A bicharada lá de casa…

Já aqui o tenho dito, das coisas mais duras de se estar fora é não se poder ter a família toda connosco. E por toda a família entenda-se mesmo toda a família. Bicharada incluída.

Por estranho que possa parecer, são deles que por vezes sentimos mais a falta. Eles não falam no Skype, não metem conversa no Messenger, nem postam fotografias giras no Instagram. De um momento para o outro, não há patas no joelho, não há abanar de caudas, não há corridas. Deixam de fazer parte da nossa vida. Do nosso dia-a-dia. E nós do deles. Sem aviso. Como é que se explica a um patudo: “desculpa lá meu lindo, mas vou ter que ir ali trabalhar para outro continente e volto daqui a seis meses.”. Exacto. Não se explica. Partimos só.

E o tempo vai passando. E eles vão ficando velhotes. E com cada ida ao vet, com cada otite, com cada artrose, com cada nova febre da carraça, com cada nova mazela, o nosso coração treme. Estão a ficar velhotes, pensamos. E depois chega o dia. Chega o dia em que são eles que nos deixam. Chega a vez de serem eles a partirem só.

Foi o que aconteceu com o Rufus, o Rufia, que numa tarde de início de Outono se deitou na sua cama e partiu. E nos deixou sós. E com ele levou um grande, grande pedaço de nós.

O Rufus, o Rufia, apareceu até nós numa tarde de calor imenso em dia de S. João. A mana foi logo adoptada. Ele, desengonçado, ficou para trás. Até que o meu irmão o viu e me liga: “Achei o cão perfeito!”, diz ele. E era. Todo ele era focinho. Parece que foi mordido por uma abelha, diziam. E parecia mesmo. É pêlo de arame, bom para os ouriços, dizia uma peça famosa da nossa Praça. Verdade, verdadinha, para mal dele e dos ouriços que com ele se cruzaram!

Rufus, o Rufia, teve uma história atribulada. Tinha tanto de meigo e inteligente, como de intempestivo e ciumento. Mas era um cão especial. Um cão que parecia ler-nos as emoções, que não descolava do nosso lado. E que pedia mimos como ninguém.

Rufus, o Rufia, tinha também o dom da asneira. Upa, upa! Se tinha. Tudo lhe acontecia. Em tudo se metia. De reflexos a galinhas, de febre da carraça a tractores, de ouriços a carteiros… A lista nunca parou de aumentar (e a conta do vet também!)

Mas por muita asneira que fizesse, Rufus, o Rufia era um cão bem especial. Era o meu cão. E o cão do meu irmão. E por isso, mesmo quando fez a maior asneira de todas, fizemos aquilo que se faz nas famílias, nas famílias em que a bicharada também conta para o agregado, diga-se. E tentámos passar à frente, contra tudo e contra todos. Porque Rufus, o Rufia, era um cão bem especial. Era o meu cão. E o cão do meu irmão.

Se ele nos perdoou por termos ido para outro continente? Não sei. Espero que sim. Mas sei, que agora que ele partiu, e que ficámos sem ele, sem o nosso Rufus, o Rufia, o meu cão e o do meu irmão, é como se um pedaço, um grande pedaço de nós, tivesse ido também com ele…

E enquanto termino este texto, outra triste notícia… Chegou a hora do Joe partir também para outras pastagens.

Ainda o Pirata não dizia palavra. Ainda o Pirata chorava cada vez que um cão se aproximava. Ainda o Pirata mal andava e já disparava: Joe, o Joe? Onde tá o Joe? Ele era a sua sombra. O seu guardião. A nOa escolheu a Carolina, dizíamos. O Joe escolheu o Gabriel.

20160801_105432

O Joe estava velhote. E estava doente. Mais uma vez adoeceu com uma doença para a qual tínhamos tomado todas as precauções. Porque tem sido sempre assim e a bicharada lá de casa parece ter um íman para maleitas complicadas. Triste, mas verdade. Tudo se fez, mas desta vez, o tudo já era demasiado. Chegou a sua hora. Porque, como explicámos à nossa pequena amante dos animais, por vezes, quando gostamos mesmo, mesmo de uma pessoa, o melhor que podemos fazer por ela, é deixá-la ir. Mesmo que isso nos deixe muito, muito tristes.

Ficam as meninas, diz ela. Ficam as meninas. Dias tristes para a bicharada lá de casa.

Advertisements

One thought on “A bicharada lá de casa…

  1. Felizmente nunca passei por isso, mas imagino o como deve ser difícil.
    Já é difícil dizer adeus, estando longe então..Sinto muito por sua perda.
    Mesmo assim, adorei o como escreveu a publicação.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s