Sem palavras.

A menina do monte está sem palavras. Parece incrível, mas é verdade…

A menina do monte tem muitas histórias para contar. Aventuras  e desventuras de quem anda de lá para cá e de cá para lá e nunca sabe bem em que lado ficar.

Mas a menina do monte é preguiçosa. E, por isso, adiava, adiava. E é também envergonhada. E, por isso, escrevia e só consigo partilhava.

Passinho a passinho, a menina do monte lá foi mostrando o que registava. E eis que um dia lhe dizem que as histórias da menina do monte (e companhia) andavam a ser lidas por outras pessoas que andam de lá para cá e de lá para cá… em Portugal, no Cambodja, em Espanha, em Moçambique, nos Estados Unidos, no Brasil, no Reino Unido, na Irlanda, na Suiça, na Holanda, no Laos, em Macau, em Cabo Verde, nas Filipinas, na República Checa, em Malta e na Dinamarca…

Só cá entre nós, a menina do monte está assim para o pasmada…

 

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Desta vez temos tempo…

Em 2011 tínhamos tempo, mas ela não percebia. Tentávamos explicar-lhe, mas era pequenina demais para perceber a dimensão do que ia acontecer.

Em 2013, num dia dizíamos que íamos ficar por ali e renegociávamos o contracto com o senhorio e no outro o resultado de umas análises de rotina, levam-nos a largar tudo e a regressar de emergência. Ela percebia mais ou menos, mas houve pouco tempo para explicar.

Em 2014, ela percebia e nós explicámos, ou tentámos, mas houve tanta, tanta coisa que as explicações eram tão difíceis de entender como de dar…  E, mais uma vez, parecia que tempo era coisa que escasseava…

Agora, pela primeira vez, temos tempo. E ela percebe e bem. E, por isso, ter tempo é muito, muito bom. Tempo para gritar que não quer, que é injusto, que agora é que era bom e que quer mais. Tempo para fazer despedidas e encerrar capítulos. Tempo para fazer festas e mimos, gritar, chorar e rir. Mas também tempo para explorar, fazer milhões de perguntas e sonhar com o que há-de vir.

Lido na paisagem…

Gosto de me perder na cidade, nas ruelas, nos mercados… Virar à direita ou à esquerda quando sabemos que em frente seria o caminho certo. Ir a pé ou de tuk tuk em vez de pegar no carro…

Foi isso que fiz no outro dia… E de repente, algures em Phnom Penh, na parede duma ruela daquelas bem estreitas, lia-se assim em grandes letras pretas:

Open your eyes and dream.

Abre os olhos e sonha, em Português. Esteve quase para ser uma daquelas quase-fotografias. Aquelas que ficamos a pensar que devíamos ter tirado uma fotografia, mas não tiramos e depois ficamos a remoer sobre o assunto. Mas não. Parei o carro ali mesmo no meio da rua, sai e tirei a foto. Porque numa altura de grandes interrogações e ainda maiores transições, quando a vida nos manda recados, é melhor que os tomemos a sério.

O Soldado João

Quando a Carolina nasceu, a avó ofereceu-lhe “a Fada Palavrinha e o Gigante das Bibliotecas” da Luísa Ducla Soares. Perdi a conta à quantidade de vezes que contámos essa história, que foi a sua preferida durante muito, muito tempo (mas vai para mais de uma centena, concerteza!). Foram tantas, tantas que a sabíamos de cor (e nada de tentar abreviar caminho, por que ela dava por falta da pausa da vírgula, quanto mais das palavras!). Gostávamos tanto, tanto desta história, que a oferecemos a quase todos os nossos amiguinhos que nasceram nos últimos anos.

Hoje a nossa menina está mais crescida. Continua a adorar livros e não passa sem uma história ao deitar. Histórias de fadas e coelhos, galinhas e princesas, lobos e cabritinhos, sapos e porquinhos. Em Português, em Inglês ou em Francês. E às vezes todas as línguas ao mesmo tempo. Mas agora a princesa também gosta de ser ela a ler as histórias de encantar. Começou por ler pequenas histórias em Francês, que depois passaram a médias histórias (como ela diria no seu Português-afrancesado). Passou depois para o Inglês. Percurso normal, de menina da Escola Francesa que tem um ensino bilingue.

Até que certo dia começou a escrever coisas esquisitas no quadro lá em casa. Primeiro em segredo. Depois, à medida que foi ganhando confiança, começou a vir chamar-nos. “Lê o que escrevi”, dizia com orgulho. As palavras esquisitas que ali víamos, era a forma dela escrever na nossa língua, com as regras que conhecia. Escrevia em Português, mas fazia o som das letras em Francês. Brilhante, pensávamos nós. Ainda não foi desta, pensava ela, tristonha. Dizíamos-lhe que não, que era fantástico que tivesse chegado até ali sozinha, sem nunca ter aulas de Português. Fomos-lhe explicado aquilo que nos pedia, o som das letras em Português, algumas regras. Devagarinho, dando-lhe espaço para ser ela a fazer as suas descobertas, como era a sua vontade. Nas férias de Natal, fomos a casa. Quis levar consigo os livros franceses e ingleses, mas nem lhes tocou, só queria histórias em Português. E tentava e ensaiava… E lia e relia. E escrevia bilhetes e postais para a família e os amigos. Tudo em Português. E melhorava.

