Cocó Pinguim

Gabriel – Mãeeee! Já fiz xixi-pum.

Eu – OK! E o cocó?

Gabriel – Fiz com a Rosa. E era assim e assim e assim (faz gestos no ar) como uma cara de pinguim… (o quê?) Sim, tinha mesmo cara de pinguim.

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Parabéns a ti.

Hoje é o teu dia. E eu acordei a pensar que farias 37 anos. Bolas, bolas.

A ideia de que possas já não ser assim tão PuTo entristece-me. E entristece-me pensar nas coisas fantásticas que teriam encaixado em todos esses anos. Em todas as histórias, todas as aventuras que irias viver e contar. O orgulho imenso nas tuas conquistas e as turras que iriamos continuar a ter, porque sim… E no entanto, tanto tempo em que só temos isto. As memórias.

Gostava de poder construir novas memórias contigo. Tinhas gostado de nos ver a explorar mundo pelo SE asiático. E até acho que tinhas parado por lá um bocado. Gente boa aquela, cheia de cor e com aquela paz que tu gostavas. Ou talvez gostasses mais deste cantinho do índico, das paisagens a perder de vista e das praias sem fim.

Também gostava muito que conhecesses os teus sobrinhos. E que eles te conhecessem a ti. E que os levasses para aventuras. E que os ajudasses. E que respondesses quando perguntam “E o PuTo, era como?”. Sim, porque eles perguntam. Mais a Carolina que o Gabriel, claro, mas perguntam. E tocam bateriam e orgão. E é tão doloroso para os meus ouvidos, como quando eras tu que estavas a aprender. (Não tive ainda coragem de falar da moto-serra, não vão eles começar a ter ideias tontas!). Ias ter orgulho neles. Estão uns crescidos, lindos, cheios de mundo e com o teu brilho no olhar.

Mas era isso, o que eu gostava mesmo, mesmo, era que estivesses aqui. Fazes-me falta. Fazes-nos falta. Muita falta. Mil Beijos de Parabéns para sempre maninho.

As senhoras estão muito cansadas.

Hoje tive que ir ao banco. Coisa para durar uma hora de tempo, como se diz por aqui. Ou mais.

Como ir ao banco é coisa para durar muito e muito tempo, há pessoas que esperam sentadas e outras que esperam, em fim, em pé. Independentemente do lugar na fila que ocupam.

Hoje não foi excepção. Chegar, preencher o papel (que no final não serviu para nada) e ir para a fila. Tudo como sempre. Até que… Duas cadeiras ficaram vagas. E olharam para nós. Eu e a mamã que estava à minha frente. E um senhor fez sinal com a mão para que, eu e ela, nos sentássemos. Agradecemos e lá fomos em direcção às tais cadeiras.

Eis senão quando, quase ao mesmo tempo, o senhor que estava ao meu lado acrescenta: “sim, podem sentar-se. Nós somos mais jovens podemos ficar de pé.”…

“Desculpe?! (Inserir imagem de chamas a saírem dos nossos olhos raiados ao mesmo tempo que esboçamos aquele sorriso parvo do “deves estar a brincar!”) Está a chamar-nos velhas?”

“Bem, não”… tentou ele, meio atordoado pelo olhar fulminante. “É só porque sei que as mulheres estão sempre mais cansadas… Porque passam muito tempo na cozinha e tal…”

Estava eu já de lança chamas na mão quando a mamã, em toda a sua grandeza, levanta a mão, faz sinal para que se cale e em toda a sua sabedoria diz: Está dito, não há como desdizer.

Não tem como mesmo. É isto. Em pleno 2018.

Um pouco de tempo mais tarde, o senhor lá arranjou uma cadeira para descansar as suas jovens pernas. E do alto de todo o seu cavalheirismo passou à nossa frente.

Estive quase para lhe ir dizer: “Tem toda a razão, caro senhor. As senhoras estão muito cansadas. Mas não é da cozinha.”

(E eu que não sou cá de coisas, só espero que lhe apareçam sempre muitas cadeiras na vida. Para ir descansando as suas jovens pernas enquanto espera por essa dama que lhe vai preparar a papinha toda.)

Gabriel. 4 anos, 4 países.

– Gabriel, sabes onde é que nasceste?

