Porque há dias assim…

Gosto de trabalhar a ouvir esta senhora. As suas músicas são assim como ela, poderosas, suaves, belas, inspiradoras, melancólicas e ao mesmo tempo carregadas de energia.

Porque me acompanha há tanto tempo, tem também a capacidade de me fazer viajar para sítios distantes onde fui tão feliz. Hoje é um desses dias.

O mocho

Carolina, porque é que andas com uma saia na mochila? Pergunto eu.

Porque sim. Quer dizer, eu sei que queres saber, mas não vou dizer, responde ela. E lá continuou a saia toda enrolada no meio dos livros da biblioteca e do saco da natação.

Uns dias depois chega o recado da escola. Visita à Krousar Thmey, uma das poucas associações que trabalha com crianças portadoras de deficiência, neste caso, visual e auditiva. É favor chegar cedo. E temos que levar um lanche para partilhar!, diz ela.

E a saia já pode ficar em casa! (Ai sim?) Lembras-te quando fui com a minha escola a Kampot? Fomos ver um espectáculo de umas crianças que não tinham umas mãos e uns braços e assim… E não ouviam, nem viam… Então, na minha sala estivemos a fazer como se fossemos elas. Tínhamos que esconder um braço atrás das costas e vestir a roupa e comer…

Uns dias antes desta viagem a Kampot, íamos no carro e na rádio ouvia-se uma entrevista a uma senhora fantástica que, tendo nascido sem mãos, tinha desistido de usar próteses e aprendido usar os pés para pintar e para tocar piano, por exemplo. Mais tarde, tornou-se a primeira pilota de avião sem mãos da história. Na altura ficou muito impressionada. Confusa. Como é que tal era possível? Como é que se segura o pincel nos dedos dos pés? Como é que se consegue mexer assim os dedos? Perguntas, perguntas e mais perguntas. Falámos muito sobre isso, vimos vídeos no youtube. E quando finalmente fez a visita à Epic Arts, tudo lhe fez mais sentido.

Finalmente chegou o dia de visitar a Krousat Thmey. Apesar de ter entrado na escola bem mais cedo que o habitual, quando a fui buscar não tinha pressa de sair. Queria conversar. Contar tudo. Sentámos-nos junto ao campo de futebol e ficámos ai a falar sobre tudo o que tinha aprendido com os meninos que não ouvem nem vêem. Começam a escola cedo, diz ela, às 6 da manhã e almoçam às 11! E têm aulas como nós.

Os meninos que não vêem, escrevem as palavras num papel com a ajuda de uma máquina que faz bolinhas da direita para a esquerda. E depois viram ao contrário e lêem da esquerda para a direita. Como nós. Só têm problema com a matemática, porque é mais difícil escrever os números, conta ela.

Mas o que mais gostou mesmo foi de estar com os meninos que não ouvem (mas vêem!) e aprender língua gestual. Eles até me ensinaram a dizer “Eu chamo-me Ana”! Foram eles que escolheram Ana porque Carolina era mais difícil… Isso e os nomes dos animais, que é logo meio caminho andado para lhe prender a atenção. Pergunta-me lá um! Lembrava-se de todos, dos mais simples como o coelho aos mais complicados como o mocho que ela faz na foto tão bem e que eu não consegui fazer…

No Cambodja, não há essa coisa da inclusão, muito menos em escolas internacionais como aquela que ela frequenta. As disparidades no ensino são mais que muitas. E os meninos e meninas destas escolas, vivem por vezes em bolhas exclusivas, distintas, que dificilmente se aproximam uma da outra. Por isso, iniciativas como estas, parecendo tão pouco, quando devidamente trabalhadas são tão importantes. E foi isso que fizeram. Aos pouquinhos foram falando sobre o assunto, experimentado, aproximando. Dizem eles, os Srs. da escola, que a competência Ser Cidadão é tão importante como o Domínio da Língua e a Matemática. Ainda bem. E que assim seja, sempre.

Casa velha, casa nova

Há exactamente um ano atrás deixámos a casa da piscina e viemos para a casa nova.

Dizia eu, como legenda a esta foto: “Hoje foi assim… dia de despedida da casa da piscina e de mudança para a casa nova. Para já, no meio do caos de caixas, malas e brinquedos, tudo dorme tranquilo, sem piscina, mas no coração da cidade”.

