Gabriel. 4 anos, 4 países.

– Gabriel, sabes onde é que nasceste?

– Sei. No Cambodja.

– Quase. Quando ainda estavas na barriga da mãe, saímos do Cambodja e fomos para Portugal. Nasceste lá, mas depois foste ainda bebezinho para o Laos. Depois, quando já eras um pouquinho menos bebé fomos para o Cambodja.

– Ah !!! Está bem.

– E agora sabes onde estás?

– Sei. Na casa nova em Moçambique.

Gabriel. 4 anos, 4 países. E um mundo cheio de casas novas por descobrir.

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Devagarinho…

É manhã cedo, mas o Gabriel dorme no carrinho, cansado do reboliço do fim-de-semana. A Carolina quis ir novamente para o ATL onde passou a última semana. O Nelson foi para o trabalho, depois de termos ido visitar aquela que esperamos que venha a ser a nova escolinha do Pirata. E eu rumei à descoberta de um novo sitio. O Jardim dos Professores, em Maputo, Moçambique. É aqui que estamos agora. Maputo. É aqui que fica a nossa nova casa. Aterrámos faz pouco mais de uma semana. O início foi turbulento. Com direito a Inverno africano, entradas monumentais no aeroporto, polícias e ladrões, condução à inglesa, almoços à beira-mar, novas amizades e a tão desejada casa com jardim.
Depois de tudo isto, hoje, finalmente, dei por mim a beber o meu café em calma, a sentir o sol morno da manhã, a brisa que passa e a perder-me nesta magnífica paisagem. E, finalmente, com tempo de vir aqui. Com calma. Para contar tudo o que se tem passado nos últimos meses. E o tanto que está para vir. E, finalmente, pensar que sim, isto faz-se. Ainda vamos ser felizes aqui nesta nossa nova casa.

Desta vez temos tempo…

Em 2011 tínhamos tempo, mas ela não percebia. Tentávamos explicar-lhe, mas era pequenina demais para perceber a dimensão do que ia acontecer.

Em 2013, num dia dizíamos que íamos ficar por ali e renegociávamos o contracto com o senhorio e no outro o resultado de umas análises de rotina, levam-nos a largar tudo e a regressar de emergência. Ela percebia mais ou menos, mas houve pouco tempo para explicar.

Em 2014, ela percebia e nós explicámos, ou tentámos, mas houve tanta, tanta coisa que as explicações eram tão difíceis de entender como de dar…  E, mais uma vez, parecia que tempo era coisa que escasseava…

Agora, pela primeira vez, temos tempo. E ela percebe e bem. E, por isso, ter tempo é muito, muito bom. Tempo para gritar que não quer, que é injusto, que agora é que era bom e que quer mais. Tempo para fazer despedidas e encerrar capítulos. Tempo para fazer festas e mimos, gritar, chorar e rir. Mas também tempo para explorar, fazer milhões de perguntas e sonhar com o que há-de vir.

Lido na paisagem…

Gosto de me perder na cidade, nas ruelas, nos mercados… Virar à direita ou à esquerda quando sabemos que em frente seria o caminho certo. Ir a pé ou de tuk tuk em vez de pegar no carro…

Foi isso que fiz no outro dia… E de repente, algures em Phnom Penh, na parede duma ruela daquelas bem estreitas, lia-se assim em grandes letras pretas:

Open your eyes and dream.

Abre os olhos e sonha, em Português. Esteve quase para ser uma daquelas quase-fotografias. Aquelas que ficamos a pensar que devíamos ter tirado uma fotografia, mas não tiramos e depois ficamos a remoer sobre o assunto. Mas não. Parei o carro ali mesmo no meio da rua, sai e tirei a foto. Porque numa altura de grandes interrogações e ainda maiores transições, quando a vida nos manda recados, é melhor que os tomemos a sério.

Para onde vamos?

