Carolina e os cavalos

Carolina gosta de cavalos. De facto, a Carolina gosta de todos os animais do mundo. Mas os cavalos sempre tiveram um fascínio especial. Sempre assim foi. Desde os tempos de Siem Reap, em que passeava pelos arrozais no pequeno Ollie. E do Laos, onde também encontrou um Ollie. Um Ollie diferente, de cor castanha e não de prata como o primeiro. Em Phnom Penh, não havia Ollie, mas também havia cavalos. O seu preferido era o Pimousse, um pequeno cavalo cambodjano. Não era um Ollie, mas para ela, era como se fosse.

Carolina gosta de cavalos. Mas também gosta de missões. E uma das missões que Carolina escolheu para si, quando viemos para Maputo, foi: “Aprender o máximo que pudesse sobre cavalos para um dia poder montar a minha própria quinta de cavalos no Monte”. E foi assim que começou a nossa aventura das terças-feiras ao final da tarde na Tsamadhi. E foi também assim que apareceu o novo Ollie da vida da Carolina.

Pouco mais de meio ano depois de dar as primeiras passadas a sério neste incrível mundo novo, Carolina já anda a passo. E a trote. E a galope. Tudo isto enquanto fala e ri e reclama e gesticula. E fala e ri mais um pouco. Também faz caras sérias. E zanga-se de vez em quando. Mas ri mais do que se zanga. Diz o professor: “Esta menina é especial. Não tem medo de nada.”. Mal ele sabia quanto. Está no campo, está com animais, não tem como falhar.

Quando se gosta tudo parece mais fácil. E Carolina gosta. E muito. E aprendeu tão rápido que se propôs uma mudança de turma. “Subir de nível”, dizia ela, orgulhosa. As subidas são óptimas, quando correm bem. Mas podem ser muito más, quando não correm assim tão bem. Ainda por cima, por aqui as sextas à tarde são uma espécie de Sábado antecipado, ideal para um almoço tardio, para ir de fim-de-semana prolongado ou ficar só em casa.

Mas Carolina gosta de cavalos. E, por isso, lá fomos nós. Mesmo que isso implicasse, como na sexta passada, sair da festinha de anos de uma amiga, para ir já ali ter uma aula e depois correr para ainda voltar a tempo… Ou pelo menos, era este o plano, caso as coisas tivessem corrido bem. Mas não correram. E chegámos atrasadas à aula. E quando chegámos o seu Ollie não estava pronto. E para não atrasar, foi andar noutro cavalo, o George.

Carolina e George não se conheciam. E também não se entenderam. E zangaram-se. Zangaram-se tanto que a aula acabou com Carolina a voar por cima do George e a aterrar de cabeça no chão. Carolina já não ria. Carolina chorava, zangada e dorida. Nesse momento, Carolina já não gostava de cavalos. E eu, que ainda tenho a imagem duma Carolina em alto voo a aparecer em repeat na minha cabeça, também não. Felizmente, os professores estavam ali e com toda a calma do mundo, pediram-lhe que voltasse a subir. Que desse uma volta pequena. Que fizesse as pazes. Que isso era importante para ganhar coragem para voltar. E depois, sim, fossemos a correr para o hospital.

Assim fizemos. Carolina deu meia volta em cima do George. E a seguir corremos para o hospital. Naquele momento Carolina tinha dificuldade em gostar de cavalos. E chorava sem perceber como aquele cavalo tinha falhado tanto com ela. E como eles, os professores, podiam dizer que cair fazia parte do processo. Bem como voltar a subir. Estava zangada, muito zangada. E triste. E dorida.

Mas Carolina, para além de ser uma menina que gosta de cavalos e de missões, é também uma menina corajosa. Especial, como dizia o professor. E foi assim que, logo nessa noite, depois do susto, depois do pânico, depois da zanga, depois da ida às urgências, depois da dor e depois de, já aliviada, começar a simular o voo e meter todos os médicos a rir ao contar as suas aventuras, dizia: “Eu quero voltar, mas quero o Ollie. E quero voltar para as terças”. E voltou. Terça-feira lá estávamos nós. E o Ollie estava à espera dela. E as suas amiguinhas, o seu grupo de sempre. Que afinal também têm histórias de voos para contar. E o seu professor. Que até já caiu 10 vezes. (Diz que tem que se cair 100!)

