Como assim só passaram dois anos?

O Facebook diz-me que passaram dois anos desde que publiquei esta foto.

Pois eu cá acho que ele deve estar enganado. Impossível que tenham apenas passado apenas dois anos. Não… Isto já foi há muito, muito tempo. Toda uma vida já se passou depois desta foto. Vá, uma vida não, mas umas boas duas décadas, concerteza!

Porque se fosse verdade o que dizem os senhores que controlam as datas do Facebook, queria dizer que faz pouco mais de dois anos que atravessei meio mundo com uma pulga e um recém-nascido (que nessa altura ainda não tinha direito a cognome!) naquela que foi provavelmente a pior viagem intercontinental da história, para nos juntarmos ao pai Nelson que já estava no Laos. E faria pouco mais de dois anos que arranjávamos uma casa espectacular cheia de árvores de fruto, comprávamos o carro mais feio de Vientiane, arranjávamos, a custo, escola para a Carolina, tentávamos, também a custo, que eu fizesse um mestrado online que definitivamente tinha tudo para não acontecer, naquilo que parecia o local perfeito na época errada. E faria pouco mais de dois anos que sobreviviamos à pior época quente que já tínhamos vivido e passávamos pela festa mais louca e refrescante do ano (o Sabaidee Pii Mai) até chegar a este dia em que finalmente conseguimos fugir da chata e cinzenta capital Laosiana em direcção às palmeiras e aos campos de arroz verdejantes?…

Impossível caros senhores do Facebook! Isto já foi há muito, muito tempo! A sério!

Porque isso quereria dizer que foi apenas há dois anos que aconteceu este fim-de-semana, o primeiro Dia da Mãe a quatro, em que finalmente nos re-encontrávamos depois de uma saída apressada do Cambodja e de um período familiar complicado (para ser simpática…) e que voltávamos a ser uma família não-totalmente-destrambelhada e que sabe viver a quatro. E que a partir daqui a vida parecia boa, boa. E andávamos a apanhar mangas e cocos no quintal, a fazer barbecues com os amigos, a alimentar a colónia de gatos do bairro que crescia sem parar, a torcer ao longe com cada notícia do avô Adérito, a vibrar com a pulga a dar os seus primeiros passos no ballet e o pirata a dar as suas primeiras reboladelas no chão da sala…

Não senhores do Facebook. O pirata já anda faz séculos e a pulga diz que ballet é para meninas e zumba é que está a dar! Okay?

Ou acham que caímos num qualquer túnel do tempo? E que aquele momento em que de repente percebemos que afinal a vida não seria assim tão boa e, sem alternativas, decidimos sair e voltar para Portugal, sem eira nem beira, com um pirata à frente e uma pulga atrás, dois pais desempregados e um futuro incerto, mas sempre com esperança (ou muita loucura, aquilo que der mais jeito para a malta andar para a frente) para acreditar que dali a uns meses as coisas mudariam e estaríamos novamente a embarcar numa nova aventura, se passou afinal há apenas dois anos e não numa outra vida como realmente parece?

Não senhores do Facebook. A vida não se mede assim. Até porque nesta vida onde nós andamos, temos direito a celebrar pelo menos três passagens de ano, por ano! Diz que temos o International, o Chinês (e Vietnamita) e o do Laos (e do Cambodja, da Tailândia…). E, por isso, caros senhores das datas do Facebook, a bem da minha sanidade mental e dos restantes membros da família, vou ignorar esta vossa provocação e continuar a achar que já se passaram uns bons aninhos desde que esta foto foi tirada. Até porque ninguém passaria por isto tudo em apenas dois anos e estaria já de novo a preparar-se para fazer as malas e embarcar em nova aventura, certo?… Ufa, ainda bem que nos entendemos. Obrigada!

 

 

 

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Ot soksabay!

Normalmente, a coisa funciona assim: a Caracolinhos sai de casa com o pai e o Pirata sai de casa com a mãe. Tranquilo. Até cada uma das escolas são 10 ou 15 minutos e depois até ao trabalho é um tirinho.

