Big Cat

Conversa no regresso a casa depois da aula de equitação…

“Sabes, hoje contei a história da Big Cat às minhas amigas. E foi a primeira vez que o fiz sem chorar. Assim sem lágrimas, estás a ver? Porque normalmente fico sempre com lágrimas a sair dos olhos, mas desta vez fiquei só com as lágrimas cá dentro. Quer dizer que estou melhor, não é?”

Olhei para trás e dei de caras com os seus grande olhos azuis, vermelhos do esforço que faziam para conter as tais lágrimas…

Foi em Siem Reap, em meados de Setembro de 2012, tinha a Pulga quase 4 anos, que a Big Cat entrou nas nossas vidas. Quando acordámos lá estava ela no quintal e por lá foi ficando. Foi a nossa primeira gata. Era meiga, tranquila, linda… E espantosamente dada aos avanços de uma amante incondicional dos animais que nem sempre mede a força dos seus abraços… Inseparáveis aquelas duas.

Infelizmente, a vida no Cambodja rural era dura. Para as pessoas, mas sobretudo para os animais de rua, frequentemente doentes, esfomeados e mal-tratados. Era comum ouvirmos os ladrares, os choros e as lutas. Sobretudo à noite, quando a cidade dormia. E foi assim que num dia triste, triste de Janeiro de 2013, a Big Cat desapareceu. Foi dar o seu passeio e não mais voltou. Uma busca nos terrenos à volta de casa, confirmaram os nossos piores receios.

Eu estava longe, longe e por isso, tive que dar colo também assim, ao longe… Recordo-me como se fosse hoje do telefonema. “Mãe, a Big Cat morreu.” Lembro-me de todas as palavras. Do choro. E dos soluçar entre palavras.

Tratou-se do funeral, ali mesmo no nosso quintal. Houve flores, incenso, livros e desenhos. Um misto de cerimónia budista, com tradições pagãs e desejos de uma menina de quase 4 anos. Ainda hoje, guarda a sua coleira como se de um amuleto se tratasse. Mas foi um golpe duro e inesperado. Sobretudo para uma amante dos animais como a nossa Pulga, que vive e respira com eles.

Passado todos estes anos, é recorrente lembrar-se dela. Da sua Big Cat. Gosta de falar sobre ela e contar aos outros as suas aventuras. E também a forma violenta como morreu. Já eu, continuo a surpreender-me com a sua maturidade. Com a sua capacidade de olhar para dentro de si, analisar o seu luto e perceber a mudança.

“Quer dizer, eu continuo a gostar dela e a ficar triste quando penso nela, mas é diferente, estás a perceber?”

Percebo, minha linda, se te percebo.

 

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Lido na paisagem…

Gosto de me perder na cidade, nas ruelas, nos mercados… Virar à direita ou à esquerda quando sabemos que em frente seria o caminho certo. Ir a pé ou de tuk tuk em vez de pegar no carro…

Foi isso que fiz no outro dia… E de repente, algures em Phnom Penh, na parede duma ruela daquelas bem estreitas, lia-se assim em grandes letras pretas:

Open your eyes and dream.

Abre os olhos e sonha, em Português. Esteve quase para ser uma daquelas quase-fotografias. Aquelas que ficamos a pensar que devíamos ter tirado uma fotografia, mas não tiramos e depois ficamos a remoer sobre o assunto. Mas não. Parei o carro ali mesmo no meio da rua, sai e tirei a foto. Porque numa altura de grandes interrogações e ainda maiores transições, quando a vida nos manda recados, é melhor que os tomemos a sério.

Como assim só passaram dois anos?

O Facebook diz-me que passaram dois anos desde que publiquei esta foto.

Pois eu cá acho que ele deve estar enganado. Impossível que tenham apenas passado apenas dois anos. Não… Isto já foi há muito, muito tempo. Toda uma vida já se passou depois desta foto. Vá, uma vida não, mas umas boas duas décadas, concerteza!

