Os manos

Gabrieeeeeeeell!!!, grita ela mal entra na escola.

Nanaaaaaaaaaaa!!!, grita ele mal dá sinal dela.

De braços bem abertos lançam-se numa corrida desengonçada pelo pátio da escola. O desfecho é sempre o mesmo, um abraço mega gigante em que os dois dançam e giram, felizes por se reencontrarem. Um abraço daqueles parte-pescoços em que o Gabriel rodopia no ar levantado pela irmã e, invariavelmente, termina num AI!

Naquele momento do final do dia só têm olhos um para o outro. Como se o mundo à sua volta desaparecesse. Como se não se vissem há uma semana. Ou mês. O que em tempo de criança deve ser coisa para equivaler a um ano, no mínimo.

Let’s play?, diz ele.

Vamos, diz ela.

E lá vão eles. Sempre em passo de corrida e sempre de volume no máximo, que estes não são manos de falar baixinho. Ele vai fazendo as honras da casa, saltitando pelo espaço, pelos brinquedos e pelos amigos. Como se tivesse esperado por aquele momento o dia todo. Ela segue-o, pula e brinca, como se de repente voltasse também a ter três anos.

As senhoras da escola dizem que gostam muito de ver aqueles manos doidos. E riem, riem. E respondem com ar espantado, quando a mana doida vira mana galinha e quer saber tudinho sobre o dia do mano…

Então, diz-me lá, ele hoje comeu bem? Ah, boa. Ainda bem que era massa, ele não gosta nada de batatas. E a sesta? Ufa… Ainda bem. Senão ia estar um chatinho a fazer birra lá em casa.

Dizem elas, as senhoras da escola, que já estranham quando a mana não vai buscar o mano. Sentem falta daquela alegria toda. E também da confusão (Já disse que eles saltam e correm e falam muito alto?). Muito bonito o amor de manos, dizem.

Eu sorrio, recosto-me e fico a aproveitar o melhor cinema do mundo. Enquanto dura, que isto não é nenhuma longa-metragem. Porque há-de haver sempre um que se magoa. Um que grita. Um que se chateia. Um que faz queixinhas. Um que grita mãeeeeeeeee. Porque vai acontecer e a paz não dura para sempre.

Mas, enquanto dura, posso ir fazendo de conta que eles são sempre assim. E achar que devemos estar a fazer alguma coisa bem. E repetir vezes e vezes sem conta, que o melhor de ter filhos é ter os manos.

Entretanto, vou tentando pôr ordem nas tropas. Sem muita convicção e ainda menos sucesso. É ela, a mana, que de sapatos na mão, dá por fim à brincadeira. Gabriel, vamos buscar o pai? Vá, shoes on! E lá vão eles a correr para o portão da escola. De modo desengonçado, mochila às costas, carrinhos na mão e volume (sempre) no máximo.

Caracolinhos volta à Escola

Caracolinhos volta à escola. 

Diz que vai para o terceiro ano. 

Caracolinhos volta à escola. 

Diz que vai para a terceira escola em três anos. 

Caracolinhos volta à escola. 

Diz que lá entrou pela primeira vez vai para seis anos.

Caracolinhos volta à escola.

Diz que vai ser feliz por lá durante muitos mais anos.

O mocho

Carolina, porque é que andas com uma saia na mochila? Pergunto eu.

Porque sim. Quer dizer, eu sei que queres saber, mas não vou dizer, responde ela. E lá continuou a saia toda enrolada no meio dos livros da biblioteca e do saco da natação.

Uns dias depois chega o recado da escola. Visita à Krousar Thmey, uma das poucas associações que trabalha com crianças portadoras de deficiência, neste caso, visual e auditiva. É favor chegar cedo. E temos que levar um lanche para partilhar!, diz ela.