– Sei. No Cambodja.

– Quase. Quando ainda estavas na barriga da mãe, saímos do Cambodja e fomos para Portugal. Nasceste lá, mas depois foste ainda bebezinho para o Laos. Depois, quando já eras um pouquinho menos bebé fomos para o Cambodja.

– Ah !!! Está bem.

– E agora sabes onde estás?

– Sei. Na casa nova em Moçambique.

Gabriel. 4 anos, 4 países. E um mundo cheio de casas novas por descobrir.

Carolina e os cavalos

Carolina gosta de cavalos. De facto, a Carolina gosta de todos os animais do mundo. Mas os cavalos sempre tiveram um fascínio especial. Sempre assim foi. Desde os tempos de Siem Reap, em que passeava pelos arrozais no pequeno Ollie. E do Laos, onde também encontrou um Ollie. Um Ollie diferente, de cor castanha e não de prata como o primeiro. Em Phnom Penh, não havia Ollie, mas também havia cavalos. O seu preferido era o Pimousse, um pequeno cavalo cambodjano. Não era um Ollie, mas para ela, era como se fosse.

Carolina gosta de cavalos. Mas também gosta de missões. E uma das missões que Carolina escolheu para si, quando viemos para Maputo, foi: “Aprender o máximo que pudesse sobre cavalos para um dia poder montar a minha própria quinta de cavalos no Monte”. E foi assim que começou a nossa aventura das terças-feiras ao final da tarde na Tsamadhi. E foi também assim que apareceu o novo Ollie da vida da Carolina.

Pouco mais de meio ano depois de dar as primeiras passadas a sério neste incrível mundo novo, Carolina já anda a passo. E a trote. E a galope. Tudo isto enquanto fala e ri e reclama e gesticula. E fala e ri mais um pouco. Também faz caras sérias. E zanga-se de vez em quando. Mas ri mais do que se zanga. Diz o professor: “Esta menina é especial. Não tem medo de nada.”. Mal ele sabia quanto. Está no campo, está com animais, não tem como falhar.

Quando se gosta tudo parece mais fácil. E Carolina gosta. E muito. E aprendeu tão rápido que se propôs uma mudança de turma. “Subir de nível”, dizia ela, orgulhosa. As subidas são óptimas, quando correm bem. Mas podem ser muito más, quando não correm assim tão bem. Ainda por cima, por aqui as sextas à tarde são uma espécie de Sábado antecipado, ideal para um almoço tardio, para ir de fim-de-semana prolongado ou ficar só em casa.

Mas Carolina gosta de cavalos. E, por isso, lá fomos nós. Mesmo que isso implicasse, como na sexta passada, sair da festinha de anos de uma amiga, para ir já ali ter uma aula e depois correr para ainda voltar a tempo… Ou pelo menos, era este o plano, caso as coisas tivessem corrido bem. Mas não correram. E chegámos atrasadas à aula. E quando chegámos o seu Ollie não estava pronto. E para não atrasar, foi andar noutro cavalo, o George.

Carolina e George não se conheciam. E também não se entenderam. E zangaram-se. Zangaram-se tanto que a aula acabou com Carolina a voar por cima do George e a aterrar de cabeça no chão. Carolina já não ria. Carolina chorava, zangada e dorida. Nesse momento, Carolina já não gostava de cavalos. E eu, que ainda tenho a imagem duma Carolina em alto voo a aparecer em repeat na minha cabeça, também não. Felizmente, os professores estavam ali e com toda a calma do mundo, pediram-lhe que voltasse a subir. Que desse uma volta pequena. Que fizesse as pazes. Que isso era importante para ganhar coragem para voltar. E depois, sim, fossemos a correr para o hospital.

Assim fizemos. Carolina deu meia volta em cima do George. E a seguir corremos para o hospital. Naquele momento Carolina tinha dificuldade em gostar de cavalos. E chorava sem perceber como aquele cavalo tinha falhado tanto com ela. E como eles, os professores, podiam dizer que cair fazia parte do processo. Bem como voltar a subir. Estava zangada, muito zangada. E triste. E dorida.