Porque se fosse verdade o que dizem os senhores que controlam as datas do Facebook, queria dizer que faz pouco mais de dois anos que atravessei meio mundo com uma pulga e um recém-nascido (que nessa altura ainda não tinha direito a cognome!) naquela que foi provavelmente a pior viagem intercontinental da história, para nos juntarmos ao pai Nelson que já estava no Laos. E faria pouco mais de dois anos que arranjávamos uma casa espectacular cheia de árvores de fruto, comprávamos o carro mais feio de Vientiane, arranjávamos, a custo, escola para a Carolina, tentávamos, também a custo, que eu fizesse um mestrado online que definitivamente tinha tudo para não acontecer, naquilo que parecia o local perfeito na época errada. E faria pouco mais de dois anos que sobreviviamos à pior época quente que já tínhamos vivido e passávamos pela festa mais louca e refrescante do ano (o Sabaidee Pii Mai) até chegar a este dia em que finalmente conseguimos fugir da chata e cinzenta capital Laosiana em direcção às palmeiras e aos campos de arroz verdejantes?…

Impossível caros senhores do Facebook! Isto já foi há muito, muito tempo! A sério!

Porque isso quereria dizer que foi apenas há dois anos que aconteceu este fim-de-semana, o primeiro Dia da Mãe a quatro, em que finalmente nos re-encontrávamos depois de uma saída apressada do Cambodja e de um período familiar complicado (para ser simpática…) e que voltávamos a ser uma família não-totalmente-destrambelhada e que sabe viver a quatro. E que a partir daqui a vida parecia boa, boa. E andávamos a apanhar mangas e cocos no quintal, a fazer barbecues com os amigos, a alimentar a colónia de gatos do bairro que crescia sem parar, a torcer ao longe com cada notícia do avô Adérito, a vibrar com a pulga a dar os seus primeiros passos no ballet e o pirata a dar as suas primeiras reboladelas no chão da sala…

Não senhores do Facebook. O pirata já anda faz séculos e a pulga diz que ballet é para meninas e zumba é que está a dar! Okay?

Ou acham que caímos num qualquer túnel do tempo? E que aquele momento em que de repente percebemos que afinal a vida não seria assim tão boa e, sem alternativas, decidimos sair e voltar para Portugal, sem eira nem beira, com um pirata à frente e uma pulga atrás, dois pais desempregados e um futuro incerto, mas sempre com esperança (ou muita loucura, aquilo que der mais jeito para a malta andar para a frente) para acreditar que dali a uns meses as coisas mudariam e estaríamos novamente a embarcar numa nova aventura, se passou afinal há apenas dois anos e não numa outra vida como realmente parece?

Não senhores do Facebook. A vida não se mede assim. Até porque nesta vida onde nós andamos, temos direito a celebrar pelo menos três passagens de ano, por ano! Diz que temos o International, o Chinês (e Vietnamita) e o do Laos (e do Cambodja, da Tailândia…). E, por isso, caros senhores das datas do Facebook, a bem da minha sanidade mental e dos restantes membros da família, vou ignorar esta vossa provocação e continuar a achar que já se passaram uns bons aninhos desde que esta foto foi tirada. Até porque ninguém passaria por isto tudo em apenas dois anos e estaria já de novo a preparar-se para fazer as malas e embarcar em nova aventura, certo?… Ufa, ainda bem que nos entendemos. Obrigada!

 

 

 

E nós somos o quê?

Conversas a caminho da Escola…

“Eu não sou budista! Os Cambodjanos é que são budistas, eu não sou Cambodjana… Nós (Os Portugueses) somos o quê?”

Nós somos o que quisermos ser, digo eu. Eu até pensava que eras um bocadinho budista, estás sempre a falar do ciclo da vida e como voltamos a viver…

“Não! – continua ela – Somos o quê, lá em Portugal? Ah… E nós também acreditamos nisso dos Católicos? Mas também achamos que as pessoas voltam a viver? E quem é Deus? Não estou a perceber… É diferente do Budha? E as pessoas depois de irem para o Céu também voltam a viver?.. Eu cá acho que devia ser assim, umas pessoas se quisessem iam para o Céu, outras se quisessem voltavam a viver e pronto, acabava-se a confusão das Religiões!”

… Silêncio…

“O meu professor de (Cultura) Khmer diz que as pessoas más ficam na terra e isso não é bom porque depois são comidos pelos bichos, pelas tartarugas e as minhocas e isso… É melhor ser-se bom. O que é isso do Inferno? Ufa! Ainda bem que o Big Cat era bom, ao menos assim, não ficou a ser comido pelos bichos e anda a brincar no Céu…”

Suspiro… (eu!)

O mocho

Carolina, porque é que andas com uma saia na mochila? Pergunto eu.

Porque sim. Quer dizer, eu sei que queres saber, mas não vou dizer, responde ela. E lá continuou a saia toda enrolada no meio dos livros da biblioteca e do saco da natação.

