A Avó Mina

A avó Mina deixou-nos no dia 9 de Abril. Já passou mais de um mês e desde então que tenho este rascunho guardado à espera de uma qualquer inspiração para falar sobre a decana da família. A avó Mina era aquela que falava pouco, mas que, no pouco que dizia, trazia tudo o que tinha para dizer. E assim, numa frase, lembrei-me do quanto o Pirata adorava passar tempo com ela durante as nossas férias no monte. Talvez por serem tão parecidos nesta sua utilização económica, mas super eficiente das palavras e dos sorrisos…

Era assim ela, distante e soberana, como na foto. Gostava de estar ao longe. No seu canto. Com a sua vida, aquela que só ela sabia o que tinha custado a viver e que teimava em prolongar-se para lá do que dizia desejar. Longe, mas não desatenta. Dava conta de tudo e de tudo sabia. Mesmo sem ouvir. Ou mesmo fazendo que não ouvia. Falava o que tinha a falar, mesmo quando parecia que não sabia, que não ouvia e não dizia.

Era a avó da pescadinha frita, da sopa de legumes, do arroz doce e dos biscoitos de areia. Que deixava amassar e que depois guardava (e controlava) na mais alta prateleira da despensa. Porque era preciso poupar. E porque nós tínhamos que aprender a chegar às prateleiras mais altas, que a vida não é fácil para ninguém. E das galinhas e dos coelhos. Que passávamos os dias a alimentar. Couves, ração, feno… Até que se aborrecia e dizia: “Já chega. Vais gastar a comida toda”. E que depois vendia e, se preciso, matava com uma pancada seca. E não me deixava ver porque: “eles assim ficam tristes e não morrem”. Penso agora que quem ficava triste não eram eles. Mas isso, devo dizer, jamais me tinha ocorrido.

Era a avó dos mil e um esconderijos: Das jóias, do dinheiro da luz, dos ovos e dos coelhos. E como não havia mais que fazer, revirar a casa a tentar descobri-los era diversão suficiente.

Era a avó dos padrões garridos, das meias de quatro agulhas e das almofadas de tricô. E dos gatos. Gatos de lã. Castanhos, azuis, vermelhos, cinzentos, amarelos… Unicolores, multicolores, com padrão e sem padrão. Que fazia ao serão. E que guardava religiosamente em cima da televisão (aquelas do tempo em que as televisões ainda serviam para ver as novelas e para guardar os bibelots).

Faz cerca de um mês que ela nos deixou. Faz cerca de um mês que aconteceu aquilo que mais temia e previa. Porque quem anda nestas andanças de cá para lá e de lá para cá, sabe que um dia vai estar longe de mais para estar lá. E que estar do lado de cá vai parecer tão longe como nunca.

Lembro-me sempre do dia em que nos despedimos rumo à nossa primeira aventura, fez agora cinco anos. Ela, sábia como sempre, despediu-se de mim, com os olhos lacrimejantes, dizendo: “Adeus Ana. Quando voltares se calhar já cá não estou, mas aproveita muito. Está bem? Sê feliz.” Felizmente, ainda tivemos muitos reencontros depois disso, mas estava escrito que assim seria. E assim foi.

Tanto tempo passado e antecipado, não ajudou a que conseguisse deitar cá para fora o que sentia. O rascunho deste texto assim ficou com uma foto, apenas. Até hoje. Quando a miúda mais espectacular do mundo, do meio do nada, se sai com:

“Já sei uma coisa que temos mesmo que levar e que não podemos deixar atrás. Os gatos da avó Mina. É uma recordação dela. E são mesmo preciosos porque foi ela que os fez.”.

No seu silêncio de quem anda a viver a sua vidinha de pulga saltitante de 7 anos, anda também em contagem de crescente para a nova aventura. Fá-lo vivendo. E pensando. E falando. De forma intensa e determinada. Como o fez também, sempre à sua maneira, a sua (bis) avó Mina durante quase um século… Pronto. É isto.

 

 

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O pequeno fotógrafo

Pega em tudo o que tenha uma objectiva. A Nikon do pai, a Instax da mana, o telemóvel da mãe (a máquina da mãe está fora de serviço há algum tempo por… bem, o mais honesto será dizer: pura preguiça! Enfim, continuemos.). E é assim que de repente ganhamos 120 novas imagens no nosso cartão. Das quais 100 são assim, puros pretos.

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Tento explicar: “pões o dedo aqui, seguras assim, estás a ver? Olha, assim, vês, assim já não vês!”… Pormenores! pensa ele, enquanto olha para mim com ar de gozo. O que importa mesmo é divertir-se. Telemóvel na mão, clique aqui, clique ali e lá vai ele, de sorriso de orelha a orelha, casa fora a captar o que mais gosta. Brinquedos, muitos, um pai de esguelha, uma mãe desfocada e uma mana como aqui se apresenta…

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Bom quase fim-de-semana e bons cliques!

 

A borboleta

A borboleta
Sabia
A minha vida
Só dura um dia
Que vou fazer?

Escolheu um
Jardim
Extra-bonito
Conversou
Com todas
As outras
Borboletas
Passeou e
Partiu
Para o céu
Das borboletas

In Da girafa à pulga da areia

Esta menina é como tu, disse-lhe eu. Como eu? Sim, tu também falas com borboletas. EU?! Sim. Ou pelo menos falavas. Falavas com todas as borboletas que encontravas. E elas falavam contigo. E pousavam no teu cabelo, no teu nariz. Oh… (enterra a cabeça na almofada, envergonhada…) E o que é isso de partir para o céu? Então, sabes que as borboletas vivem uma vida curtinha e depois vão para o céu das borboletas. (ri, desconfiada) Sim, deve ser um local lindíssimo, já imaginaste um local onde estão todas as borboletas?!… Pois, mas não devem lá ficar muito tempo. Sabes que as borboletas nascem, vivem, morrem e nascem outra vez. Nascem, vivem, morrem e nascem outras vez. E vivem, morrem e nascem outra vez… (E assim continuou em loop budista)