E nós somos o quê?

Conversas a caminho da Escola…

“Eu não sou budista! Os Cambodjanos é que são budistas, eu não sou Cambodjana… Nós (Os Portugueses) somos o quê?”

Nós somos o que quisermos ser, digo eu. Eu até pensava que eras um bocadinho budista, estás sempre a falar do ciclo da vida e como voltamos a viver…

“Não! – continua ela – Somos o quê, lá em Portugal? Ah… E nós também acreditamos nisso dos Católicos? Mas também achamos que as pessoas voltam a viver? E quem é Deus? Não estou a perceber… É diferente do Budha? E as pessoas depois de irem para o Céu também voltam a viver?.. Eu cá acho que devia ser assim, umas pessoas se quisessem iam para o Céu, outras se quisessem voltavam a viver e pronto, acabava-se a confusão das Religiões!”

… Silêncio…

“O meu professor de (Cultura) Khmer diz que as pessoas más ficam na terra e isso não é bom porque depois são comidos pelos bichos, pelas tartarugas e as minhocas e isso… É melhor ser-se bom. O que é isso do Inferno? Ufa! Ainda bem que o Big Cat era bom, ao menos assim, não ficou a ser comido pelos bichos e anda a brincar no Céu…”

Suspiro… (eu!)

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A borboleta

A borboleta
Sabia
A minha vida
Só dura um dia
Que vou fazer?

Escolheu um
Jardim
Extra-bonito
Conversou
Com todas
As outras
Borboletas
Passeou e
Partiu
Para o céu
Das borboletas

In Da girafa à pulga da areia

Esta menina é como tu, disse-lhe eu. Como eu? Sim, tu também falas com borboletas. EU?! Sim. Ou pelo menos falavas. Falavas com todas as borboletas que encontravas. E elas falavam contigo. E pousavam no teu cabelo, no teu nariz. Oh… (enterra a cabeça na almofada, envergonhada…) E o que é isso de partir para o céu? Então, sabes que as borboletas vivem uma vida curtinha e depois vão para o céu das borboletas. (ri, desconfiada) Sim, deve ser um local lindíssimo, já imaginaste um local onde estão todas as borboletas?!… Pois, mas não devem lá ficar muito tempo. Sabes que as borboletas nascem, vivem, morrem e nascem outra vez. Nascem, vivem, morrem e nascem outras vez. E vivem, morrem e nascem outra vez… (E assim continuou em loop budista)

 

E o Rei ainda é vivo?

Qual Rei?, pergunto eu.

O Rei de Portugal, aquele que fugiu para o Brasil. Ou já há outro Rei? Há um Rei mas não diz a ninguém que é Rei para não o mandarem outra vez para o Brasil? Mas quem era a Corte? E porque é que eles ficavam com tudo? Também ficavam com a água? Quem era o Governo? Ah… então o Governo era o povo! E quando se chateavam também tinham que fugir? Porque é que o povo não fugia para o Brasil? E ainda há pessoas dessas do povo que estão vivas? Mas se a avó Mina não se lembra como é que tu te lembras?”

(Pausa)… “Eu acho que se calhar já estão vivas outras vez. (Como assim, vivas outra vez?) Sim, lembras-te do que te expliquei do Budismo? Nós nascemos, crescemos, vivemos, ficamos doentes e velhinhos, morremos e depois nascemos outra vez. É assim. É o ciclo da vida.”

O lado jasmim da vida

Parte de estar longe, é aprender a lidar com as coisas não vividas, com o não estar presente no momento certo, o não partilhar as alegrias e as tristezas. O início da vida e o fim da mesma. A vida vai correndo ao sabor dos fusos horários, das luas e dos soís que se põem em lados opostos, obrigando a uma distância que se quer curta, mas que teima em se afirmar mais e mais a cada dia, mês e ano que passa.

Estar longe, é também aprender a lidar com a inveja que se sente quando percebemos que quem lá fica consegue viver sem nós, que preenche o espaço que nós deveríamos ocupar com outras pessoas, com outras vivências. De repente, já não somos os primeiros na linha. E ficamos magoados com isso. Mas que fizemos nós para que isso não acontecesse? Seria tal possível? Agora não dá, agora é de noite, agora estão no trabalho, agora já não interessa… E adiamos e esquecemos. Ou insistimos e não corre como esperado, porque o tempo não congela.

Mas estar longe, é também aprender a aceitar tudo isto. Não foram só os outros que mudaram, nós também. E muito. O tempo não congelou lá do outro lado do mundo, continuou a correr, tal como aqui. E é aprender a lidar com essa diferença e relativizar. E celebrar o que se tem. Aprender que se queremos mais, também temos que dar mais. Aprender a lidar com as ausências, com os momentos não vividos, com as expectativas que caem, com as amizades que mudam, com as memórias que se esbatem e não são retocadas. Mas também com as amizades que renascem de forma inesperada. Com os pequenos gestos, com palavras inesperadas que surgem no momento certo.

Afinal, estar longe é aprender a lidar com tudo isto, aprender a estar perto, estando longe. Aprender a tirar a culpa, a inveja, o ressentimento e aceitar o que vem. Aceitar as decisões, as nossas e as dos outros. Ser generoso. Ser feliz com felicidade dos outros. Sentir à distância a tristeza dos outros. E cheirar o jasmim. Ou como dizem os budistas por aqui, é aprender a ser livre e deixar ir… “all the bad things out, all the good things in…”