Enquanto se equipava, perguntei-lhe como estava. Que era normal que estivesse nervosa. Disse que não, que ia correr bem com o Ollie. Sussurrei-lhe que era a minha filha coragem e lá foi ela. Apenas quatro dias depois, Carolina voltava a gargalhar em cima do cavalo. E a reclamar. E a falar. E a gargalhar novamente. E no fim gritava: “Iupi! Fiz uma volta inteira a galope! Iupi!”.

E eu, ao mesmo tempo que assistia a tudo aquilo com um orgulho imenso, pensava: E agora tu minha menina, quando é que te vai passar o susto? Quando ela te perguntar quando vais voltar aos teus cavalos, que vais dizer? Ah?

Carolina e Ollie

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Porque nós somos o Mundo

Porque hoje é o Dia Internacional da Mulher. E porque vale a pena lembrar. E vale a pena lutar. E vale a pena celebrar. Porque nós somos o Mundo.

Porque hoje é o Dia Internacional da Mulher. E porque vale a pena recordar, enviei para a minha Carolina, a história de uma outra Carolina. Carolina Beatriz Ângelo, médica ginecologista e a primeira mulher a votar em Portugal. Disse-lhe que tinha sido tão importante, que hoje até tinha um hospital com o nome dela. Para que a minha Carolina saiba que uma só pessoa, uma só mulher, uma só Carolina pode mudar o Mundo.

Porque hoje é o Dia Internacional da Mulher. E porque o Mundo parece virado ao contrário, quero que ela, a minha Carolina, saiba que tem direito ao tudo. Tudo! E se alguém lhe disser o contrário, que faça como agora faz cá em casa. Que bata o pé. Que diga que não. Que bata as portas. Que saiba que vale a sempre pena lutar por aquilo em que se acredita.

Porque hoje é o Dia Internacional da Mulher. E porque continua tão actual, tão necessário e tão poderoso como antes, fica aqui o link para um poema fantástico que partilhei no blog no ano passado: Today I Rise! e para o video que o acompanha.

Porque hoje é o Dia Internacional da Mulher. E porque nós somos o Mundo.

Este não é um post bonito

Este não é um post bonito, porque a vida também não é sempre bonita. A vida pode ser bela e fantástica num minuto e bem feia no minuto seguinte. É assim mesmo. Todos o sabemos. E a vida em Maputo não é diferente.

Se por um lado é um privilégio viver numa cidade à beira-mar plantada, com uma luz que irradia, avenidas grandes com árvores, parques para passear os miúdos, capulanas garridas e cajus torrados, bairros de casas brancas, bom café e óptimos pasteis de nata, também há o outro reverso da medalha.

A vida tem tudo para ser fácil por aqui, mas há sempre aquele mas, aquela coisinha que te consome, que te tira do sério. E ultimamente os dias têm andado polvilhados dessas pequenas coisinhas. E tudo te irrita. Sobretudo quando passas o marco dos primeiros seis meses num país e acaba a lua-de-mel…

São as infiltrações, os buracos, a criminalidade, as praias cheias de cacos de vidro, os cocos que apodrecem na beira da estrada, as prateleiras vazias, o custo exorbitante de produtos básicos, as saudades do mimo asiático, a falta de um bom restaurante vietnamita…

Ontem foi a seca que me irritou. A seca extrema que se vive em Maputo, quando o resto do país está em alerta para o risco de cheias. Quando o país é atravessado por ciclones que destroem tudo o que apanham, Maputo não tem água. Vai para um mês. Não chove aqui e não chove no ponto de captação, na Suazilândia, pelo que a barragem que abastece a cidade está no limite. Como medida protectora, a água da rede é cortada por zonas para obrigar a poupar água. Por vezes um dia, por vezes dois, por vezes quatro…  Quem pode, compra água para encher depósitos gigantes. Quem não pode fica sem água nos furos, porque os grandes camiões-cisterna vão lá abastecer para vender aos que podem… Mas não se ensina a poupar a água. Não se explica que a água não é infinita. Que há alterações climáticas. Não há qualquer tipo de educação ambiental. E, por isso, desde que haja água na torneira, lava-se o carro, rega-se a relva, lava-se o passeio, metem-se os cortinados na máquina…

Tentamos fazer a nossa parte. Poupamos e tentamos ensinar as pessoas que nos rodeiam. Vamos verificando o nível da água no depósito. Após três dias sem água da rede ainda está a meio. Fantástico, pensamos. Entretanto, a água há-de vir, como se diz por aqui.

