Este não é um post bonito

Este não é um post bonito, porque a vida também não é sempre bonita. A vida pode ser bela e fantástica num minuto e bem feia no minuto seguinte. É assim mesmo. Todos o sabemos. E a vida em Maputo não é diferente.

Se por um lado é um privilégio viver numa cidade à beira-mar plantada, com uma luz que irradia, avenidas grandes com árvores, parques para passear os miúdos, capulanas garridas e cajus torrados, bairros de casas brancas, bom café e óptimos pasteis de nata, também há o outro reverso da medalha.

A vida tem tudo para ser fácil por aqui, mas há sempre aquele mas, aquela coisinha que te consome, que te tira do sério. E ultimamente os dias têm andado polvilhados dessas pequenas coisinhas. E tudo te irrita. Sobretudo quando passas o marco dos primeiros seis meses num país e acaba a lua-de-mel…

São as infiltrações, os buracos, a criminalidade, as praias cheias de cacos de vidro, os cocos que apodrecem na beira da estrada, as prateleiras vazias, o custo exorbitante de produtos básicos, as saudades do mimo asiático, a falta de um bom restaurante vietnamita…

Ontem foi a seca que me irritou. A seca extrema que se vive em Maputo, quando o resto do país está em alerta para o risco de cheias. Quando o país é atravessado por ciclones que destroem tudo o que apanham, Maputo não tem água. Vai para um mês. Não chove aqui e não chove no ponto de captação, na Suazilândia, pelo que a barragem que abastece a cidade está no limite. Como medida protectora, a água da rede é cortada por zonas para obrigar a poupar água. Por vezes um dia, por vezes dois, por vezes quatro…  Quem pode, compra água para encher depósitos gigantes. Quem não pode fica sem água nos furos, porque os grandes camiões-cisterna vão lá abastecer para vender aos que podem… Mas não se ensina a poupar a água. Não se explica que a água não é infinita. Que há alterações climáticas. Não há qualquer tipo de educação ambiental. E, por isso, desde que haja água na torneira, lava-se o carro, rega-se a relva, lava-se o passeio, metem-se os cortinados na máquina…

Tentamos fazer a nossa parte. Poupamos e tentamos ensinar as pessoas que nos rodeiam. Vamos verificando o nível da água no depósito. Após três dias sem água da rede ainda está a meio. Fantástico, pensamos. Entretanto, a água há-de vir, como se diz por aqui.

E depois chegamos a casa ao final do dia e nem pinga de água! Nem uma gota. Puf… Porque os senhores que vieram reparar as infiltrações e arranjar (ou destruir) as casa-de-banho gastaram meio depósito em meia-dúzia de horas. Onde, não sei. Dizem que estavam a testar. E para testar, não usaram os garrafões e os bidons de água reservada como lhes tínhamos dito, mas a torneira (claro!). E para testar, gastaram o mesmo que nós tínhamos gasto em três dias!!! É para ficar com raiva, certo?

Sem água para cozinhar e lavar loiça, fomos jantar fora. No regresso, usámos os tais garrafões para tomar um duche de caneca (10l dão para quatro, sabiam?) e para as aflições de casa-de-banho e água potável para lavar os dentes. E cruzámos todos os dedinhos para que a água voltasse hoje de manhã (ou já tínhamos um contacto dos tais senhores que roubam água para vender a preço de ouro).

Felizmente, a água voltou de manhã. Mas quando os senhores das obras chegaram estava ainda zangada. Não tanto como ontem, mas ainda o bastante para lhes abrir a porta com cara de poucos amigos. E para lhes dar uma bela reprimenda. E uma lição sobre poupança.

E fui fazer o meu café, zangada por ter que ficar em casa a tomar conta deles e terem chegado uma hora e meia depois do combinado. E depois vieram-me pedir água quente para tomar chá. E caiu-me tudo. E lembrei-me do sítio onde estou. Perguntei se tinham chá. E responderam “não, mãe, só temos açúcar”. E tu sabes o que isso significa. Fome. Muita fome. Por aqui, as pessoas sobrevivem apenas. Passam fome a sério. Uma fome que nunca vamos compreender. E quando as pessoas têm fome, não pensam em poupar. Pensam em sobreviver. Vasculham os caixotes do lixo à procura de comida. E comem ali mesmo. E passam o dia com água com açúcar no estômago. E a noite. E isso nota-se no olhar. Um olhar de fome que me era desconhecido. E que me moi. Muito. E que rapidamente me tira da raiva e me deixa só absolutamente triste. Não devia ser permitido viver assim.