Mas Carolina, para além de ser uma menina que gosta de cavalos e de missões, é também uma menina corajosa. Especial, como dizia o professor. E foi assim que, logo nessa noite, depois do susto, depois do pânico, depois da zanga, depois da ida às urgências, depois da dor e depois de, já aliviada, começar a simular o voo e meter todos os médicos a rir ao contar as suas aventuras, dizia: “Eu quero voltar, mas quero o Ollie. E quero voltar para as terças”. E voltou. Terça-feira lá estávamos nós. E o Ollie estava à espera dela. E as suas amiguinhas, o seu grupo de sempre. Que afinal também têm histórias de voos para contar. E o seu professor. Que até já caiu 10 vezes. (Diz que tem que se cair 100!)

Enquanto se equipava, perguntei-lhe como estava. Que era normal que estivesse nervosa. Disse que não, que ia correr bem com o Ollie. Sussurrei-lhe que era a minha filha coragem e lá foi ela. Apenas quatro dias depois, Carolina voltava a gargalhar em cima do cavalo. E a reclamar. E a falar. E a gargalhar novamente. E no fim gritava: “Iupi! Fiz uma volta inteira a galope! Iupi!”.

E eu, ao mesmo tempo que assistia a tudo aquilo com um orgulho imenso, pensava: E agora tu minha menina, quando é que te vai passar o susto? Quando ela te perguntar quando vais voltar aos teus cavalos, que vais dizer? Ah?

Carolina e Ollie

Porque nós somos o Mundo

Porque hoje é o Dia Internacional da Mulher. E porque vale a pena lembrar. E vale a pena lutar. E vale a pena celebrar. Porque nós somos o Mundo.

Porque hoje é o Dia Internacional da Mulher. E porque vale a pena recordar, enviei para a minha Carolina, a história de uma outra Carolina. Carolina Beatriz Ângelo, médica ginecologista e a primeira mulher a votar em Portugal. Disse-lhe que tinha sido tão importante, que hoje até tinha um hospital com o nome dela. Para que a minha Carolina saiba que uma só pessoa, uma só mulher, uma só Carolina pode mudar o Mundo.

Porque hoje é o Dia Internacional da Mulher. E porque o Mundo parece virado ao contrário, quero que ela, a minha Carolina, saiba que tem direito ao tudo. Tudo! E se alguém lhe disser o contrário, que faça como agora faz cá em casa. Que bata o pé. Que diga que não. Que bata as portas. Que saiba que vale a sempre pena lutar por aquilo em que se acredita.

Porque hoje é o Dia Internacional da Mulher. E porque continua tão actual, tão necessário e tão poderoso como antes, fica aqui o link para um poema fantástico que partilhei no blog no ano passado: Today I Rise! e para o video que o acompanha.

Porque hoje é o Dia Internacional da Mulher. E porque nós somos o Mundo.

Este não é um post bonito

Este não é um post bonito, porque a vida também não é sempre bonita. A vida pode ser bela e fantástica num minuto e bem feia no minuto seguinte. É assim mesmo. Todos o sabemos. E a vida em Maputo não é diferente.

Se por um lado é um privilégio viver numa cidade à beira-mar plantada, com uma luz que irradia, avenidas grandes com árvores, parques para passear os miúdos, capulanas garridas e cajus torrados, bairros de casas brancas, bom café e óptimos pasteis de nata, também há o outro reverso da medalha.

A vida tem tudo para ser fácil por aqui, mas há sempre aquele mas, aquela coisinha que te consome, que te tira do sério. E ultimamente os dias têm andado polvilhados dessas pequenas coisinhas. E tudo te irrita. Sobretudo quando passas o marco dos primeiros seis meses num país e acaba a lua-de-mel…

São as infiltrações, os buracos, a criminalidade, as praias cheias de cacos de vidro, os cocos que apodrecem na beira da estrada, as prateleiras vazias, o custo exorbitante de produtos básicos, as saudades do mimo asiático, a falta de um bom restaurante vietnamita…