E depois chegamos a casa ao final do dia e nem pinga de água! Nem uma gota. Puf… Porque os senhores que vieram reparar as infiltrações e arranjar (ou destruir) as casa-de-banho gastaram meio depósito em meia-dúzia de horas. Onde, não sei. Dizem que estavam a testar. E para testar, não usaram os garrafões e os bidons de água reservada como lhes tínhamos dito, mas a torneira (claro!). E para testar, gastaram o mesmo que nós tínhamos gasto em três dias!!! É para ficar com raiva, certo?

Sem água para cozinhar e lavar loiça, fomos jantar fora. No regresso, usámos os tais garrafões para tomar um duche de caneca (10l dão para quatro, sabiam?) e para as aflições de casa-de-banho e água potável para lavar os dentes. E cruzámos todos os dedinhos para que a água voltasse hoje de manhã (ou já tínhamos um contacto dos tais senhores que roubam água para vender a preço de ouro).

Felizmente, a água voltou de manhã. Mas quando os senhores das obras chegaram estava ainda zangada. Não tanto como ontem, mas ainda o bastante para lhes abrir a porta com cara de poucos amigos. E para lhes dar uma bela reprimenda. E uma lição sobre poupança.

E fui fazer o meu café, zangada por ter que ficar em casa a tomar conta deles e terem chegado uma hora e meia depois do combinado. E depois vieram-me pedir água quente para tomar chá. E caiu-me tudo. E lembrei-me do sítio onde estou. Perguntei se tinham chá. E responderam “não, mãe, só temos açúcar”. E tu sabes o que isso significa. Fome. Muita fome. Por aqui, as pessoas sobrevivem apenas. Passam fome a sério. Uma fome que nunca vamos compreender. E quando as pessoas têm fome, não pensam em poupar. Pensam em sobreviver. Vasculham os caixotes do lixo à procura de comida. E comem ali mesmo. E passam o dia com água com açúcar no estômago. E a noite. E isso nota-se no olhar. Um olhar de fome que me era desconhecido. E que me moi. Muito. E que rapidamente me tira da raiva e me deixa só absolutamente triste. Não devia ser permitido viver assim.

Porque há dias assim…

Gosto de trabalhar a ouvir esta senhora. As suas músicas são assim como ela, poderosas, suaves, belas, inspiradoras, melancólicas e ao mesmo tempo carregadas de energia.

Porque me acompanha há tanto tempo, tem também a capacidade de me fazer viajar para sítios distantes onde fui tão feliz. Hoje é um desses dias.

A bicharada lá de casa…

Já aqui o tenho dito, das coisas mais duras de se estar fora é não se poder ter a família toda connosco. E por toda a família entenda-se mesmo toda a família. Bicharada incluída.

Por estranho que possa parecer, são deles que por vezes sentimos mais a falta. Eles não falam no Skype, não metem conversa no Messenger, nem postam fotografias giras no Instagram. De um momento para o outro, não há patas no joelho, não há abanar de caudas, não há corridas. Deixam de fazer parte da nossa vida. Do nosso dia-a-dia. E nós do deles. Sem aviso. Como é que se explica a um patudo: “desculpa lá meu lindo, mas vou ter que ir ali trabalhar para outro continente e volto daqui a seis meses.”. Exacto. Não se explica. Partimos só.

E o tempo vai passando. E eles vão ficando velhotes. E com cada ida ao vet, com cada otite, com cada artrose, com cada nova febre da carraça, com cada nova mazela, o nosso coração treme. Estão a ficar velhotes, pensamos. E depois chega o dia. Chega o dia em que são eles que nos deixam. Chega a vez de serem eles a partirem só.

Foi o que aconteceu com o Rufus, o Rufia, que numa tarde de início de Outono se deitou na sua cama e partiu. E nos deixou sós. E com ele levou um grande, grande pedaço de nós.

O Rufus, o Rufia, apareceu até nós numa tarde de calor imenso em dia de S. João. A mana foi logo adoptada. Ele, desengonçado, ficou para trás. Até que o meu irmão o viu e me liga: “Achei o cão perfeito!”, diz ele. E era. Todo ele era focinho. Parece que foi mordido por uma abelha, diziam. E parecia mesmo. É pêlo de arame, bom para os ouriços, dizia uma peça famosa da nossa Praça. Verdade, verdadinha, para mal dele e dos ouriços que com ele se cruzaram!