Esta semana o pai está fora. Logo, toda a rotina muda. E nem estamos a falar da parte do “Carolina acorda, Carolina mexe-te, Carolina come, Carolina a mochila, Carolina os sapatos!”. Não, tudo isso corre normalmente bem quando apenas um dos progenitores está presente. E hoje não foi excepção. Até batidos fizemos! O que muda é que cabe-me a mim, fazer as duas corridas da escola que ficam em lados opostos da cidade. Tudo bem. Até podia mandar um deles com a ama no tuk tuk, mas achei que não, a mãe aguenta! A mãe até gosta. E assim, brincamos todos um bocadinho… Claro… Era para ser assim.

Mas no Cambodja, as coisas nem sempre correm como imaginamos, são o que parecem ser e o que foi ontem, hoje já não é! E como vivemos fora da bolha, por não falarmos a língua, não lermos jornais ou vermos televisão, de repente arriscamos-nos a ter desagradáveis surpresas. Tipo hoje.

Saímos de casa na hora certa. 7h40! Impossível falhar. Humor em alta, música no carro, lá vamos nós. Cinco minutos depois estávamos a passar o Central Market e… hum, estranho, o trânsito está parado, vamos tentar a outra rua… Parado, ok, sem problema, algum carro que se meteu no cruzamento e agora ninguém passa… o costume, pensei eu… Passados 10 minutos, estávamos exactamente no mesmo sítio. E mais 10… E mais 10… Já deu para perceber, certo?

Aparentemente, estavam a fechar ruas, a colocar barreiras em todo o lado e a desviar trânsito das vias principais para outras mais interiores. Em hora de ponta. Com meio policia em cada cruzamento. Lá atrás o discurso passou do “não tem problema, vamos jogar às adivinhas” para “já estou a ficar aborrecida! Vou ter que ir buscar justificação!” Resultado?… 1 hora só para chegar à escola da Carolina! 1 Hora!!! Tipo, 45 minutos a mais do que o suposto.

Primeira etapa superada… vamos à etapa seguinte: o trânsito continua parado e ainda tenho um filho aborrecido e cheio de fome no carro. E a escola dele fica no outro lado da cidade, lembram-se? É isso. E os carros não andam. Nem as motos. Não há tuk tuks! (Estranho…) Há autocarros por todo o lado, que normalmente não estariam ali porque as rotas são outras. E nem um lugar para estacionar e continuar a pé…

Lá desesperamos mais meia-hora dentro do carro, até que finalmente aparece um sítio para estacionar. Tiro o carrinho de bebé e lá vamos nós! Finalmente, a andar! A pé, mas a andar! 20 minutos de caminhada depois, passamos os carros parados e… Tuk Tuk!!! Criança, carrinho, malas lá para dentro e lá seguimos para a escola! 2 horas depois de sairmos de casa, lá estávamos nós…

O que aconteceu não sei, há quem fale de uma manifestação marcada para ali, há quem diga que o Primeiro-Ministro vai inaugurar uma escola ali perto… não sei, mas que foi um péssimo começo de dia, lá isso foi. Ot sokabay! Ot soksabay!

Nota: à hora de almoço, o inferno continua… Aparentemente, Sua Excelência o Primeiro-Ministro está a fazer uma “Tea Party” no Hotel Le Royal… Coisas de imperadores, claramente.

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Só mais uma nota: Só depois de tirar esta última foto, olhei para a senhora. Ela olhou para mim e ao cumprimentá-la é que me apercebi do conjunto. Normalmente, pijama, toalha e gorro na cabeça são sinónimos de “acabei de sair da maternidade”. Vi o resto dos sacos: roupas, mantas e fraldas. Pois, ali dentro daquele embrulho branco que a senhora segura ao colo e tenta proteger do calor abrasador, vai um bebé. Nunca hei-de parar de admirar com a capacidade destas mulheres se por à estrada, numa mota ou num tuk tuk, poucas horas depois de parir. Valentes.