicolores, com padrão e sem padrão. Que fazia ao serão. E que guardava religiosamente em cima da televisão (aquelas do tempo em que as televisões ainda serviam para ver as novelas e para guardar os bibelots).

Faz cerca de um mês que ela nos deixou. Faz cerca de um mês que aconteceu aquilo que mais temia e previa. Porque quem anda nestas andanças de cá para lá e de lá para cá, sabe que um dia vai estar longe de mais para estar lá. E que estar do lado de cá vai parecer tão longe como nunca.

Lembro-me sempre do dia em que nos despedimos rumo à nossa primeira aventura, fez agora cinco anos. Ela, sábia como sempre, despediu-se de mim, com os olhos lacrimejantes, dizendo: “Adeus Ana. Quando voltares se calhar já cá não estou, mas aproveita muito. Está bem? Sê feliz.” Felizmente, ainda tivemos muitos reencontros depois disso, mas estava escrito que assim seria. E assim foi.

Tanto tempo passado e antecipado, não ajudou a que conseguisse deitar cá para fora o que sentia. O rascunho deste texto assim ficou com uma foto, apenas. Até hoje. Quando a miúda mais espectacular do mundo, do meio do nada, se sai com:

“Já sei uma coisa que temos mesmo que levar e que não podemos deixar atrás. Os gatos da avó Mina. É uma recordação dela. E são mesmo preciosos porque foi ela que os fez.”.

No seu silêncio de quem anda a viver a sua vidinha de pulga saltitante de 7 anos, anda também em contagem de crescente para a nova aventura. Fá-lo vivendo. E pensando. E falando. De forma intensa e determinada. Como o fez também, sempre à sua maneira, a sua (bis) avó Mina durante quase um século… Pronto. É isto.

 

 

Para onde vamos?

Para quem anda nesta vida de caracol com a casa às costas, há sempre aquela altura do ano em que parece que toda a gente se vai embora. As pessoas chegam e partem em ciclos. Partem com o início do Verão, chegam com fim do mesmo. Entre a curiosidade de partir rumo à nova aventura e a saudade antecipada pelo que se deixa, é um momento com um sabor agridoce para quem parte e para quem fica.

Este fim-de-semana demos início a esta “época de despedidas”. Quatro no total. E uma festa de anos. No meio deste corrupio, entre uma festa e outra, fizemos uma pausa para almoçar, só os quatro. A Carolina encontra uma amiga no restaurante e vai conversar com ela.

Ficamos nós a terminar o nosso café, tranquilos, enquanto o Gabriel dorme a sesta no carrinho. De repente, chega apressada e sai-se com:

“- A seguir para onde vamos? 

– Então, ainda agora dissemos. Vamos descansar um bocadinho a casa, depois vais para a tua festa e o Gabriel vai para a dele…

– Não! Para que país!?

– Ah!… Moçambique!”

 

E pronto, também ela já entrou no frenesim…

Como assim só passaram dois anos?

O Facebook diz-me que passaram dois anos desde que publiquei esta foto.

Pois eu cá acho que ele deve estar enganado. Impossível que tenham apenas passado apenas dois anos. Não… Isto já foi há muito, muito tempo. Toda uma vida já se passou depois desta foto. Vá, uma vida não, mas umas boas duas décadas, concerteza!

Porque se fosse verdade o que dizem os senhores que controlam as datas do Facebook, queria dizer que faz pouco mais de dois anos que atravessei meio mundo com uma pulga e um recém-nascido (que nessa altura ainda não tinha direito a cognome!) naquela que foi provavelmente a pior viagem intercontinental da história, para nos juntarmos ao pai Nelson que já estava no Laos. E faria pouco mais de dois anos que arranjávamos uma casa espectacular cheia de árvores de fruto, comprávamos o carro mais feio de Vientiane, arranjávamos, a custo, escola para a Carolina, tentávamos, também a custo, que eu fizesse um mestrado online que definitivamente tinha tudo para não acontecer, naquilo que parecia o local perfeito na época errada. E faria pouco mais de dois anos que sobreviviamos à pior época quente que já tínhamos vivido e passávamos pela festa mais louca e refrescante do ano (o Sabaidee Pii Mai) até chegar a este dia em que finalmente conseguimos fugir da chata e cinzenta capital Laosiana em direcção às palmeiras e aos campos de arroz verdejantes?…

Impossível caros senhores do Facebook! Isto já foi há muito, muito tempo! A sério!

Porque isso quereria dizer que foi apenas há dois anos que aconteceu este fim-de-semana, o primeiro Dia da Mãe a quatro, em que finalmente nos re-encontrávamos depois de uma saída apressada do Cambodja e de um período familiar complicado (para ser simpática…) e que voltávamos a ser uma família não-totalmente-destrambelhada e que sabe viver a quatro. E que a partir daqui a vida parecia boa, boa. E andávamos a apanhar mangas e cocos no quintal, a fazer barbecues com os amigos, a alimentar a colónia de gatos do bairro que crescia sem parar, a torcer ao longe com cada notícia do avô Adérito, a vibrar com a pulga a dar os seus primeiros passos no ballet e o pirata a dar as suas primeiras reboladelas no chão da sala…

Não senhores do Facebook. O pirata já anda faz séculos e a pulga diz que ballet é para meninas e zumba é que está a dar! Okay?

Ou acham que caímos num qualquer túnel do tempo? E que aquele momento em que de repente percebemos que afinal a vida não seria assim tão boa e, sem alternativas, decidimos sair e voltar para Portugal, sem eira nem beira, com um pirata à frente e uma pulga atrás, dois pais desempregados e um futuro incerto, mas sempre com esperança (ou muita loucura, aquilo que der mais jeito para a malta andar para a frente) para acreditar que dali a uns meses as coisas mudariam e estaríamos novamente a embarcar numa nova aventura, se passou afinal há apenas dois anos e não numa outra vida como realmente parece?

Não senhores do Facebook. A vida não se mede assim. Até porque nesta vida onde nós andamos, temos direito a celebrar pelo menos três passagens de ano, por ano! Diz que temos o International, o Chinês (e Vietnamita) e o do Laos (e do Cambodja, da Tailândia…). E, por isso, caros senhores das datas do Facebook, a bem da minha sanidade mental e dos restantes membros da família, vou ignorar esta vossa provocação e continuar a achar que já se passaram uns bons aninhos desde que esta foto foi tirada. Até porque ninguém passaria por isto tudo em apenas dois anos e estaria já de novo a preparar-se para fazer as malas e embarcar em nova aventura, certo?… Ufa, ainda bem que nos entendemos. Obrigada!

 

 

 

A todas as mães elefantes…

Conversas no meio do trânsito…

E como é que a sra sabia daquilo? E como é que era aquela história da Noa? E das galinhas? E do Tiger? E o mano fez o quê? E lembras-te do aniversário das porquinhas? E o que vai acontecer aos cães? E contas-me outra vez aquela história do dia em que…

Ao fim de tantas memórias pedidas, já não sabia mais. E saí-me com um…

– Não sei, já não me lembro de mais…
– Sabes sim, disse ela, as mães guardam sempre todas as memórias.

É isto. Feliz dia da Mãe a todas as mães elefantes que ai andam! Em especial à minha que já é avó e é, por isso, mãe duas vezes. E à avó Zé que tem memórias para dar e vender! E um beijo também especial aos meus filhos borboletas, por me ensinarem todos os dias o que é isto de ser mãe.