No regresso das férias, quis ler a história d'”O Soldado João” também da Luísa Ducla Soares. Primeiro pediu-nos que a lêssemos. Depois foi a vez dela. Uma história linda, é certo, mas cheia de páginas e páginas de letras e palavras e frases, mais ou menos complicadas. Todos os dias lia uma página, às vezes duas. Umas vezes rápido, outras não tanto. Umas vezes com ajuda para encontrar os sons, outras nem por isso. Mas leu, todinha. Terminou ontem. O seu primeiro grande livro. Que passo gigante, pensava eu.

Que história bonita esta de um soldado-menino que vai à guerra distribuir flores e cafézinho quente para o pequeno-almoço. Tal como o soldado João, ela mostrou-nos que vale a pena desafiar as normas e lutar por aquilo em que se acredita. Mesmo que sejamos uma pequena minoria a dançar no meio de uma multidão de gente zangada. Por isso, mais do que me preocupar porque é tarde e ela está a brincar em vez de fazer as fichas aborrecidas do TPC que ninguém corrige ou porque a professora comenta que ela ainda “écrit très lentement et donne des petites erreurs dans l’écriture”, vou parar para pensar: “Não. Ela tem apenas 7 anos e devora livros. Em Francês, em Inglês e em Português. Et cella suffi!”

Etapas da vida.

 

Há um ano atrás estávamos a sair do Laos, depois de um projecto que não correu tão bem como o esperado. Fizemos bons amigos, deixámos para trás uma casa cheia de árvores de fruto e voltámos para Portugal sem saber o que o Futuro nos iria trazer.

Apenas uma coisa tinhamos como certa: Em Setembro começa o ano escolar e a nossa filha merece começar o ensino primário em paz e ficar ai até ao final do ano. E tudo fizemos para respeitar esse compromisso. Mantivemos o processo em stand by na escola de Vientiane, fizemos uma pré-inscrição na escola de Phnom Penh e outra em Évora. Porque era para um destes três sítios que o futuro parecia querer ir. Mas o futuro demorou a fazer-se anunciar e os dias passavam devagar demais para quem precisava de respostas. E de acção.

Como explicar que não se sabia o que se ia fazer e onde se ia viver? Como explicar que não sabiamos se ia começar a escola primária, se continuasse na escola francesa ou iria continuar no pré-escolar se ficasse em Portugal? De um dia para o outro, a porta do Laos fecha e abre-se a porta de regresso ao Cambodja. Mas um Cambodja diferente, o da capital.

E ai vamos nós. Em 15 dias, há que fazer as despedidas, fazer malas, matrículas em escolas, arranjar casa, comprar viagens e ala que se faz tarde. Nós em Portugal, o Pai no Laos. Aterramos na véspera da escola começar. O pai aterra um dia antes. O tempo suficiente para arranjar uma casa provisória e um berço para o Gabriel.

Desta vez não houve tempo para ir conhecer a escola e o professor. Desta vez a Carolina não é a estrela da turma que aterra na escola a meio do ano e é o centro das atenções. Apercebemo-nos que, pela primeira vez em muito tempo, Carolina vai entrar numa escola nova, no início do ano lectivo. E, se correr bem, vai ficar até ao final do mesmo. Entra sem tempo para introduções ou apresentações, cheia de jet lag, parecendo que se tinha esquecido novamente do Francês, numa escola gigante e em obras, com ar pouco amigo das crianças e onde quase todas as crianças já tinham os seus próprios grupos.

Foram muitas as dúvidas e o receio de estarmos mais uma vez a forçar a barra. 3 países, 5 escolas e várias atribulações em 4 anos e uma menina que só queria voar com as borboletas, sentada numa sala de aula “sem tempo para brincar”. Queriamos que ela continuasse mais um ano no pré-escolar, afinal, ela só faria 6 anos em Dezembro, e depois de tantas mudanças, porque não dar tempo para se habituar e entrar em força no próximo ano. Mas a resposta foi clara: Carolina tinha avaliações excelentes, o pré-escolar está cheio. Não há motivo para abrir excepções.

Foi um ano duro, de recomeços, avanços e recuos. A dar pulos de alegria e orgulho por cada sucesso e a ficar de coração apertadinho por cada atropelo. Tantas e tantas vezes que nos questionámos. E igualmente muitas vezes que ela pediu para mudar. Mas não havia alternativa. A solução era aprender a lidar com a escola da forma mais saudável possível.