Ontem foi a seca que me irritou. A seca extrema que se vive em Maputo, quando o resto do país está em alerta para o risco de cheias. Quando o país é atravessado por ciclones que destroem tudo o que apanham, Maputo não tem água. Vai para um mês. Não chove aqui e não chove no ponto de captação, na Suazilândia, pelo que a barragem que abastece a cidade está no limite. Como medida protectora, a água da rede é cortada por zonas para obrigar a poupar água. Por vezes um dia, por vezes dois, por vezes quatro…  Quem pode, compra água para encher depósitos gigantes. Quem não pode fica sem água nos furos, porque os grandes camiões-cisterna vão lá abastecer para vender aos que podem… Mas não se ensina a poupar a água. Não se explica que a água não é infinita. Que há alterações climáticas. Não há qualquer tipo de educação ambiental. E, por isso, desde que haja água na torneira, lava-se o carro, rega-se a relva, lava-se o passeio, metem-se os cortinados na máquina…

Tentamos fazer a nossa parte. Poupamos e tentamos ensinar as pessoas que nos rodeiam. Vamos verificando o nível da água no depósito. Após três dias sem água da rede ainda está a meio. Fantástico, pensamos. Entretanto, a água há-de vir, como se diz por aqui.

E depois chegamos a casa ao final do dia e nem pinga de água! Nem uma gota. Puf… Porque os senhores que vieram reparar as infiltrações e arranjar (ou destruir) as casa-de-banho gastaram meio depósito em meia-dúzia de horas. Onde, não sei. Dizem que estavam a testar. E para testar, não usaram os garrafões e os bidons de água reservada como lhes tínhamos dito, mas a torneira (claro!). E para testar, gastaram o mesmo que nós tínhamos gasto em três dias!!! É para ficar com raiva, certo?

Sem água para cozinhar e lavar loiça, fomos jantar fora. No regresso, usámos os tais garrafões para tomar um duche de caneca (10l dão para quatro, sabiam?) e para as aflições de casa-de-banho e água potável para lavar os dentes. E cruzámos todos os dedinhos para que a água voltasse hoje de manhã (ou já tínhamos um contacto dos tais senhores que roubam água para vender a preço de ouro).

Felizmente, a água voltou de manhã. Mas quando os senhores das obras chegaram estava ainda zangada. Não tanto como ontem, mas ainda o bastante para lhes abrir a porta com cara de poucos amigos. E para lhes dar uma bela reprimenda. E uma lição sobre poupança.

E fui fazer o meu café, zangada por ter que ficar em casa a tomar conta deles e terem chegado uma hora e meia depois do combinado. E depois vieram-me pedir água quente para tomar chá. E caiu-me tudo. E lembrei-me do sítio onde estou. Perguntei se tinham chá. E responderam “não, mãe, só temos açúcar”. E tu sabes o que isso significa. Fome. Muita fome. Por aqui, as pessoas sobrevivem apenas. Passam fome a sério. Uma fome que nunca vamos compreender. E quando as pessoas têm fome, não pensam em poupar. Pensam em sobreviver. Vasculham os caixotes do lixo à procura de comida. E comem ali mesmo. E passam o dia com água com açúcar no estômago. E a noite. E isso nota-se no olhar. Um olhar de fome que me era desconhecido. E que me moi. Muito. E que rapidamente me tira da raiva e me deixa só absolutamente triste. Não devia ser permitido viver assim.

Hoje não quero ir à escola.

Hoje de manhã, quando toda a família se preparava para sair de casa, o Pirata decidiu que tinha planos mais importantes. Hoje não queria ir à escola.

Sabemos que ele adora a escola e estava todo sorridente, por isso, não seria caso para ficarmos demasiado preocupados. Ainda assim, tentámos confirmar que era mesmo isso que ele queria. “Sim, hoje não quero escola. Só casa”. Fizemos o último teste, a mão na testa, o qual também comprovou o óbvio – não há febre, não há doença. O diagnóstico era fácil, é apenas um caso de preguicite de segunda-feira. E agora?… Vai aborrecer-se. Lá se vai o meu dia, pensei… Mas perante um ar tão decidido, como dizer não?

Talvez seja a altura de partilhar com os mais distraídos que há todo um Pirata antes-de-Moçambique e depois-de-Moçambique.

O Pirata antes-de-Moçambique era parco na sua utilização das palavras. Fazia-se entender, claro. Mas aquela coisa de viver constantemente no limbo entre quatro línguas nunca o convenceu verdadeiramente. E por isso, era um mocinho de poucas palavras e muitos gestos.