Rufus, o Rufia, teve uma história atribulada. Tinha tanto de meigo e inteligente, como de intempestivo e ciumento. Mas era um cão especial. Um cão que parecia ler-nos as emoções, que não descolava do nosso lado. E que pedia mimos como ninguém.

Rufus, o Rufia, tinha também o dom da asneira. Upa, upa! Se tinha. Tudo lhe acontecia. Em tudo se metia. De reflexos a galinhas, de febre da carraça a tractores, de ouriços a carteiros… A lista nunca parou de aumentar (e a conta do vet também!)

Mas por muita asneira que fizesse, Rufus, o Rufia era um cão bem especial. Era o meu cão. E o cão do meu irmão. E por isso, mesmo quando fez a maior asneira de todas, fizemos aquilo que se faz nas famílias, nas famílias em que a bicharada também conta para o agregado, diga-se. E tentámos passar à frente, contra tudo e contra todos. Porque Rufus, o Rufia, era um cão bem especial. Era o meu cão. E o cão do meu irmão.

Se ele nos perdoou por termos ido para outro continente? Não sei. Espero que sim. Mas sei, que agora que ele partiu, e que ficámos sem ele, sem o nosso Rufus, o Rufia, o meu cão e o do meu irmão, é como se um pedaço, um grande pedaço de nós, tivesse ido também com ele…

E enquanto termino este texto, outra triste notícia… Chegou a hora do Joe partir também para outras pastagens.

Ainda o Pirata não dizia palavra. Ainda o Pirata chorava cada vez que um cão se aproximava. Ainda o Pirata mal andava e já disparava: Joe, o Joe? Onde tá o Joe? Ele era a sua sombra. O seu guardião. A nOa escolheu a Carolina, dizíamos. O Joe escolheu o Gabriel.

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O Joe estava velhote. E estava doente. Mais uma vez adoeceu com uma doença para a qual tínhamos tomado todas as precauções. Porque tem sido sempre assim e a bicharada lá de casa parece ter um íman para maleitas complicadas. Triste, mas verdade. Tudo se fez, mas desta vez, o tudo já era demasiado. Chegou a sua hora. Porque, como explicámos à nossa pequena amante dos animais, por vezes, quando gostamos mesmo, mesmo de uma pessoa, o melhor que podemos fazer por ela, é deixá-la ir. Mesmo que isso nos deixe muito, muito tristes.

Ficam as meninas, diz ela. Ficam as meninas. Dias tristes para a bicharada lá de casa.

Prendas para a Vida.

Escrevi este pequeno desabafo há um ano atrás, quando ainda estávamos no Cambodja…

“Ser emigra há quatro anos é também ter todos os cadernos de notas escritos em inglês, falar numa língua com a pessoa à direita e noutra com a pessoa à esquerda, mas raramente falar na nossa. É dizer Gaibriel em vez de Gabriél, é ouvir a filha a dizer “coconut muy” e corrigir para “dong muy” em vez de “um coco”. É ter um filho que diz água, shoe e main. É ter uma filha tão poliglota que os comentários de tagarelice na sala chegam ao fim do primeiro mês de aulas e não no fim do ano como costume. É não saber que língua se está a falar, pensar em “estrangeiro” e achar que há expressões que resultam melhor noutra língua que não a nossa, mas que também deve ser nossa se nos ocupa 90% do tempo. É também ter muito mais respeito por todas aquelas pessoas que no verão voltavam a casa com os seus avecs e vien ici e saber que não é mania, é mesmo assim. Enfim, o dia está cinzento, deve estar bom para a melancolia.”

O dia por aqui também ainda acordou meio cinzento. O tão aguardado Verão africano teima em não chegar. Mudámos de país, estamos agora “quase que como em casa” e com isso, também perdemos um pouco desta diversidade linguística. Os dias já não são passados maioritariamente noutra língua que não a nossa. As pesquisas no google começam já a ser feitas em Português, mas o pensamento ainda teima em ter explosões em Inglês. Aqui não há Khmer, mas há Changana, do qual não sei mais que Kanimambo. Mas estamos em conflito e continuamos a fazer por nos manter fora da bolha fácil do Português. Porque não sabemos onde estaremos a seguir. E porque nos agrada este malabarismo constante entre línguas, pessoas e modos de estar.