E a saia já pode ficar em casa! (Ai sim?) Lembras-te quando fui com a minha escola a Kampot? Fomos ver um espectáculo de umas crianças que não tinham umas mãos e uns braços e assim… E não ouviam, nem viam… Então, na minha sala estivemos a fazer como se fossemos elas. Tínhamos que esconder um braço atrás das costas e vestir a roupa e comer…

Uns dias antes desta viagem a Kampot, íamos no carro e na rádio ouvia-se uma entrevista a uma senhora fantástica que, tendo nascido sem mãos, tinha desistido de usar próteses e aprendido usar os pés para pintar e para tocar piano, por exemplo. Mais tarde, tornou-se a primeira pilota de avião sem mãos da história. Na altura ficou muito impressionada. Confusa. Como é que tal era possível? Como é que se segura o pincel nos dedos dos pés? Como é que se consegue mexer assim os dedos? Perguntas, perguntas e mais perguntas. Falámos muito sobre isso, vimos vídeos no youtube. E quando finalmente fez a visita à Epic Arts, tudo lhe fez mais sentido.

Finalmente chegou o dia de visitar a Krousat Thmey. Apesar de ter entrado na escola bem mais cedo que o habitual, quando a fui buscar não tinha pressa de sair. Queria conversar. Contar tudo. Sentámos-nos junto ao campo de futebol e ficámos ai a falar sobre tudo o que tinha aprendido com os meninos que não ouvem nem vêem. Começam a escola cedo, diz ela, às 6 da manhã e almoçam às 11! E têm aulas como nós.

Os meninos que não vêem, escrevem as palavras num papel com a ajuda de uma máquina que faz bolinhas da direita para a esquerda. E depois viram ao contrário e lêem da esquerda para a direita. Como nós. Só têm problema com a matemática, porque é mais difícil escrever os números, conta ela.

Mas o que mais gostou mesmo foi de estar com os meninos que não ouvem (mas vêem!) e aprender língua gestual. Eles até me ensinaram a dizer “Eu chamo-me Ana”! Foram eles que escolheram Ana porque Carolina era mais difícil… Isso e os nomes dos animais, que é logo meio caminho andado para lhe prender a atenção. Pergunta-me lá um! Lembrava-se de todos, dos mais simples como o coelho aos mais complicados como o mocho que ela faz na foto tão bem e que eu não consegui fazer…

No Cambodja, não há essa coisa da inclusão, muito menos em escolas internacionais como aquela que ela frequenta. As disparidades no ensino são mais que muitas. E os meninos e meninas destas escolas, vivem por vezes em bolhas exclusivas, distintas, que dificilmente se aproximam uma da outra. Por isso, iniciativas como estas, parecendo tão pouco, quando devidamente trabalhadas são tão importantes. E foi isso que fizeram. Aos pouquinhos foram falando sobre o assunto, experimentado, aproximando. Dizem eles, os Srs. da escola, que a competência Ser Cidadão é tão importante como o Domínio da Língua e a Matemática. Ainda bem. E que assim seja, sempre.

Ot soksabay!

Normalmente, a coisa funciona assim: a Caracolinhos sai de casa com o pai e o Pirata sai de casa com a mãe. Tranquilo. Até cada uma das escolas são 10 ou 15 minutos e depois até ao trabalho é um tirinho.

Esta semana o pai está fora. Logo, toda a rotina muda. E nem estamos a falar da parte do “Carolina acorda, Carolina mexe-te, Carolina come, Carolina a mochila, Carolina os sapatos!”. Não, tudo isso corre normalmente bem quando apenas um dos progenitores está presente. E hoje não foi excepção. Até batidos fizemos! O que muda é que cabe-me a mim, fazer as duas corridas da escola que ficam em lados opostos da cidade. Tudo bem. Até podia mandar um deles com a ama no tuk tuk, mas achei que não, a mãe aguenta! A mãe até gosta. E assim, brincamos todos um bocadinho… Claro… Era para ser assim.

Mas no Cambodja, as coisas nem sempre correm como imaginamos, são o que parecem ser e o que foi ontem, hoje já não é! E como vivemos fora da bolha, por não falarmos a língua, não lermos jornais ou vermos televisão, de repente arriscamos-nos a ter desagradáveis surpresas. Tipo hoje.

Saímos de casa na hora certa. 7h40! Impossível falhar. Humor em alta, música no carro, lá vamos nós. Cinco minutos depois estávamos a passar o Central Market e… hum, estranho, o trânsito está parado, vamos tentar a outra rua… Parado, ok, sem problema, algum carro que se meteu no cruzamento e agora ninguém passa… o costume, pensei eu… Passados 10 minutos, estávamos exactamente no mesmo sítio. E mais 10… E mais 10… Já deu para perceber, certo?