Ora o Pirata depois-de-Moçambique continua a gesticular muito, mas a grande diferença, é que agora fala pelos cotovelos. Fala, fala, fala… Conta histórias, faz queixinhas… Como ainda anda a explorar, poderíamos dizer que é o papagaio cá de casa. Mas a verdade é que esta coisa de viver 90% do tempo só com um língua (há coisas que não mudam, e sapatos continuam a ser shoes e roxo continua a ser purple!), tem nos feito descobrir todo um novo Pirata.

Por isso, quando diz coisas mimosas como “O Gabriel é feliz. E o pai e a mãe e a mana são felizes! E contentes”, é difícil não o desfazer com beijos.

A verdade é que acho que nem nos tínhamos apercebido como vivíamos fora do seu mundo e como tudo mudou agora que consegue dizer coisas simples como “o Gabriel não gosta disso, mãe” ou contar como foi o seu dia na escola, as brincadeiras que fez e falar da sua nova paixão, “a Inês!”.

Vai daí, quando o Pirata acorda e nos diz que não quer ir à escola e, ainda por cima, dá argumentos tão válidos como “Hoje quero ficar só contigo”, está mais que visto que o moço fica em casa!

E se, no final de um dia de brincadeira, ainda der para mais uns miminhos e uma sesta juntos então valeu mesmo a pena ficar em casa.

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Porque há dias assim…

Gosto de trabalhar a ouvir esta senhora. As suas músicas são assim como ela, poderosas, suaves, belas, inspiradoras, melancólicas e ao mesmo tempo carregadas de energia.

Porque me acompanha há tanto tempo, tem também a capacidade de me fazer viajar para sítios distantes onde fui tão feliz. Hoje é um desses dias.

Big Cat

Conversa no regresso a casa depois da aula de equitação…

“Sabes, hoje contei a história da Big Cat às minhas amigas. E foi a primeira vez que o fiz sem chorar. Assim sem lágrimas, estás a ver? Porque normalmente fico sempre com lágrimas a sair dos olhos, mas desta vez fiquei só com as lágrimas cá dentro. Quer dizer que estou melhor, não é?”

Olhei para trás e dei de caras com os seus grande olhos azuis, vermelhos do esforço que faziam para conter as tais lágrimas…

Foi em Siem Reap, em meados de Setembro de 2012, tinha a Pulga quase 4 anos, que a Big Cat entrou nas nossas vidas. Quando acordámos lá estava ela no quintal e por lá foi ficando. Foi a nossa primeira gata. Era meiga, tranquila, linda… E espantosamente dada aos avanços de uma amante incondicional dos animais que nem sempre mede a força dos seus abraços… Inseparáveis aquelas duas.

Infelizmente, a vida no Cambodja rural era dura. Para as pessoas, mas sobretudo para os animais de rua, frequentemente doentes, esfomeados e mal-tratados. Era comum ouvirmos os ladrares, os choros e as lutas. Sobretudo à noite, quando a cidade dormia. E foi assim que num dia triste, triste de Janeiro de 2013, a Big Cat desapareceu. Foi dar o seu passeio e não mais voltou. Uma busca nos terrenos à volta de casa, confirmaram os nossos piores receios.

Eu estava longe, longe e por isso, tive que dar colo também assim, ao longe… Recordo-me como se fosse hoje do telefonema. “Mãe, a Big Cat morreu.” Lembro-me de todas as palavras. Do choro. E dos soluçar entre palavras.

Tratou-se do funeral, ali mesmo no nosso quintal. Houve flores, incenso, livros e desenhos. Um misto de cerimónia budista, com tradições pagãs e desejos de uma menina de quase 4 anos. Ainda hoje, guarda a sua coleira como se de um amuleto se tratasse. Mas foi um golpe duro e inesperado. Sobretudo para uma amante dos animais como a nossa Pulga, que vive e respira com eles.

Passado todos estes anos, é recorrente lembrar-se dela. Da sua Big Cat. Gosta de falar sobre ela e contar aos outros as suas aventuras. E também a forma violenta como morreu. Já eu, continuo a surpreender-me com a sua maturidade. Com a sua capacidade de olhar para dentro de si, analisar o seu luto e perceber a mudança.

“Quer dizer, eu continuo a gostar dela e a ficar triste quando penso nela, mas é diferente, estás a perceber?”

Percebo, minha linda, se te percebo.