Um ano depois, a casa da piscina continua a ser a nossa casa e a casa nova continua a ser… a casa nova. Porque isto acontece, não sei. Talvez porque as mudanças tenham sido mais que muitas. Desde Julho de 2011, quando nos metemos nesta aventura, consigo contar rapidamente umas seis ou sete casas. (Sem contar com os intervalos que fizemos na casa do monte) Por diversos motivos, em nenhumas delas, nos demorámos tanto como nesta…

Então, quando é que a casa nova passa a ser casa? Diria que as casas, por mais que as transformemos na nossa casa,  só passam mesmo a ser nossas, quando de lá saímos. “A nossa casa de Siem Reap”, “a nossa casa do Laos“…  Parece que em todas as elas estamos a prazo e, como tal, temos sempre receio de nos sentir em casa, de nos acomodarmos demasiado. Tal como nunca sabemos, verdadeiramente, quanto tempo iremos ficar neste país ou em qualquer outro… Até porque, será por aqui mesmo que queremos ficar? E se não, para onde ir?

Para já, acho que estamos de Parabéns por finalmente termos arranjado um poiso! Ou uma casa, vá!

Ot soksabay!

Normalmente, a coisa funciona assim: a Caracolinhos sai de casa com o pai e o Pirata sai de casa com a mãe. Tranquilo. Até cada uma das escolas são 10 ou 15 minutos e depois até ao trabalho é um tirinho.

Esta semana o pai está fora. Logo, toda a rotina muda. E nem estamos a falar da parte do “Carolina acorda, Carolina mexe-te, Carolina come, Carolina a mochila, Carolina os sapatos!”. Não, tudo isso corre normalmente bem quando apenas um dos progenitores está presente. E hoje não foi excepção. Até batidos fizemos! O que muda é que cabe-me a mim, fazer as duas corridas da escola que ficam em lados opostos da cidade. Tudo bem. Até podia mandar um deles com a ama no tuk tuk, mas achei que não, a mãe aguenta! A mãe até gosta. E assim, brincamos todos um bocadinho… Claro… Era para ser assim.

Mas no Cambodja, as coisas nem sempre correm como imaginamos, são o que parecem ser e o que foi ontem, hoje já não é! E como vivemos fora da bolha, por não falarmos a língua, não lermos jornais ou vermos televisão, de repente arriscamos-nos a ter desagradáveis surpresas. Tipo hoje.

Saímos de casa na hora certa. 7h40! Impossível falhar. Humor em alta, música no carro, lá vamos nós. Cinco minutos depois estávamos a passar o Central Market e… hum, estranho, o trânsito está parado, vamos tentar a outra rua… Parado, ok, sem problema, algum carro que se meteu no cruzamento e agora ninguém passa… o costume, pensei eu… Passados 10 minutos, estávamos exactamente no mesmo sítio. E mais 10… E mais 10… Já deu para perceber, certo?

Aparentemente, estavam a fechar ruas, a colocar barreiras em todo o lado e a desviar trânsito das vias principais para outras mais interiores. Em hora de ponta. Com meio policia em cada cruzamento. Lá atrás o discurso passou do “não tem problema, vamos jogar às adivinhas” para “já estou a ficar aborrecida! Vou ter que ir buscar justificação!” Resultado?… 1 hora só para chegar à escola da Carolina! 1 Hora!!! Tipo, 45 minutos a mais do que o suposto.

Primeira etapa superada… vamos à etapa seguinte: o trânsito continua parado e ainda tenho um filho aborrecido e cheio de fome no carro. E a escola dele fica no outro lado da cidade, lembram-se? É isso. E os carros não andam. Nem as motos. Não há tuk tuks! (Estranho…) Há autocarros por todo o lado, que normalmente não estariam ali porque as rotas são outras. E nem um lugar para estacionar e continuar a pé…

Lá desesperamos mais meia-hora dentro do carro, até que finalmente aparece um sítio para estacionar. Tiro o carrinho de bebé e lá vamos nós! Finalmente, a andar! A pé, mas a andar! 20 minutos de caminhada depois, passamos os carros parados e… Tuk Tuk!!! Criança, carrinho, malas lá para dentro e lá seguimos para a escola! 2 horas depois de sairmos de casa, lá estávamos nós…

O que aconteceu não sei, há quem fale de uma manifestação marcada para ali, há quem diga que o Primeiro-Ministro vai inaugurar uma escola ali perto… não sei, mas que foi um péssimo começo de dia, lá isso foi. Ot sokabay! Ot soksabay!

Nota: à hora de almoço, o inferno continua… Aparentemente, Sua Excelência o Primeiro-Ministro está a fazer uma “Tea Party” no Hotel Le Royal… Coisas de imperadores, claramente.