Fomos ali respirar…

Então, que tal de Moçambique? Estão a adaptar-se bem? Perguntam todos. 

Sim. Tem sido até bem mais rápido do que imaginámos. Já estamos instalados. Os miúdos estão óptimos e isso é que importa. Respondemos nós. E por aí ficamos. Quase sempre.

E não estamos a mentir. A verdade, é que pouco mais de um mês depois de chegarmos, já nos sentimos bastante em casa. A cidade é relativamente pequena e fácil de explorar. Os miúdos estão a adorar as escolinhas, a casa, os amigos e os gatos. E nós… Não diria que adoramos, mas estamos a gostar bastante. Estamos a construir um espaço simpático, a conhecer pessoas fantásticas, a criar novas rotinas e a descobrir novas receitas de gin! (Prioridades!)

Tem potencial, digo eu com frequência. E tem. Mas porra. Podia facilitar um bocadinho. Assim, tipo uma semana, uns dias vá! sem acontecer nada. Assim, a mostrar que é fixe e a deixar a malta recostar-se e apreciar a paisagem.

Mas não. Tem que haver sempre qualquer coisinha. Uma moinha qualquer, uma pedra no sapato, um queixo empinado… Vai daí, estávamos a começar a precisar de férias. E este era um daqueles fins-de-semana prolongados. E numa daquelas coincidências da vida, eis que surge uma casa para alugar não muito longe de Maputo. E estava livre. E parecia mesmo perfeita. Claro que, à boa maneira Moçambicana, a previsão dizia que o tempo ia estar fantástico antes e depois, mas não durante. Chuva. E frio. Mas não quisemos saber. E lá fomos nós! Respirar. Muito. Bem fundo. 

Carregámos o carro. Comida, toneladas dela. Jogos, muitos e variados, para os dias de chuva. Bebida, verde, branca e tinta, just in case… Fatos de banho, casacos e chinelos no pé… e lá fomos nós. E que bem que soube. A casa era óptima, tinha piscina, um cachorro doido, um barco-sofá e uma daquelas vistas de sonho directamente para o rio. E logo ali, a uns minutos de distância, a lagoa do Bilene. Linda. E deserta. 

Ufa. Que bem que soube. Respirámos muito, como se previa. E metemos as leituras em dias. E passámos horas distraídos à mesa. E cada um fez o que bem lhe apeteceu. E gargalhámos e mimámos com fartura. Regressámos bem-dispostos, de coração e pulmão cheio. Prontos para a próxima onda de pedras no sapato. E, claro, já a sonhar com futuras escapadinhas.

Devagarinho…

É manhã cedo, mas o Gabriel dorme no carrinho, cansado do reboliço do fim-de-semana. A Carolina quis ir novamente para o ATL onde passou a última semana. O Nelson foi para o trabalho, depois de termos ido visitar aquela que esperamos que venha a ser a nova escolinha do Pirata. E eu rumei à descoberta de um novo sitio. O Jardim dos Professores, em Maputo, Moçambique. É aqui que estamos agora. Maputo. É aqui que fica a nossa nova casa. Aterrámos faz pouco mais de uma semana. O início foi turbulento. Com direito a Inverno africano, entradas monumentais no aeroporto, polícias e ladrões, condução à inglesa, almoços à beira-mar, novas amizades e a tão desejada casa com jardim.
Depois de tudo isto, hoje, finalmente, dei por mim a beber o meu café em calma, a sentir o sol morno da manhã, a brisa que passa e a perder-me nesta magnífica paisagem. E, finalmente, com tempo de vir aqui. Com calma. Para contar tudo o que se tem passado nos últimos meses. E o tanto que está para vir. E, finalmente, pensar que sim, isto faz-se. Ainda vamos ser felizes aqui nesta nossa nova casa.