Para quem anda nesta vida de caracol com a casa às costas, há sempre aquela altura do ano em que parece que toda a gente se vai embora. As pessoas chegam e partem em ciclos. Partem com o início do Verão, chegam com fim do mesmo. Entre a curiosidade de partir rumo à nova aventura e a saudade antecipada pelo que se deixa, é um momento com um sabor agridoce para quem parte e para quem fica.

Este fim-de-semana demos início a esta “época de despedidas”. Quatro no total. E uma festa de anos. No meio deste corrupio, entre uma festa e outra, fizemos uma pausa para almoçar, só os quatro. A Carolina encontra uma amiga no restaurante e vai conversar com ela.

Ficamos nós a terminar o nosso café, tranquilos, enquanto o Gabriel dorme a sesta no carrinho. De repente, chega apressada e sai-se com:

“- A seguir para onde vamos? 

– Então, ainda agora dissemos. Vamos descansar um bocadinho a casa, depois vais para a tua festa e o Gabriel vai para a dele…

– Não! Para que país!?

– Ah!… Moçambique!”

 

E pronto, também ela já entrou no frenesim…

Como assim só passaram dois anos?

O Facebook diz-me que passaram dois anos desde que publiquei esta foto.

Pois eu cá acho que ele deve estar enganado. Impossível que tenham apenas passado apenas dois anos. Não… Isto já foi há muito, muito tempo. Toda uma vida já se passou depois desta foto. Vá, uma vida não, mas umas boas duas décadas, concerteza!

Porque se fosse verdade o que dizem os senhores que controlam as datas do Facebook, queria dizer que faz pouco mais de dois anos que atravessei meio mundo com uma pulga e um recém-nascido (que nessa altura ainda não tinha direito a cognome!) naquela que foi provavelmente a pior viagem intercontinental da história, para nos juntarmos ao pai Nelson que já estava no Laos. E faria pouco mais de dois anos que arranjávamos uma casa espectacular cheia de árvores de fruto, comprávamos o carro mais feio de Vientiane, arranjávamos, a custo, escola para a Carolina, tentávamos, também a custo, que eu fizesse um mestrado online que definitivamente tinha tudo para não acontecer, naquilo que parecia o local perfeito na época errada. E faria pouco mais de dois anos que sobreviviamos à pior época quente que já tínhamos vivido e passávamos pela festa mais louca e refrescante do ano (o Sabaidee Pii Mai) até chegar a este dia em que finalmente conseguimos fugir da chata e cinzenta capital Laosiana em direcção às palmeiras e aos campos de arroz verdejantes?…

Impossível caros senhores do Facebook! Isto já foi há muito, muito tempo! A sério!

Porque isso quereria dizer que foi apenas há dois anos que aconteceu este fim-de-semana, o primeiro Dia da Mãe a quatro, em que finalmente nos re-encontrávamos depois de uma saída apressada do Cambodja e de um período familiar complicado (para ser simpática…) e que voltávamos a ser uma família não-totalmente-destrambelhada e que sabe viver a quatro. E que a partir daqui a vida parecia boa, boa. E andávamos a apanhar mangas e cocos no quintal, a fazer barbecues com os amigos, a alimentar a colónia de gatos do bairro que crescia sem parar, a torcer ao longe com cada notícia do avô Adérito, a vibrar com a pulga a dar os seus primeiros passos no ballet e o pirata a dar as suas primeiras reboladelas no chão da sala…

Não senhores do Facebook. O pirata já anda faz séculos e a pulga diz que ballet é para meninas e zumba é que está a dar! Okay?

Ou acham que caímos num qualquer túnel do tempo? E que aquele momento em que de repente percebemos que afinal a vida não seria assim tão boa e, sem alternativas, decidimos sair e voltar para Portugal, sem eira nem beira, com um pirata à frente e uma pulga atrás, dois pais desempregados e um futuro incerto, mas sempre com esperança (ou muita loucura, aquilo que der mais jeito para a malta andar para a frente) para acreditar que dali a uns meses as coisas mudariam e estaríamos novamente a embarcar numa nova aventura, se passou afinal há apenas dois anos e não numa outra vida como realmente parece?