Uns dias depois chega o recado da escola. Visita à Krousar Thmey, uma das poucas associações que trabalha com crianças portadoras de deficiência, neste caso, visual e auditiva. É favor chegar cedo. E temos que levar um lanche para partilhar!, diz ela.

E a saia já pode ficar em casa! (Ai sim?) Lembras-te quando fui com a minha escola a Kampot? Fomos ver um espectáculo de umas crianças que não tinham umas mãos e uns braços e assim… E não ouviam, nem viam… Então, na minha sala estivemos a fazer como se fossemos elas. Tínhamos que esconder um braço atrás das costas e vestir a roupa e comer…

Uns dias antes desta viagem a Kampot, íamos no carro e na rádio ouvia-se uma entrevista a uma senhora fantástica que, tendo nascido sem mãos, tinha desistido de usar próteses e aprendido usar os pés para pintar e para tocar piano, por exemplo. Mais tarde, tornou-se a primeira pilota de avião sem mãos da história. Na altura ficou muito impressionada. Confusa. Como é que tal era possível? Como é que se segura o pincel nos dedos dos pés? Como é que se consegue mexer assim os dedos? Perguntas, perguntas e mais perguntas. Falámos muito sobre isso, vimos vídeos no youtube. E quando finalmente fez a visita à Epic Arts, tudo lhe fez mais sentido.

Finalmente chegou o dia de visitar a Krousat Thmey. Apesar de ter entrado na escola bem mais cedo que o habitual, quando a fui buscar não tinha pressa de sair. Queria conversar. Contar tudo. Sentámos-nos junto ao campo de futebol e ficámos ai a falar sobre tudo o que tinha aprendido com os meninos que não ouvem nem vêem. Começam a escola cedo, diz ela, às 6 da manhã e almoçam às 11! E têm aulas como nós.

Os meninos que não vêem, escrevem as palavras num papel com a ajuda de uma máquina que faz bolinhas da direita para a esquerda. E depois viram ao contrário e lêem da esquerda para a direita. Como nós. Só têm problema com a matemática, porque é mais difícil escrever os números, conta ela.

Mas o que mais gostou mesmo foi de estar com os meninos que não ouvem (mas vêem!) e aprender língua gestual. Eles até me ensinaram a dizer “Eu chamo-me Ana”! Foram eles que escolheram Ana porque Carolina era mais difícil… Isso e os nomes dos animais, que é logo meio caminho andado para lhe prender a atenção. Pergunta-me lá um! Lembrava-se de todos, dos mais simples como o coelho aos mais complicados como o mocho que ela faz na foto tão bem e que eu não consegui fazer…

No Cambodja, não há essa coisa da inclusão, muito menos em escolas internacionais como aquela que ela frequenta. As disparidades no ensino são mais que muitas. E os meninos e meninas destas escolas, vivem por vezes em bolhas exclusivas, distintas, que dificilmente se aproximam uma da outra. Por isso, iniciativas como estas, parecendo tão pouco, quando devidamente trabalhadas são tão importantes. E foi isso que fizeram. Aos pouquinhos foram falando sobre o assunto, experimentado, aproximando. Dizem eles, os Srs. da escola, que a competência Ser Cidadão é tão importante como o Domínio da Língua e a Matemática. Ainda bem. E que assim seja, sempre.

O Sr UNICEF

Porque este blog não se faz apenas de três pessoas. Porque esta aventura só faz sentido a quatro. E porque há momentos que merecem mesmo ser partilhados, assim cheios de baba e orgulho. Porque hoje o Sr UNICEF cá de casa (também conhecido como Nelson. Ou Né. Ou Nel Son. Ou paiiiii!) é a pessoa de destaque no site da UNICEF Innovation.

Fica aqui o link! Vale a pena ler. Mesmo. Ou arriscam-se a perder coisas fantásticas como:

How would you describe your job to a 5-year-old?
For a 5 year old I’d probably say I try to do things that help children feel happy and smile.

What’s one of the biggest risks you’ve ever taken in your life?
Having my own children. Nothing could have prepared me for the first time I held my daughter in my arms.

É preciso dizer mais alguma coisa? Vão lá espreitar. Adoro. Um orgulho este pai Nelson.

Casa velha, casa nova

Há exactamente um ano atrás deixámos a casa da piscina e viemos para a casa nova.

