Lido na paisagem…

Gosto de me perder na cidade, nas ruelas, nos mercados… Virar à direita ou à esquerda quando sabemos que em frente seria o caminho certo. Ir a pé ou de tuk tuk em vez de pegar no carro…

Foi isso que fiz no outro dia… E de repente, algures em Phnom Penh, na parede duma ruela daquelas bem estreitas, lia-se assim em grandes letras pretas:

Open your eyes and dream.

Abre os olhos e sonha, em Português. Esteve quase para ser uma daquelas quase-fotografias. Aquelas que ficamos a pensar que devíamos ter tirado uma fotografia, mas não tiramos e depois ficamos a remoer sobre o assunto. Mas não. Parei o carro ali mesmo no meio da rua, sai e tirei a foto. Porque numa altura de grandes interrogações e ainda maiores transições, quando a vida nos manda recados, é melhor que os tomemos a sério.

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A Avó Mina

A avó Mina deixou-nos no dia 9 de Abril. Já passou mais de um mês e desde então que tenho este rascunho guardado à espera de uma qualquer inspiração para falar sobre a decana da família. A avó Mina era aquela que falava pouco, mas que, no pouco que dizia, trazia tudo o que tinha para dizer. E assim, numa frase, lembrei-me do quanto o Pirata adorava passar tempo com ela durante as nossas férias no monte. Talvez por serem tão parecidos nesta sua utilização económica, mas super eficiente das palavras e dos sorrisos…

Era assim ela, distante e soberana, como na foto. Gostava de estar ao longe. No seu canto. Com a sua vida, aquela que só ela sabia o que tinha custado a viver e que teimava em prolongar-se para lá do que dizia desejar. Longe, mas não desatenta. Dava conta de tudo e de tudo sabia. Mesmo sem ouvir. Ou mesmo fazendo que não ouvia. Falava o que tinha a falar, mesmo quando parecia que não sabia, que não ouvia e não dizia.

Era a avó da pescadinha frita, da sopa de legumes, do arroz doce e dos biscoitos de areia. Que deixava amassar e que depois guardava (e controlava) na mais alta prateleira da despensa. Porque era preciso poupar. E porque nós tínhamos que aprender a chegar às prateleiras mais altas, que a vida não é fácil para ninguém. E das galinhas e dos coelhos. Que passávamos os dias a alimentar. Couves, ração, feno… Até que se aborrecia e dizia: “Já chega. Vais gastar a comida toda”. E que depois vendia e, se preciso, matava com uma pancada seca. E não me deixava ver porque: “eles assim ficam tristes e não morrem”. Penso agora que quem ficava triste não eram eles. Mas isso, devo dizer, jamais me tinha ocorrido.

Era a avó dos mil e um esconderijos: Das jóias, do dinheiro da luz, dos ovos e dos coelhos. E como não havia mais que fazer, revirar a casa a tentar descobri-los era diversão suficiente.

Era a avó dos padrões garridos, das meias de quatro agulhas e das almofadas de tricô. E dos gatos. Gatos de lã. Castanhos, azuis, vermelhos, cinzentos, amarelos… Unicolores, multicolores, com padrão e sem padrão. Que fazia ao serão. E que guardava religiosamente em cima da televisão (aquelas do tempo em que as televisões ainda serviam para ver as novelas e para guardar os bibelots).

Faz cerca de um mês que ela nos deixou. Faz cerca de um mês que aconteceu aquilo que mais temia e previa. Porque quem anda nestas andanças de cá para lá e de lá para cá, sabe que um dia vai estar longe de mais para estar lá. E que estar do lado de cá vai parecer tão longe como nunca.

Lembro-me sempre do dia em que nos despedimos rumo à nossa primeira aventura, fez agora cinco anos. Ela, sábia como sempre, despediu-se de mim, com os olhos lacrimejantes, dizendo: “Adeus Ana. Quando voltares se calhar já cá não estou, mas aproveita muito. Está bem? Sê feliz.” Felizmente, ainda tivemos muitos reencontros depois disso, mas estava escrito que assim seria. E assim foi.

Tanto tempo passado e antecipado, não ajudou a que conseguisse deitar cá para fora o que sentia. O rascunho deste texto assim ficou com uma foto, apenas. Até hoje. Quando a miúda mais espectacular do mundo, do meio do nada, se sai com:

“Já sei uma coisa que temos mesmo que levar e que não podemos deixar atrás. Os gatos da avó Mina. É uma recordação dela. E são mesmo preciosos porque foi ela que os fez.”.

No seu silêncio de quem anda a viver a sua vidinha de pulga saltitante de 7 anos, anda também em contagem de crescente para a nova aventura. Fá-lo vivendo. E pensando. E falando. De forma intensa e determinada. Como o fez também, sempre à sua maneira, a sua (bis) avó Mina durante quase um século… Pronto. É isto.

 

 

A todas as mães elefantes…

Conversas no meio do trânsito…

E como é que a sra sabia daquilo? E como é que era aquela história da Noa? E das galinhas? E do Tiger? E o mano fez o quê? E lembras-te do aniversário das porquinhas? E o que vai acontecer aos cães? E contas-me outra vez aquela história do dia em que…

Ao fim de tantas memórias pedidas, já não sabia mais. E saí-me com um…

– Não sei, já não me lembro de mais…
– Sabes sim, disse ela, as mães guardam sempre todas as memórias.

É isto. Feliz dia da Mãe a todas as mães elefantes que ai andam! Em especial à minha que já é avó e é, por isso, mãe duas vezes. E à avó Zé que tem memórias para dar e vender! E um beijo também especial aos meus filhos borboletas, por me ensinarem todos os dias o que é isto de ser mãe.

Para os avós.

 

No Dia da Criança, a avó Mena mandou algumas fotos-miminhos para os netos. Esta era uma delas. O comentário da Carolina foi: “Xiii, o mano era mesmo bebezinho!”.
A avó Mena e o Avô Adérito são pessoas fantásticas. Ou, usando uma palavra que eles gostam muito de usar, são pessoas ESPECTACULARES. A vida tem-lhes pregado umas quantas partidas menos simpáticas (para ser também simpática no termo a usar). Apesar disso, mantém sempre o sorriso e a vontade imparável de lutar. Por eles e pelos outros. Muitas mais vezes pelos outros. Para a Carolina, a avó Mena é uma médica que gosta de ajudar os outros e que faz pasteis de carne. Já o avô Adérito é pastor, trata dos animais da quinta e trabalha numa carruagem de comboios. Lindo.
Nem sempre é fácil gerir esta coisa de se viver cada um na sua ponta do mundo. Faz-se o que se pode para gerir a distância, as memórias e a saudade. Felizmente, a tecnologia ajuda-nos bastante, contam-se as novidades, os netos mostram as suas gracinhas, rimo-nos com as parvoíces e aborrecemo-nos com as falhas de rede. De repente ficamos todos um pouco mais perto. Mas ainda assim, há coisas que não se substituem. Há coisas que fazem falta. Sobretudo em dias como o de hoje, em que mais uma vez, as forças são colocadas à prova. É, por isso, que, em especial no dia de hoje, daqui para ai vai um beijinho, um abraço e uma festa. Mas assim daqueles de partir pescoços. De todos nós. Para os pais e os avós mais espectaculares do mundo.