Não senhores do Facebook. A vida não se mede assim. Até porque nesta vida onde nós andamos, temos direito a celebrar pelo menos três passagens de ano, por ano! Diz que temos o International, o Chinês (e Vietnamita) e o do Laos (e do Cambodja, da Tailândia…). E, por isso, caros senhores das datas do Facebook, a bem da minha sanidade mental e dos restantes membros da família, vou ignorar esta vossa provocação e continuar a achar que já se passaram uns bons aninhos desde que esta foto foi tirada. Até porque ninguém passaria por isto tudo em apenas dois anos e estaria já de novo a preparar-se para fazer as malas e embarcar em nova aventura, certo?… Ufa, ainda bem que nos entendemos. Obrigada!

 

 

 

Casa velha, casa nova

Há exactamente um ano atrás deixámos a casa da piscina e viemos para a casa nova.

Dizia eu, como legenda a esta foto: “Hoje foi assim… dia de despedida da casa da piscina e de mudança para a casa nova. Para já, no meio do caos de caixas, malas e brinquedos, tudo dorme tranquilo, sem piscina, mas no coração da cidade”.

Um ano depois, a casa da piscina continua a ser a nossa casa e a casa nova continua a ser… a casa nova. Porque isto acontece, não sei. Talvez porque as mudanças tenham sido mais que muitas. Desde Julho de 2011, quando nos metemos nesta aventura, consigo contar rapidamente umas seis ou sete casas. (Sem contar com os intervalos que fizemos na casa do monte) Por diversos motivos, em nenhumas delas, nos demorámos tanto como nesta…

Então, quando é que a casa nova passa a ser casa? Diria que as casas, por mais que as transformemos na nossa casa,  só passam mesmo a ser nossas, quando de lá saímos. “A nossa casa de Siem Reap”, “a nossa casa do Laos“…  Parece que em todas as elas estamos a prazo e, como tal, temos sempre receio de nos sentir em casa, de nos acomodarmos demasiado. Tal como nunca sabemos, verdadeiramente, quanto tempo iremos ficar neste país ou em qualquer outro… Até porque, será por aqui mesmo que queremos ficar? E se não, para onde ir?

Para já, acho que estamos de Parabéns por finalmente termos arranjado um poiso! Ou uma casa, vá!

Etapas da vida.

 

Há um ano atrás estávamos a sair do Laos, depois de um projecto que não correu tão bem como o esperado. Fizemos bons amigos, deixámos para trás uma casa cheia de árvores de fruto e voltámos para Portugal sem saber o que o Futuro nos iria trazer.

Apenas uma coisa tinhamos como certa: Em Setembro começa o ano escolar e a nossa filha merece começar o ensino primário em paz e ficar ai até ao final do ano. E tudo fizemos para respeitar esse compromisso. Mantivemos o processo em stand by na escola de Vientiane, fizemos uma pré-inscrição na escola de Phnom Penh e outra em Évora. Porque era para um destes três sítios que o futuro parecia querer ir. Mas o futuro demorou a fazer-se anunciar e os dias passavam devagar demais para quem precisava de respostas. E de acção.

Como explicar que não se sabia o que se ia fazer e onde se ia viver? Como explicar que não sabiamos se ia começar a escola primária, se continuasse na escola francesa ou iria continuar no pré-escolar se ficasse em Portugal? De um dia para o outro, a porta do Laos fecha e abre-se a porta de regresso ao Cambodja. Mas um Cambodja diferente, o da capital.

E ai vamos nós. Em 15 dias, há que fazer as despedidas, fazer malas, matrículas em escolas, arranjar casa, comprar viagens e ala que se faz tarde. Nós em Portugal, o Pai no Laos. Aterramos na véspera da escola começar. O pai aterra um dia antes. O tempo suficiente para arranjar uma casa provisória e um berço para o Gabriel.