Aparentemente, estavam a fechar ruas, a colocar barreiras em todo o lado e a desviar trânsito das vias principais para outras mais interiores. Em hora de ponta. Com meio policia em cada cruzamento. Lá atrás o discurso passou do “não tem problema, vamos jogar às adivinhas” para “já estou a ficar aborrecida! Vou ter que ir buscar justificação!” Resultado?… 1 hora só para chegar à escola da Carolina! 1 Hora!!! Tipo, 45 minutos a mais do que o suposto.

Primeira etapa superada… vamos à etapa seguinte: o trânsito continua parado e ainda tenho um filho aborrecido e cheio de fome no carro. E a escola dele fica no outro lado da cidade, lembram-se? É isso. E os carros não andam. Nem as motos. Não há tuk tuks! (Estranho…) Há autocarros por todo o lado, que normalmente não estariam ali porque as rotas são outras. E nem um lugar para estacionar e continuar a pé…

Lá desesperamos mais meia-hora dentro do carro, até que finalmente aparece um sítio para estacionar. Tiro o carrinho de bebé e lá vamos nós! Finalmente, a andar! A pé, mas a andar! 20 minutos de caminhada depois, passamos os carros parados e… Tuk Tuk!!! Criança, carrinho, malas lá para dentro e lá seguimos para a escola! 2 horas depois de sairmos de casa, lá estávamos nós…

O que aconteceu não sei, há quem fale de uma manifestação marcada para ali, há quem diga que o Primeiro-Ministro vai inaugurar uma escola ali perto… não sei, mas que foi um péssimo começo de dia, lá isso foi. Ot sokabay! Ot soksabay!

Nota: à hora de almoço, o inferno continua… Aparentemente, Sua Excelência o Primeiro-Ministro está a fazer uma “Tea Party” no Hotel Le Royal… Coisas de imperadores, claramente.

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Só mais uma nota: Só depois de tirar esta última foto, olhei para a senhora. Ela olhou para mim e ao cumprimentá-la é que me apercebi do conjunto. Normalmente, pijama, toalha e gorro na cabeça são sinónimos de “acabei de sair da maternidade”. Vi o resto dos sacos: roupas, mantas e fraldas. Pois, ali dentro daquele embrulho branco que a senhora segura ao colo e tenta proteger do calor abrasador, vai um bebé. Nunca hei-de parar de admirar com a capacidade destas mulheres se por à estrada, numa mota ou num tuk tuk, poucas horas depois de parir. Valentes.

 

 

Aos professores…

Hoje é um dia especial. É um dia de despedidas e recomeços.

Tenho um fraquinho especial por professores. Sempre tive. O meu pai era professor. Sempre vivi rodeada de professores de todas as espécies e feitios e passei muitas horas nos bastidores das escolas. Nas salas de ensaio, nas arrecadações, nas casas deles…

Aprendi muito cedo que a escola e os professores não servem só para dar umas aulas e ensinar umas coisas. São também um espaço onde se aprende a viver! Espanto, eu sei! E ser crescidos! Lá dentro varri ginásios, pintei paredes, carreguei pesos, fiz rádio e teatro, organizei festas, manifestei-me, desenrasquei-me, levei nas orelhas…

Por trás disto tudo havia sempre alguém, um adulto que puxava por nós, que nos desafiava. Um professor. Uma professora. Foram muitos. Uns muito bons, outros nem por isso. Mas todos eles deixaram a sua marca naquilo que sou hoje.

Por isso, aprendi a respeitá-los. E tenho tentado transmitir esse respeito à Carolina e ao Gabriel. Valorizá-los e ser-lhes gratos por tudo o que fazem. Quer sejam excelentes, quer falhem de vez em quando. Porque são eles que estão em primeiro lugar na escola.

O Gabriel começou a ir à escolinha, aqui no Cambodja, quando tinha perto de um ano. Foi lá que soprou a velinha do seu primeiro aniversário. Ele, as suas duas amiguinhas, a professora e a assistente. Era assim pequenino, pequenino este espaço. Estavam ainda começar e ele teve direito a este luxo de ter três meninos para dois adultos.