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Só mais uma nota: Só depois de tirar esta última foto, olhei para a senhora. Ela olhou para mim e ao cumprimentá-la é que me apercebi do conjunto. Normalmente, pijama, toalha e gorro na cabeça são sinónimos de “acabei de sair da maternidade”. Vi o resto dos sacos: roupas, mantas e fraldas. Pois, ali dentro daquele embrulho branco que a senhora segura ao colo e tenta proteger do calor abrasador, vai um bebé. Nunca hei-de parar de admirar com a capacidade destas mulheres se por à estrada, numa mota ou num tuk tuk, poucas horas depois de parir. Valentes.

 

 

Aos professores…

Hoje é um dia especial. É um dia de despedidas e recomeços.

Tenho um fraquinho especial por professores. Sempre tive. O meu pai era professor. Sempre vivi rodeada de professores de todas as espécies e feitios e passei muitas horas nos bastidores das escolas. Nas salas de ensaio, nas arrecadações, nas casas deles…

Aprendi muito cedo que a escola e os professores não servem só para dar umas aulas e ensinar umas coisas. São também um espaço onde se aprende a viver! Espanto, eu sei! E ser crescidos! Lá dentro varri ginásios, pintei paredes, carreguei pesos, fiz rádio e teatro, organizei festas, manifestei-me, desenrasquei-me, levei nas orelhas…

Por trás disto tudo havia sempre alguém, um adulto que puxava por nós, que nos desafiava. Um professor. Uma professora. Foram muitos. Uns muito bons, outros nem por isso. Mas todos eles deixaram a sua marca naquilo que sou hoje.

Por isso, aprendi a respeitá-los. E tenho tentado transmitir esse respeito à Carolina e ao Gabriel. Valorizá-los e ser-lhes gratos por tudo o que fazem. Quer sejam excelentes, quer falhem de vez em quando. Porque são eles que estão em primeiro lugar na escola.

O Gabriel começou a ir à escolinha, aqui no Cambodja, quando tinha perto de um ano. Foi lá que soprou a velinha do seu primeiro aniversário. Ele, as suas duas amiguinhas, a professora e a assistente. Era assim pequenino, pequenino este espaço. Estavam ainda começar e ele teve direito a este luxo de ter três meninos para dois adultos.

Lá ganhou o gosto pela pintura, pela cozinha e pelos comboios. E no colo da professora, viajava nos livros e aprendia a crescer num novo mundo em Francês. E a escola cresceu com ele. E hoje outros dez meninos e meninas partilham o espaço com ele.

Mas hoje é um dia especial. É um dia de despedida. Mas também de celebração. A sua professora de sempre vai regressar ao seu país. Outra virá. E outra e outra. Serão muitas ao longo da vida. Serão melhores, serão piores. Serão seguramente diferentes. Mas está será para sempre a primeira.

E, por isso, hoje de manhã fizemos um miminho para lhe agradecer estes quase dois anos de dedicação. E lá foi ele orgulhoso de postal na mão, para dar à sua Lèna. No final juntámos-nos todos. Pais e meninos. Houve bolo de chocolate, feito por eles, batatas fritas com picante e muitas selfies porque estamos na Ásia. Houve também um grande beijinho e um abraço apertado.

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Domingos preguiçosos

Os últimos fins-de-semana em Phnom Penh têm sido uma roda-viva. É o ano novo chinês, são aulas de jardinagem, sessões de cinema, passeios arquitectónicos, hidro-ginástica, festivais de arte, concertos, jantares com amigos, conferências, workshops disto e daquilo… Para adultos, para crianças, para famílias, dentro de casa, ao ar livre… Parece que andamos numa corrida para aproveitar tudo ao máximo antes que a época quente se instale de vez e a única actividade possível seja a de ficar a vegetar no sofá com a ventoinha no máximo ou, eventualmente, na banheira porque até a piscina está quente demais e a simples ideia de pensar em sair de casa aumenta o grau de exaustão… E pelo caminho, ainda aquelas coisas do costume, tentar trabalhar um pouco, preparar a semana, fazer compras, ajudar nos TPC… Vai daí, um pensamento recorrente nos últimos Domingos tem sido: “amanhã já podia ser Domingo outra vez!”

Foi por isso, que lá em casa declarámos este Domingo, o Dia da Preguiça. Sim, apesar do Pai Nelson ter posto o despertador para ir jogar futebol às 7 da manhã. E do Gabriel ter acordado às 6:30. E de pouco depois já estarmos os dois na cozinha a fazer crepes com mel e canela para o pequeno-almoço. Sim, apesar disso tudo, foi dia de preguiça.