Tenho hoje a certeza que saber línguas é uma chave para o mundo. E é a melhor prenda que se pode dar a alguém. Porque quando falamos outras línguas aprendemos também a ver o mundo sobre outros olhos. Porque língua também é cultura. E é esta diversidade cultural que nos torna mais ágeis, mais aptos, mais tolerantes e mais desenrascados (essa coisa tão portuguesa).

Para os meus pequenos exploradores poliglotas apenas isto: Se nada mais sobrar deste constante saltitar de país em país, que sobre isto, esta capacidade que hoje têm partir à descoberta, de conhecer, de explorar, de aceitar e de se desenrascar em qualquer ambiente, em qualquer parte do mundo. E que o céu é o limite (para já). Sem medos, porque o mundo, eles já o sabem bem, é do tamanho de uma ervilha.

 

Nota: Esta foto foi tirada à chegada ao Laos em 2014, durante a nossa aventura asiática. Era na altura, o terceiro país da Carolina, depois de Portugal e do Cambodja, e o primeiro do Gabriel, na altura com apenas 3 meses.

Sem palavras.

A menina do monte está sem palavras. Parece incrível, mas é verdade…

A menina do monte tem muitas histórias para contar. Aventuras  e desventuras de quem anda de lá para cá e de cá para lá e nunca sabe bem em que lado ficar.

Mas a menina do monte é preguiçosa. E, por isso, adiava, adiava. E é também envergonhada. E, por isso, escrevia e só consigo partilhava.

Passinho a passinho, a menina do monte lá foi mostrando o que registava. E eis que um dia lhe dizem que as histórias da menina do monte (e companhia) andavam a ser lidas por outras pessoas que andam de lá para cá e de lá para cá… em Portugal, no Cambodja, em Espanha, em Moçambique, nos Estados Unidos, no Brasil, no Reino Unido, na Irlanda, na Suiça, na Holanda, no Laos, em Macau, em Cabo Verde, nas Filipinas, na República Checa, em Malta e na Dinamarca…

Só cá entre nós, a menina do monte está assim para o pasmada…

 

Lido na paisagem…

Gosto de me perder na cidade, nas ruelas, nos mercados… Virar à direita ou à esquerda quando sabemos que em frente seria o caminho certo. Ir a pé ou de tuk tuk em vez de pegar no carro…

Foi isso que fiz no outro dia… E de repente, algures em Phnom Penh, na parede duma ruela daquelas bem estreitas, lia-se assim em grandes letras pretas:

Open your eyes and dream.

Abre os olhos e sonha, em Português. Esteve quase para ser uma daquelas quase-fotografias. Aquelas que ficamos a pensar que devíamos ter tirado uma fotografia, mas não tiramos e depois ficamos a remoer sobre o assunto. Mas não. Parei o carro ali mesmo no meio da rua, sai e tirei a foto. Porque numa altura de grandes interrogações e ainda maiores transições, quando a vida nos manda recados, é melhor que os tomemos a sério.

A menina do monte e as grutas

A menina do monte não se lembrava, mas não gostava muito de grutas…

A menina do monte não se lembrava se era especificamente de grutas que não gostava ou simplesmente daquela sensação de estar fechada num sítio do qual poderá ter dificuldade em sair. Tipo, e se isto nos cai tudo em cima?

A menina do monte não se lembrava de nada disso, até porque há muito tempo que não se colocava numa situação em que tivesse que pensar sobre o assunto. Pois. Até que decidiu ir passear para o Vietname.

No Vietname, a menina do monte e a família, decidiram fugir aos turistas que se concentram em magote em Halong Bay e ir para um sítio, mais frequentado por locais e ao qual chamam “Halong na terra”.

Chegaram ao local, entraram para o barco, uma aventura por si só, que aquilo é pouco mais que uma jangada de bambu… Tudo a postos, lá vamos nós.

A menina do monte olha espantada para tudo o que a rodeia. Que maravilha, pensa, que paz. 

