Os Piratas também vão à escola

Os Piratas também vão à escola?! Claro que sim. E que contente ía este pirata a caminho da sua. 

Quem é que vai à escola? Perguntava eu… O bebé!” Exclamava.

Assim, que viu a escola, quis sair do colo ir para o chão. Um sorriso enchia-lhe a cara. Como que a dizer, é isto. É mesmo isto que eu quero. É mesmo isto que eu preciso. Amigos, brinquedos, desafios, adultos simpáticos, cores, cheiros… Tanto para descobrir, tantas aventuras à espera de acontecer…

Os meninos e as meninas ainda andavam por ali meio envergonhados. Uns mais à vontade, outros a trepar pelas pernas dos pais. Ele foi-se afastando. Olhava à volta. Explorava o espaço. Experimentou o sobe e desce e o escorrega, mas parou pouco por lá. Foi para a caixa de areia. Tirou os sapatos, pegou nos brinquedos e foi à vida dele. A ele juntou-se mais um amigo, e mais outro e outro…

O plano (da escola, claro) era hoje ser só um dia de visita. “Com a mãe, para se ir habituando”… Não querendo contrariar, mas conhecendo o Pirata, avisei que ele poderia querer ficar. Passado um pouco, ao ver o feliz que estava, perguntei-lhe: Queres ficar a brincar? A mãe volta mais tarde para te vir buscar? Sim!, respondeu ele, seguríssimo de que não havia outro sítio onde preferisse estar. E com razão. Finalmente tem uma escola. Uma escola a sério. Como teve a sua mana, nos tempos em que ainda vivíamos lá para os lados do monte. 

Pedi-lhe um beijo. Deu dois, rechonchudos, e um abraço gigante. Despedi-me da educadora, mandei-lhe um até já e sai de coração cheio… Haverá melhor forma de começar a semana?!


Nota de rodapé… Como combinado com a escola, voltei lá antes do almoço para o ir buscar. Fui recebida com um enorme abraço de mãeeeee! Perguntei-lhe se já estava na hora de ir embora, se queria vir almoçar comigo. Como esperado, recebi um redondo Nãoao! I play. Então vou-me embora, acrescentei… Leva a mão à boca, lança um beijo e diz: Bye Bye mãe. 

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A filha missão

Carolina queres ir passear?… Não posso, estou num missão.

Carolina podes vir ajudar-me?… Agora não posso, estou numa missão.

Carolina que andas a fazer?… Estou numa missão.

Sempre foi assim. Desde menina pequenina. Estávamos ainda no Monte e lá ia ela… Em missão vou só ali tratar das galinhas. Ou em missão vou ali plantar uns sobreiros com a avó Mena. Ou em missão estou só aqui a fazer uns laçarotes para a nOa que ela gosta mesmo muito. Ou em missão um bocadinho de giz de cor neste chão de ardósia é que era bom. Ou em missão vou aprender ballet porque os unicórnios convidaram-me para participar no espectáculo de dança que eles estão a organizar. Ou em missão tenho tantas ideias na minha cabeça e estão sempre a incomodar-me para ir fazer outras coisas!

Era assim que se passava e ainda assim é. Sempre em missão e sempre a queixar-se da falta de tempo. E de missão em missão lá vai ela aprendendo, experimentando e crescendo. E uma missão leva a outra e a outra e a outra. Assim como se fosse um daqueles jogos que jogávamos no Juventude, onde tínhamos que ir de nível em nível enfrentando obstáculos e acumulando vitórias até chegar ao boss final para então passar para a ilha seguinte. Ou pelo menos foi mais ou menos isto que imaginei quando esta semana ela anunciou que estava muito ocupada para sair porque estava a escrever um livro.

Senão vejamos… Para que a missão estou aqui ocupada a escrever um livro se concretize há que primeiro passar pela missão só mais uma história, vá lá, vá lá, vá lá! Essa e outras importantíssimas onde nos perdemos dentro das histórias, das músicas, dos espectáculos e se aprende a saborear os livros e as letras.

Concluída esta ilha, passámos à missão seguinte: do aprender a ler e a escrever o som das letras. Missão complicada esta! É que além de ainda não estar muito para ai virada quando começou, teve que aprender em Francês, com letras que às vezes estão lá, mas não se ouvem e outras letras que umas vez soam assim e outras assado. Não satisfeita, decidiu embarcar na missão os meninos devem aprender na sua língua… e ensinar-se a si mesma a aprender a ler a escrever em Português. Pronto. Já lá vão pelo menos mais duas ilhas! E o big boss final foi escrever o seu primeiro livro. E em Português ainda por cima! (Leia-se aqui: a mãe está a rebentar de orgulho!)