A Carolina apareceu na sala bem mais tarde e, vagarosamente, mudou-se da cama para o sofá. A sua melhor amiga, que lá foi passar o fim-de-semana, apareceu pouco depois e juntou-se a ela no sofá. As duas vinham de cabelos no ar e olhos empapados de quem ficou na conversa até bem depois da hora…

Infelizmente, esta coisa da preguiça nas crianças passa rápido. Demasiado rápido. Um bocadinho de sofá, dois episódios de Tivi5 e uns crepes com nutella são o bastante para repor os níveis de energia… E o Gabriel, bem o Gabriel tem dois anos. Ponto. Ora, se queríamos manter o nível de preguiça, tínhamos que arranjar um plano de sobrevivência. E já.

Com os cérebros claramente a meio gás, só conseguimos pensar em duas opções para salvar o dia: ir almoçar fora (e assim, evitar cozinhar e lavar loiça, que aqui não há esse objecto divino que se chama máquina de lavar loiça) e tirar as crianças de casa (antes que comecem a trepar paredes!).

“Meninos! Vamos passear!” (“Oh Não!”) “É capaz de haver batatas fritas!” (“IUPI!”) (Não houve, mas também ninguém se chateou por causa disso…)

Chapéus na cabeça, protector solar e carrinho de bebé, lá fomos nós de passeio até um cafézinho simpático, pertinho de casa, com comida boa e o melhor chocolate do Cambodja! Mas a verdadeira razão que nos levou até lá foi outra. Mesmo ao lado fica uma verdadeira relíquia, uma biblioteca comunitária, gerida por uma pequena associação chamada Au livre Ouvert e que tem como objectivo promover o prazer da leitura num país pouco dado aos livros. Com livros em Khmer, Inglês, Francês, Vietnamita, Alemão e muito provavelmente em Português, tem histórias do tamanho do mundo para todas as idades, gostos e aspirações. E tem também brinquedos. E outras crianças. E anda-se descalço. E foi assim que entrámos na nossa tarde, vagarosamente, entre livros, legos e sestas nas almofadas…

De regresso a casa, e para terminar o dia em beleza, os pais ainda tiveram direito a um luxo raro: SESTA! Nós e o pirata, enquanto as duas pulguinhas saltitantes aproveitavam as últimas horas em conjunto entre jogos, porquinhos da índia e conversas de raparigas.

Bom, bom. Nada como um Domingo preguiçoso. Boa semana para todas e para todos!

Uma gargalhada por dia…

… Não sabe o bem que lhe fazia!

Vantagens de se viver no Verão o ano inteiro é que podemos aproveitar ao máximo tudo o que a cidade tem para nos oferecer (isto antes que chegue a época quente e o ar se torne tão irrespirável que damos tudo por ficar em casa!). Por isso, nada melhor do que terminar uma semana agitada com um passeio de barco entre amigos. Três casais, uma mão cheia de crianças e lá vamos nós…

Era o último dia do campo de férias da Caracolinhos, e havia uma sessão preparada para os pais, por isso, pedimos ao tuk tuk, para nos ir lá buscar. Depois da mega festa, lá entrámos nós para o tuk tuk, eu, o pirata e a caracolinhos, prontos para atravessar a cidade até ao cais. O céu estava cinzento, mas estamos na época seca, não ligámos. Pois… Surpresa das surpresas, a caminho do barco, uma mega chuvada. A chuva das mangas, dizem! Claro que ninguém estava preparado, nem o tuk tuk. Por isso lá fomos nós, a apanhar chuva por todos os lados, a ficar ensopadinhos. O que vale é que, lá está, aqui faz sempre calor! Os risos eram mais que muitos. Depois da festa, este passeio chuvoso já era suficiente para soltar umas boas gargalhadas. Mas ainda havia mais, mal sabia ele!

No barco, um manjar especial para os adultos com um chouriço português religiosamente guardado por uma amiga, um copo de vinho e uma sobremesa especial para as crianças: pipocas! O prato favorito do pirata. E bolo de chocolate. Combinação infalível. Escusado dizer, que agarrou-se à saladeira gigante e não mais largou.

Entretanto, a chuva acalmou e o barco lá se lançou às águas do Mekong. Enquanto a Caracolinhos, estourada de uma semana de grande animação no Campo de Férias, se deitava aborrecida nos bancos do barco (já chegámos?), o Pirata não podia estar mais feliz. Água, Água, Água! Exclamava sem parar! Estava doido com aquela piscina gigante. Água! (Ou Guá! em Gabrielês). E pipocas. (more? more? dizia.)

Foi mesmo um excelente início de fim-de-semana. Boa companhia, boa comida, uma vista fantástica. E nada como umas boas gargalhadas de Pirata para nos encher o coração.