Hoje não quero ir à escola.

Hoje de manhã, quando toda a família se preparava para sair de casa, o Pirata decidiu que tinha planos mais importantes. Hoje não queria ir à escola.

Sabemos que ele adora a escola e estava todo sorridente, por isso, não seria caso para ficarmos demasiado preocupados. Ainda assim, tentámos confirmar que era mesmo isso que ele queria. “Sim, hoje não quero escola. Só casa”. Fizemos o último teste, a mão na testa, o qual também comprovou o óbvio – não há febre, não há doença. O diagnóstico era fácil, é apenas um caso de preguicite de segunda-feira. E agora?… Vai aborrecer-se. Lá se vai o meu dia, pensei… Mas perante um ar tão decidido, como dizer não?

Talvez seja a altura de partilhar com os mais distraídos que há todo um Pirata antes-de-Moçambique e depois-de-Moçambique.

O Pirata antes-de-Moçambique era parco na sua utilização das palavras. Fazia-se entender, claro. Mas aquela coisa de viver constantemente no limbo entre quatro línguas nunca o convenceu verdadeiramente. E por isso, era um mocinho de poucas palavras e muitos gestos.

Ora o Pirata depois-de-Moçambique continua a gesticular muito, mas a grande diferença, é que agora fala pelos cotovelos. Fala, fala, fala… Conta histórias, faz queixinhas… Como ainda anda a explorar, poderíamos dizer que é o papagaio cá de casa. Mas a verdade é que esta coisa de viver 90% do tempo só com um língua (há coisas que não mudam, e sapatos continuam a ser shoes e roxo continua a ser purple!), tem nos feito descobrir todo um novo Pirata.

Por isso, quando diz coisas mimosas como “O Gabriel é feliz. E o pai e a mãe e a mana são felizes! E contentes”, é difícil não o desfazer com beijos.

A verdade é que acho que nem nos tínhamos apercebido como vivíamos fora do seu mundo e como tudo mudou agora que consegue dizer coisas simples como “o Gabriel não gosta disso, mãe” ou contar como foi o seu dia na escola, as brincadeiras que fez e falar da sua nova paixão, “a Inês!”.

Vai daí, quando o Pirata acorda e nos diz que não quer ir à escola e, ainda por cima, dá argumentos tão válidos como “Hoje quero ficar só contigo”, está mais que visto que o moço fica em casa!

E se, no final de um dia de brincadeira, ainda der para mais uns miminhos e uma sesta juntos então valeu mesmo a pena ficar em casa.

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Fomos ali respirar…

Então, que tal de Moçambique? Estão a adaptar-se bem? Perguntam todos. 

Sim. Tem sido até bem mais rápido do que imaginámos. Já estamos instalados. Os miúdos estão óptimos e isso é que importa. Respondemos nós. E por aí ficamos. Quase sempre.

E não estamos a mentir. A verdade, é que pouco mais de um mês depois de chegarmos, já nos sentimos bastante em casa. A cidade é relativamente pequena e fácil de explorar. Os miúdos estão a adorar as escolinhas, a casa, os amigos e os gatos. E nós… Não diria que adoramos, mas estamos a gostar bastante. Estamos a construir um espaço simpático, a conhecer pessoas fantásticas, a criar novas rotinas e a descobrir novas receitas de gin! (Prioridades!)

Tem potencial, digo eu com frequência. E tem. Mas porra. Podia facilitar um bocadinho. Assim, tipo uma semana, uns dias vá! sem acontecer nada. Assim, a mostrar que é fixe e a deixar a malta recostar-se e apreciar a paisagem.

Mas não. Tem que haver sempre qualquer coisinha. Uma moinha qualquer, uma pedra no sapato, um queixo empinado… Vai daí, estávamos a começar a precisar de férias. E este era um daqueles fins-de-semana prolongados. E numa daquelas coincidências da vida, eis que surge uma casa para alugar não muito longe de Maputo. E estava livre. E parecia mesmo perfeita. Claro que, à boa maneira Moçambicana, a previsão dizia que o tempo ia estar fantástico antes e depois, mas não durante. Chuva. E frio. Mas não quisemos saber. E lá fomos nós! Respirar. Muito. Bem fundo. 