Ora, para se escrever diz que é preciso um tema. Normalmente, um tema de que se gosta. Que nos dê prazer falar, sonhar, ler, partilhar… Certo? Certo. Ora, estamos a falar da Carolina. E se há uma missão onde ela é, claramente, a Big Boss é na missão eu adoro todos os animais do mundo e quando for grande quero ser tratadora de animais e viver no meio deles e dar-lhes muita comida e fazer muitas festinhas. Por isso, este livro que foi escrito primeiro em Português e depois em Francês só podia ser dedicado a eles.

Carolina e o seu livro 3

O bom deste jogo é que, ao contrário das máquinas de jogo do Juventude que chegavam ao fim ou davam a volta como dizíamos, este jogo não acaba nunca… há sempre um novo nível, uma nova ilha, uma nova missão a superar. E eu cá estarei para me deliciar com esta Filha Missão e com todas as suas novas aventuras. (inserir emoji sorridente e cheio de baba!)

Etapas da vida.

 

Há um ano atrás estávamos a sair do Laos, depois de um projecto que não correu tão bem como o esperado. Fizemos bons amigos, deixámos para trás uma casa cheia de árvores de fruto e voltámos para Portugal sem saber o que o Futuro nos iria trazer.

Apenas uma coisa tinhamos como certa: Em Setembro começa o ano escolar e a nossa filha merece começar o ensino primário em paz e ficar ai até ao final do ano. E tudo fizemos para respeitar esse compromisso. Mantivemos o processo em stand by na escola de Vientiane, fizemos uma pré-inscrição na escola de Phnom Penh e outra em Évora. Porque era para um destes três sítios que o futuro parecia querer ir. Mas o futuro demorou a fazer-se anunciar e os dias passavam devagar demais para quem precisava de respostas. E de acção.

Como explicar que não se sabia o que se ia fazer e onde se ia viver? Como explicar que não sabiamos se ia começar a escola primária, se continuasse na escola francesa ou iria continuar no pré-escolar se ficasse em Portugal? De um dia para o outro, a porta do Laos fecha e abre-se a porta de regresso ao Cambodja. Mas um Cambodja diferente, o da capital.

E ai vamos nós. Em 15 dias, há que fazer as despedidas, fazer malas, matrículas em escolas, arranjar casa, comprar viagens e ala que se faz tarde. Nós em Portugal, o Pai no Laos. Aterramos na véspera da escola começar. O pai aterra um dia antes. O tempo suficiente para arranjar uma casa provisória e um berço para o Gabriel.

Desta vez não houve tempo para ir conhecer a escola e o professor. Desta vez a Carolina não é a estrela da turma que aterra na escola a meio do ano e é o centro das atenções. Apercebemo-nos que, pela primeira vez em muito tempo, Carolina vai entrar numa escola nova, no início do ano lectivo. E, se correr bem, vai ficar até ao final do mesmo. Entra sem tempo para introduções ou apresentações, cheia de jet lag, parecendo que se tinha esquecido novamente do Francês, numa escola gigante e em obras, com ar pouco amigo das crianças e onde quase todas as crianças já tinham os seus próprios grupos.

Foram muitas as dúvidas e o receio de estarmos mais uma vez a forçar a barra. 3 países, 5 escolas e várias atribulações em 4 anos e uma menina que só queria voar com as borboletas, sentada numa sala de aula “sem tempo para brincar”. Queriamos que ela continuasse mais um ano no pré-escolar, afinal, ela só faria 6 anos em Dezembro, e depois de tantas mudanças, porque não dar tempo para se habituar e entrar em força no próximo ano. Mas a resposta foi clara: Carolina tinha avaliações excelentes, o pré-escolar está cheio. Não há motivo para abrir excepções.

Foi um ano duro, de recomeços, avanços e recuos. A dar pulos de alegria e orgulho por cada sucesso e a ficar de coração apertadinho por cada atropelo. Tantas e tantas vezes que nos questionámos. E igualmente muitas vezes que ela pediu para mudar. Mas não havia alternativa. A solução era aprender a lidar com a escola da forma mais saudável possível.

E conseguimos. Ela conseguiu. Mais uma vez, a filha mais espectacular do mundo provou que é mais forte que tudo. Que é capaz de lidar com este mundo de crescidos cheio de regras, letras e números. Tornou-se mais dura, é verdade. Os unicórnios iam e demoravam a voltar. Mas voltavam. E, por muito que lhe dissessem o contrário, ela continuou sempre a acreditar em fadas e no poder da magia. E essa força, quero acreditar que vai ficar para a vida. É por isso, que esta pequena avaliação me enche de orgulho. Porque é fruto do trabalho e da força desta miúda sonhadora. Porque sei que esta é a maneira francesa de dizer: “Parabéns! Foste fantástica!” Porque ela merece. E nós também.

Carolina avaliação final

Agora, venham as férias que são bem merecidas!