Dizia eu, como legenda a esta foto: “Hoje foi assim… dia de despedida da casa da piscina e de mudança para a casa nova. Para já, no meio do caos de caixas, malas e brinquedos, tudo dorme tranquilo, sem piscina, mas no coração da cidade”.

Um ano depois, a casa da piscina continua a ser a nossa casa e a casa nova continua a ser… a casa nova. Porque isto acontece, não sei. Talvez porque as mudanças tenham sido mais que muitas. Desde Julho de 2011, quando nos metemos nesta aventura, consigo contar rapidamente umas seis ou sete casas. (Sem contar com os intervalos que fizemos na casa do monte) Por diversos motivos, em nenhumas delas, nos demorámos tanto como nesta…

Então, quando é que a casa nova passa a ser casa? Diria que as casas, por mais que as transformemos na nossa casa,  só passam mesmo a ser nossas, quando de lá saímos. “A nossa casa de Siem Reap”, “a nossa casa do Laos“…  Parece que em todas as elas estamos a prazo e, como tal, temos sempre receio de nos sentir em casa, de nos acomodarmos demasiado. Tal como nunca sabemos, verdadeiramente, quanto tempo iremos ficar neste país ou em qualquer outro… Até porque, será por aqui mesmo que queremos ficar? E se não, para onde ir?

Para já, acho que estamos de Parabéns por finalmente termos arranjado um poiso! Ou uma casa, vá!

Uma gargalhada por dia…

… Não sabe o bem que lhe fazia!

Vantagens de se viver no Verão o ano inteiro é que podemos aproveitar ao máximo tudo o que a cidade tem para nos oferecer (isto antes que chegue a época quente e o ar se torne tão irrespirável que damos tudo por ficar em casa!). Por isso, nada melhor do que terminar uma semana agitada com um passeio de barco entre amigos. Três casais, uma mão cheia de crianças e lá vamos nós…

Era o último dia do campo de férias da Caracolinhos, e havia uma sessão preparada para os pais, por isso, pedimos ao tuk tuk, para nos ir lá buscar. Depois da mega festa, lá entrámos nós para o tuk tuk, eu, o pirata e a caracolinhos, prontos para atravessar a cidade até ao cais. O céu estava cinzento, mas estamos na época seca, não ligámos. Pois… Surpresa das surpresas, a caminho do barco, uma mega chuvada. A chuva das mangas, dizem! Claro que ninguém estava preparado, nem o tuk tuk. Por isso lá fomos nós, a apanhar chuva por todos os lados, a ficar ensopadinhos. O que vale é que, lá está, aqui faz sempre calor! Os risos eram mais que muitos. Depois da festa, este passeio chuvoso já era suficiente para soltar umas boas gargalhadas. Mas ainda havia mais, mal sabia ele!

No barco, um manjar especial para os adultos com um chouriço português religiosamente guardado por uma amiga, um copo de vinho e uma sobremesa especial para as crianças: pipocas! O prato favorito do pirata. E bolo de chocolate. Combinação infalível. Escusado dizer, que agarrou-se à saladeira gigante e não mais largou.

Entretanto, a chuva acalmou e o barco lá se lançou às águas do Mekong. Enquanto a Caracolinhos, estourada de uma semana de grande animação no Campo de Férias, se deitava aborrecida nos bancos do barco (já chegámos?), o Pirata não podia estar mais feliz. Água, Água, Água! Exclamava sem parar! Estava doido com aquela piscina gigante. Água! (Ou Guá! em Gabrielês). E pipocas. (more? more? dizia.)

Foi mesmo um excelente início de fim-de-semana. Boa companhia, boa comida, uma vista fantástica. E nada como umas boas gargalhadas de Pirata para nos encher o coração.

 

O café como escritório

Desde que vim para o Cambodja, tenho vindo a trabalhar como consultora para diferentes organizações. Um trabalho individual, freelance, que traz consigo imensas vantagens e desvantagens já amplamente descritas em outros blogs da moda (que não é o meu concerteza!).