O que a menina do monte não pensou foi nas grutas. Até que viu a primeira. E mesmo ai também não pensou muito no assunto. Até que viu a placa: 350 metros. Ena, grande! Pensou ela. E foi das últimas coisas que pensou. A partir daí concentrou-se em tirar fotos, ver as estalactites, filmar o percurso, escutar os OH!!! da pulga e do pirata. E afastar os pensamentos do “epá, isto é mesmo baixinho…” e “e se ficamos aqui presos?”

Chiu!!!… dizia a menina do monte a si própria. Está tudo tranquilo… Eles fazem isto todos os dias.

Quando se vislumbra, literalmente, “a luz ao fundo do túnel”, a menina do monte finalmente esboça um sorriso. Está quase… E ao passar a barreira que nos divide entre o dentro da gruta e a liberdade exterior… Uau! Que lindo!… e respira pela primeira vez em algum tempo.

Grutas

Aliviada, a menina do monte confessa: “acho que não gosto muito de grutas”. Riso geral. “Para quem não gosta, portaste-te muito bem!”, dizem eles!

A menina do monte não se lembrava, mas não gostava de grutas. Mas depois foi ao Vietname. E passou dois dias a andar de barco. Barquinhos pequeninos, de bambu, a remos. Que entravam e saiam de grutas. E entravam e saiam de grutas. Umas compridas, intermináveis. Outras tão curtas que quase não dávamos por elas. Umas altas. Outras baixinhas, baixinhas, baixinhas. E entravam e saiam…

A menina do monte não se lembrava, mas agora também já não importa. O que importa mesmo, é chegar ao final de cada uma, e ver o que a Natureza guardou para nós. E ouvir o OHHH! da pulga e do pirata.

A menina do monte não se lembrava, mas faria tudo outra vez. Porque quando deixamos, a vida arranja sempre maneiras de nos surpreender.

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Eu, o meu irmão e o 24 de Abril Sempre

Escrevi este texto a 24 de Abril de 2012. O dia em que o meu irmão faria 31 anos e o primeiro que passei longe de casa, da família e dos amigos. Hoje o meu irmão faria 35 anos e estou novamente longe. Ao acordar e dar novamente com este texto, achei que valia a pena ser de novo partilhado. Porque hoje é o seu dia. Porque tenho saudades dos seus sorrisos, da sua paixão, das suas aventuras e das nossas turras. Porque ele continua sempre connosco nas nossas memórias.

 

“Eu, o meu irmão e o 24 de Abril Sempre

Desde que me lembro de existir que sou a irmã mais velha do PuTo e também é mais ou menos desde essa altura que o fogo de artifício do 25 de Abril é, para mim, muito mais do que isso, é o momento alto do seu aniversário.

Lembro-me de quando era miúda e morávamos nas Pites e o nosso vizinho, que trabalhava na Câmara, disparava os foguetes em frente à nossa casa. Achava o máximo, que depois de cantar os parabéns, fossemos todos para a rua para ver o que na altura pouco mais era do que uns morteiros que faziam mais barulho do que outra coisa (só não percebia muito bem porque é que o meu aniversário não tinha daquelas coisas, mas enfim!). Mais tarde, mudámos de casa e os prédios em frente (ai cuquinha que nos tapaste a visão) pouco ou nada deixavam ver aquilo que começava a ser um fogo de artifício “a sério”, lançado no Jardim das Canas. Começaram então as corridas, depois de jantar e de cantar os parabéns, primeiro para a frente do teatro e depois para a Praça do Giraldo. Sim, corridas, porque por mais cedo que o jantar começasse, haveríamos sempre de chegar já ao som do primeiro morteiro (com algumas excepções em anos de bons concertos, mas sempre tarde demais para arranjar um cravo).

A verdade é que adoro fogo-de-artificio e não me lembro de um ano, de um aniversário, sem aquela explosão de cor e som. Mesmo naquele ano triste de 2004, mesmo nos anos que se seguiram, sempre fiz questão de continuar a correr para a Praça, umas vezes sozinha outras não, porque achava que ele, o meu irmão, o Puto de todos,  lá haveria de estar, a acompanhar-me, numa estrela, num foguete, num sorriso. Hoje estou longe, onde estou não há cravos e ninguém sabe o que é o 25 de Abril e, muito menos, o que é essa coisa fantástica de se ter um irmão lindo, que ainda por cima tinha a sorte de ter fogo-de-artificio só para ele. E, por isso, estou um bocadinho mais triste.

Mil beijos para sempre maninho. 24 de Abril sempre!