E conseguimos. Ela conseguiu. Mais uma vez, a filha mais espectacular do mundo provou que é mais forte que tudo. Que é capaz de lidar com este mundo de crescidos cheio de regras, letras e números. Tornou-se mais dura, é verdade. Os unicórnios iam e demoravam a voltar. Mas voltavam. E, por muito que lhe dissessem o contrário, ela continuou sempre a acreditar em fadas e no poder da magia. E essa força, quero acreditar que vai ficar para a vida. É por isso, que esta pequena avaliação me enche de orgulho. Porque é fruto do trabalho e da força desta miúda sonhadora. Porque sei que esta é a maneira francesa de dizer: “Parabéns! Foste fantástica!” Porque ela merece. E nós também.

Carolina avaliação final

Agora, venham as férias que são bem merecidas!

Desenho II

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E ao segundo dia do curso de Desenho, eis que já se faz desenhos uni e bi-dimensionais. Sem dúvida mais divertido que desenhar mangas e bananas.
Apesar da professora achar que eu sou uma canhota estranha por estar tão mais à vontade com as linhas e não tanto com os rabiscos… eheh! Eu bem que sempre tive uma queda pela régua e esquadro. Gostei muito.
Enfim… Agora, é praticar!

De volta à escola.

Drawing Day 1Sempre tive amigos que pegavam num lápis, faziam uns riscos e pumbas, sai uma obra de arte. Já eu, pego num lápis, faço uns rabiscos e pumbas, sai um desenho ao nível de uma criança de três anos.

E sempre tive pena que assim fosse. Gostava que as minhas mãos obedecessem um pouco mais ao que o meu cérebro imagina e os meus olhos veem.

Desde que me lembro que sempre gostei de fazer “coisas”. De pegar em materiais e objectos e transformá-los, reciclá-los, dar-lhes uma nova forma. Adoro imaginar novas formas e funcionalidades. Brincar ao faz de conta e dar vida ao lixo. E faço tudo isso a toda a hora. Ainda ontem à tarde me divertia com a Carolina a fazer um fato de dragão com restos de caixas de cartão e tecidos. Mas falta-me o desenho, a coordenação do triângulo olho-cérebro-mão.

Foi por isso que ontem comecei um curso de desenho para totós ou iniciados, como se lhe queira chamar. A professora, que tem uma história de vida fantástica como tantas vezes acontece com as pessoas com quem nos cruzamos por esta parte do mundo, diz que é só do que precisamos. De treinar, treinar, treinar e treinar um pouco mais esta triangulação. Ter esta capacidade de olhar o mundo, mandar a imagem para o cérebro e pumbas, o resultado sai na ponta dos dedos. E que todos somos uns Matisse, uns Dega ou Picasso em potência! … Pois, talvez não, mas para já, está a ser divertido.

Foi assim que ontem passei duas horas a desenhar mãos, canecas, garrafas, frutas, computadores, pessoas, óculos… A imagem da foto é o resultado final do dia 1, depois de muito esboço, de muito rabisco, de muito stress (sim, uma pessoa fica nervosa perante tanta pressão!) e também de muitos risos. E eu que sempre odiei desenhar pessoas e naturezas mortas! Para semana há mais. Agora, vou comprar um caderno de rascunhos e treinar, treinar, treinar. eheheh!

E tudo começa aqui…

Este é um blog sobre coisas, coisas minhas, coisas que vejo, coisas que sinto. É um blog sobre mim, sobre a forma como vejo e sinto o mundo.

Muitas vezes sinto que não consigo dizer, em palavras, aquilo que me vai cá dentro e por isso, passo muito tempo, a imaginar aquilo que diria ou deveria ter dito, aquilo que escreveria se, em vez de estar ao volante do carro, a brincar com os pequenos ou a tomar duche, estivesse de facto a dizer ou a passar para o papel tudo o que a minha cabecinha fazedora de ideias consegue produzir. Conforme a inspiração e o momento, nestas alturas podem surgir histórias infantis, ideias de fantásticos projectos profissionais, metas pessoais, sonhos (muitos), memórias de menina e recordações do que ficou entre o ir e o voltar.

Já tinha há que tempos esta ideia na minha mente. O problema até aqui é que tenho dois problemas. Primeiro, uma memória de passarinho, um segundo de distracção e puff, lá vai tudo pelo ar. E, por isso, há muito, muito tempo que tinha esta ideia de começar a escrever, a registar o que vejo, o que ouço, o que sinto e o que desejo. O segundo problema, é que sou uma procrastinadora nata, e cada vez melhor na dita cuja, ao ponto de se estar a tornar intolerável (pelo menos para mim). Daí a andar a adiar, a adiar, a adiar… E tanta coisa que ficou pelo caminho. Até que hoje li uma daqueles artigos com ar de resolução de ano novo e pensei: é hoje! De hoje não passa! Não demorou dois minutos a começar (como dizia o tal artigo), mas a primeira pedra está lançada. Agora é assumir o compromisso de sentar, escrever e publicar, nem que seja uma linha, uma foto ou uma música.

Se por acaso, tropeçarem nestas linhas, sejam bem-vindos à minha história. Se gostarem, fiquem por cá e digam olá.

A menina do monte.