Carregámos o carro. Comida, toneladas dela. Jogos, muitos e variados, para os dias de chuva. Bebida, verde, branca e tinta, just in case… Fatos de banho, casacos e chinelos no pé… e lá fomos nós. E que bem que soube. A casa era óptima, tinha piscina, um cachorro doido, um barco-sofá e uma daquelas vistas de sonho directamente para o rio. E logo ali, a uns minutos de distância, a lagoa do Bilene. Linda. E deserta. 

Ufa. Que bem que soube. Respirámos muito, como se previa. E metemos as leituras em dias. E passámos horas distraídos à mesa. E cada um fez o que bem lhe apeteceu. E gargalhámos e mimámos com fartura. Regressámos bem-dispostos, de coração e pulmão cheio. Prontos para a próxima onda de pedras no sapato. E, claro, já a sonhar com futuras escapadinhas.

Caracolinhos volta à Escola

Caracolinhos volta à escola. 

Diz que vai para o terceiro ano. 

Caracolinhos volta à escola. 

Diz que vai para a terceira escola em três anos. 

Caracolinhos volta à escola. 

Diz que lá entrou pela primeira vez vai para seis anos.

Caracolinhos volta à escola.

Diz que vai ser feliz por lá durante muitos mais anos.

Devagarinho…

É manhã cedo, mas o Gabriel dorme no carrinho, cansado do reboliço do fim-de-semana. A Carolina quis ir novamente para o ATL onde passou a última semana. O Nelson foi para o trabalho, depois de termos ido visitar aquela que esperamos que venha a ser a nova escolinha do Pirata. E eu rumei à descoberta de um novo sitio. O Jardim dos Professores, em Maputo, Moçambique. É aqui que estamos agora. Maputo. É aqui que fica a nossa nova casa. Aterrámos faz pouco mais de uma semana. O início foi turbulento. Com direito a Inverno africano, entradas monumentais no aeroporto, polícias e ladrões, condução à inglesa, almoços à beira-mar, novas amizades e a tão desejada casa com jardim.
Depois de tudo isto, hoje, finalmente, dei por mim a beber o meu café em calma, a sentir o sol morno da manhã, a brisa que passa e a perder-me nesta magnífica paisagem. E, finalmente, com tempo de vir aqui. Com calma. Para contar tudo o que se tem passado nos últimos meses. E o tanto que está para vir. E, finalmente, pensar que sim, isto faz-se. Ainda vamos ser felizes aqui nesta nossa nova casa.

Desta vez temos tempo…

Em 2011 tínhamos tempo, mas ela não percebia. Tentávamos explicar-lhe, mas era pequenina demais para perceber a dimensão do que ia acontecer.

Em 2013, num dia dizíamos que íamos ficar por ali e renegociávamos o contracto com o senhorio e no outro o resultado de umas análises de rotina, levam-nos a largar tudo e a regressar de emergência. Ela percebia mais ou menos, mas houve pouco tempo para explicar.

Em 2014, ela percebia e nós explicámos, ou tentámos, mas houve tanta, tanta coisa que as explicações eram tão difíceis de entender como de dar…  E, mais uma vez, parecia que tempo era coisa que escasseava…

Agora, pela primeira vez, temos tempo. E ela percebe e bem. E, por isso, ter tempo é muito, muito bom. Tempo para gritar que não quer, que é injusto, que agora é que era bom e que quer mais. Tempo para fazer despedidas e encerrar capítulos. Tempo para fazer festas e mimos, gritar, chorar e rir. Mas também tempo para explorar, fazer milhões de perguntas e sonhar com o que há-de vir.