Lá ganhou o gosto pela pintura, pela cozinha e pelos comboios. E no colo da professora, viajava nos livros e aprendia a crescer num novo mundo em Francês. E a escola cresceu com ele. E hoje outros dez meninos e meninas partilham o espaço com ele.

Mas hoje é um dia especial. É um dia de despedida. Mas também de celebração. A sua professora de sempre vai regressar ao seu país. Outra virá. E outra e outra. Serão muitas ao longo da vida. Serão melhores, serão piores. Serão seguramente diferentes. Mas está será para sempre a primeira.

E, por isso, hoje de manhã fizemos um miminho para lhe agradecer estes quase dois anos de dedicação. E lá foi ele orgulhoso de postal na mão, para dar à sua Lèna. No final juntámos-nos todos. Pais e meninos. Houve bolo de chocolate, feito por eles, batatas fritas com picante e muitas selfies porque estamos na Ásia. Houve também um grande beijinho e um abraço apertado.

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O Soldado João

Quando a Carolina nasceu, a avó ofereceu-lhe “a Fada Palavrinha e o Gigante das Bibliotecas” da Luísa Ducla Soares. Perdi a conta à quantidade de vezes que contámos essa história, que foi a sua preferida durante muito, muito tempo (mas vai para mais de uma centena, concerteza!). Foram tantas, tantas que a sabíamos de cor (e nada de tentar abreviar caminho, por que ela dava por falta da pausa da vírgula, quanto mais das palavras!). Gostávamos tanto, tanto desta história, que a oferecemos a quase todos os nossos amiguinhos que nasceram nos últimos anos.

Hoje a nossa menina está mais crescida. Continua a adorar livros e não passa sem uma história ao deitar. Histórias de fadas e coelhos, galinhas e princesas, lobos e cabritinhos, sapos e porquinhos. Em Português, em Inglês ou em Francês. E às vezes todas as línguas ao mesmo tempo. Mas agora a princesa também gosta de ser ela a ler as histórias de encantar. Começou por ler pequenas histórias em Francês, que depois passaram a médias histórias (como ela diria no seu Português-afrancesado). Passou depois para o Inglês. Percurso normal, de menina da Escola Francesa que tem um ensino bilingue.

Até que certo dia começou a escrever coisas esquisitas no quadro lá em casa. Primeiro em segredo. Depois, à medida que foi ganhando confiança, começou a vir chamar-nos. “Lê o que escrevi”, dizia com orgulho. As palavras esquisitas que ali víamos, era a forma dela escrever na nossa língua, com as regras que conhecia. Escrevia em Português, mas fazia o som das letras em Francês. Brilhante, pensávamos nós. Ainda não foi desta, pensava ela, tristonha. Dizíamos-lhe que não, que era fantástico que tivesse chegado até ali sozinha, sem nunca ter aulas de Português. Fomos-lhe explicado aquilo que nos pedia, o som das letras em Português, algumas regras. Devagarinho, dando-lhe espaço para ser ela a fazer as suas descobertas, como era a sua vontade. Nas férias de Natal, fomos a casa. Quis levar consigo os livros franceses e ingleses, mas nem lhes tocou, só queria histórias em Português. E tentava e ensaiava… E lia e relia. E escrevia bilhetes e postais para a família e os amigos. Tudo em Português. E melhorava.

No regresso das férias, quis ler a história d'”O Soldado João” também da Luísa Ducla Soares. Primeiro pediu-nos que a lêssemos. Depois foi a vez dela. Uma história linda, é certo, mas cheia de páginas e páginas de letras e palavras e frases, mais ou menos complicadas. Todos os dias lia uma página, às vezes duas. Umas vezes rápido, outras não tanto. Umas vezes com ajuda para encontrar os sons, outras nem por isso. Mas leu, todinha. Terminou ontem. O seu primeiro grande livro. Que passo gigante, pensava eu.

Que história bonita esta de um soldado-menino que vai à guerra distribuir flores e cafézinho quente para o pequeno-almoço. Tal como o soldado João, ela mostrou-nos que vale a pena desafiar as normas e lutar por aquilo em que se acredita. Mesmo que sejamos uma pequena minoria a dançar no meio de uma multidão de gente zangada. Por isso, mais do que me preocupar porque é tarde e ela está a brincar em vez de fazer as fichas aborrecidas do TPC que ninguém corrige ou porque a professora comenta que ela ainda “écrit très lentement et donne des petites erreurs dans l’écriture”, vou parar para pensar: “Não. Ela tem apenas 7 anos e devora livros. Em Francês, em Inglês e em Português. Et cella suffi!”