Desta vez não houve tempo para ir conhecer a escola e o professor. Desta vez a Carolina não é a estrela da turma que aterra na escola a meio do ano e é o centro das atenções. Apercebemo-nos que, pela primeira vez em muito tempo, Carolina vai entrar numa escola nova, no início do ano lectivo. E, se correr bem, vai ficar até ao final do mesmo. Entra sem tempo para introduções ou apresentações, cheia de jet lag, parecendo que se tinha esquecido novamente do Francês, numa escola gigante e em obras, com ar pouco amigo das crianças e onde quase todas as crianças já tinham os seus próprios grupos.

Foram muitas as dúvidas e o receio de estarmos mais uma vez a forçar a barra. 3 países, 5 escolas e várias atribulações em 4 anos e uma menina que só queria voar com as borboletas, sentada numa sala de aula “sem tempo para brincar”. Queriamos que ela continuasse mais um ano no pré-escolar, afinal, ela só faria 6 anos em Dezembro, e depois de tantas mudanças, porque não dar tempo para se habituar e entrar em força no próximo ano. Mas a resposta foi clara: Carolina tinha avaliações excelentes, o pré-escolar está cheio. Não há motivo para abrir excepções.

Foi um ano duro, de recomeços, avanços e recuos. A dar pulos de alegria e orgulho por cada sucesso e a ficar de coração apertadinho por cada atropelo. Tantas e tantas vezes que nos questionámos. E igualmente muitas vezes que ela pediu para mudar. Mas não havia alternativa. A solução era aprender a lidar com a escola da forma mais saudável possível.

E conseguimos. Ela conseguiu. Mais uma vez, a filha mais espectacular do mundo provou que é mais forte que tudo. Que é capaz de lidar com este mundo de crescidos cheio de regras, letras e números. Tornou-se mais dura, é verdade. Os unicórnios iam e demoravam a voltar. Mas voltavam. E, por muito que lhe dissessem o contrário, ela continuou sempre a acreditar em fadas e no poder da magia. E essa força, quero acreditar que vai ficar para a vida. É por isso, que esta pequena avaliação me enche de orgulho. Porque é fruto do trabalho e da força desta miúda sonhadora. Porque sei que esta é a maneira francesa de dizer: “Parabéns! Foste fantástica!” Porque ela merece. E nós também.

Carolina avaliação final

Agora, venham as férias que são bem merecidas!

Viver a vida com a casa às costas

Hoje de manhã quando saíamos de casa deparei-me com este caracol absolutamente gigante. Não tendo um objecto ao lado para comparar poderá ser difícil perceber a real dimensão do bicho, mas, assim a olho nu, posso assegurar que tem tamanho suficiente para ser considerado um Senhor Caracol! A sério, grande, gigante!
Achei piada ao Sr. Caracol. Já ele olhou para mim com o mesmo ar que encontro na maioria dos expatriados com que me cruzo por estas bandas. Tipo, “Só cá estás há quatro meses. Hum, pois… (Novata, pensam) eu já cá ando há quatro anos”, dizem eles com ar de quem sabe tudo, mas não vai partilhar nadinha. A não ser que peças, muito, claro. Coisa que, quem me conhece, sabe que bem podem esperar bem sentadinhos. E ficamos assim mesmo. Salvo raras e boas excepções, claro.
Mais espantoso ainda é que ele sobreviva dia após dia. De acordo com fontes seguras, o Sr. Caracol já por aqui anda há algum tempo. Aparentemente, o senhor vive junto ao nosso portão e gosta de atravessar de um lado para o outro, colocando-se em sério risco de ser atropelado pelo carro mais feio de Vientiane, o nosso, claro! Mais tarde, ao voltar a casa dei por mim a fazer marcha-atrás e a corrigir a rota, de modo a evitar passar por cima do dito Sr. Caracol).
Numa altura em que nos preparamos, mais uma vez, para soltar amarras e voltar a por a casa às costas, acho fantástico que este senhor Caracol, traga consigo toda a sua vida, ali, naquela casa móvel que o acompanha. Sem malas, sem tralhas, sem complicações. Um dia, quando for grande, hei-de ser assim, destralhada. Só com bagagem na memória, no porão do avião e, vá lá, no disco externo! Ou talvez não.