Como desvantagem, diria, o facto de ser na maioria dos casos um trabalho pontual e muito concentrado no tempo, quer dizer que somos contratados para fazer uma tarefa específica e não temos muitas vezes oportunidades de ver o produto crescer. Na maior parte das vezes, é também esperado que consigamos encaixar o equivalente ao volume de trabalho de dois funcionários a tempo inteiro durante o período de um ano em duas semanas e meia, com 324 revisões e recomendações pelo meio. E claro, dominar a linguagem técnica, e reconhecer de cor todos os acrónimos como se fossem a coisa mais natural do mundo. E no fim, talvez tenhamos logo outro em carteira, ou talvez não…

Como vantagem, o contacto com tantas realidades diferentes, desde as organizações às populações com as quais trabalhamos, os modos distintos de trabalho, a percepção de diferentes modos de vida, diferentes culturas e diferentes tempos. Também a diversidade do trabalho que tenho realizado, que vai desde a organização de conferências internacionais na área das políticas de género com pessoas de cinco países diferentes na região, consultadorias com agências das nações unidas ou desenvolvimento de projectos de educação e comunicação em saúde sexual e reprodutiva para trabalhadores das industrias têxteis. O termos que ser permanentemente criativo, termos um conhecimento novo e apresentar produtos diferentes para públicos novos em cada consultadoria…  Espectáculo, certo? Certo. E ainda sermos pagos (e bem) por isso. Maravilha.

Mas há também vantagens que são simultaneamente desvantagens. Uma delas é o não termos poiso certo. Não somos obrigados a estar fechados num escritório. Se isso nos pode afastar um pouco da organização e ter custos em termos de proximidade, pode trazer outras vantagens. Podemos escolher um escritório diferente todos os dias, de acordo com a nossa inspiração, humor, volume de trabalho, tipo de trabalho, apetência de comida… O que for. E nisso, haverá poucas cidades tão boas para o fazer como Phnom Penh.

Há dezenas de cafés espalhados pela cidade, para todos os gostos, carteiras e vontades. Uns mais cheios do que outros, uns mais na moda, outros mais outsiders, uns mais voltados para os “westerners” outros mais voltados para os “locais” ou os “asiáticos”. Todos com excelente wifi, bastantes já apresentam um bom café e comida (demasiado) apetitosa. E há centenas de pessoas como eu, todos os dias a trabalhar a partir desses escritórios ambulantes. Uns dias não falamos com ninguém. Noutro, a pessoa do lado decide meter conversa contigo. Noutro, encontras alguém conhecido e acabas por ficar a tagarelar mais do que devias…

Aqui fica uma das melhores vistas de um dos meus escritórios ambulantes preferidos… (Também podia ficar em casa, mas não seria a mesma coisa!)

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O lado jasmim da vida

Parte de estar longe, é aprender a lidar com as coisas não vividas, com o não estar presente no momento certo, o não partilhar as alegrias e as tristezas. O início da vida e o fim da mesma. A vida vai correndo ao sabor dos fusos horários, das luas e dos soís que se põem em lados opostos, obrigando a uma distância que se quer curta, mas que teima em se afirmar mais e mais a cada dia, mês e ano que passa.

Estar longe, é também aprender a lidar com a inveja que se sente quando percebemos que quem lá fica consegue viver sem nós, que preenche o espaço que nós deveríamos ocupar com outras pessoas, com outras vivências. De repente, já não somos os primeiros na linha. E ficamos magoados com isso. Mas que fizemos nós para que isso não acontecesse? Seria tal possível? Agora não dá, agora é de noite, agora estão no trabalho, agora já não interessa… E adiamos e esquecemos. Ou insistimos e não corre como esperado, porque o tempo não congela.

Mas estar longe, é também aprender a aceitar tudo isto. Não foram só os outros que mudaram, nós também. E muito. O tempo não congelou lá do outro lado do mundo, continuou a correr, tal como aqui. E é aprender a lidar com essa diferença e relativizar. E celebrar o que se tem. Aprender que se queremos mais, também temos que dar mais. Aprender a lidar com as ausências, com os momentos não vividos, com as expectativas que caem, com as amizades que mudam, com as memórias que se esbatem e não são retocadas. Mas também com as amizades que renascem de forma inesperada. Com os pequenos gestos, com palavras inesperadas que surgem no momento certo.

Afinal, estar longe é aprender a lidar com tudo isto, aprender a estar perto, estando longe. Aprender a tirar a culpa, a inveja, o ressentimento e aceitar o que vem. Aceitar as decisões, as nossas e as dos outros. Ser generoso. Ser feliz com felicidade dos outros. Sentir à distância a tristeza dos outros. E cheirar o jasmim. Ou como dizem os budistas por aqui, é aprender a ser livre e deixar ir… “all the bad things out, all the good things in…”