Etapas da vida.

 

Há um ano atrás estávamos a sair do Laos, depois de um projecto que não correu tão bem como o esperado. Fizemos bons amigos, deixámos para trás uma casa cheia de árvores de fruto e voltámos para Portugal sem saber o que o Futuro nos iria trazer.

Apenas uma coisa tinhamos como certa: Em Setembro começa o ano escolar e a nossa filha merece começar o ensino primário em paz e ficar ai até ao final do ano. E tudo fizemos para respeitar esse compromisso. Mantivemos o processo em stand by na escola de Vientiane, fizemos uma pré-inscrição na escola de Phnom Penh e outra em Évora. Porque era para um destes três sítios que o futuro parecia querer ir. Mas o futuro demorou a fazer-se anunciar e os dias passavam devagar demais para quem precisava de respostas. E de acção.

Como explicar que não se sabia o que se ia fazer e onde se ia viver? Como explicar que não sabiamos se ia começar a escola primária, se continuasse na escola francesa ou iria continuar no pré-escolar se ficasse em Portugal? De um dia para o outro, a porta do Laos fecha e abre-se a porta de regresso ao Cambodja. Mas um Cambodja diferente, o da capital.

E ai vamos nós. Em 15 dias, há que fazer as despedidas, fazer malas, matrículas em escolas, arranjar casa, comprar viagens e ala que se faz tarde. Nós em Portugal, o Pai no Laos. Aterramos na véspera da escola começar. O pai aterra um dia antes. O tempo suficiente para arranjar uma casa provisória e um berço para o Gabriel.

Desta vez não houve tempo para ir conhecer a escola e o professor. Desta vez a Carolina não é a estrela da turma que aterra na escola a meio do ano e é o centro das atenções. Apercebemo-nos que, pela primeira vez em muito tempo, Carolina vai entrar numa escola nova, no início do ano lectivo. E, se correr bem, vai ficar até ao final do mesmo. Entra sem tempo para introduções ou apresentações, cheia de jet lag, parecendo que se tinha esquecido novamente do Francês, numa escola gigante e em obras, com ar pouco amigo das crianças e onde quase todas as crianças já tinham os seus próprios grupos.

Foram muitas as dúvidas e o receio de estarmos mais uma vez a forçar a barra. 3 países, 5 escolas e várias atribulações em 4 anos e uma menina que só queria voar com as borboletas, sentada numa sala de aula “sem tempo para brincar”. Queriamos que ela continuasse mais um ano no pré-escolar, afinal, ela só faria 6 anos em Dezembro, e depois de tantas mudanças, porque não dar tempo para se habituar e entrar em força no próximo ano. Mas a resposta foi clara: Carolina tinha avaliações excelentes, o pré-escolar está cheio. Não há motivo para abrir excepções.

Foi um ano duro, de recomeços, avanços e recuos. A dar pulos de alegria e orgulho por cada sucesso e a ficar de coração apertadinho por cada atropelo. Tantas e tantas vezes que nos questionámos. E igualmente muitas vezes que ela pediu para mudar. Mas não havia alternativa. A solução era aprender a lidar com a escola da forma mais saudável possível.

E conseguimos. Ela conseguiu. Mais uma vez, a filha mais espectacular do mundo provou que é mais forte que tudo. Que é capaz de lidar com este mundo de crescidos cheio de regras, letras e números. Tornou-se mais dura, é verdade. Os unicórnios iam e demoravam a voltar. Mas voltavam. E, por muito que lhe dissessem o contrário, ela continuou sempre a acreditar em fadas e no poder da magia. E essa força, quero acreditar que vai ficar para a vida. É por isso, que esta pequena avaliação me enche de orgulho. Porque é fruto do trabalho e da força desta miúda sonhadora. Porque sei que esta é a maneira francesa de dizer: “Parabéns! Foste fantástica!” Porque ela merece. E nós também.

Carolina avaliação final

Agora, venham as férias que são bem merecidas!