Gabriel. 4 anos, 4 países.

– Gabriel, sabes onde é que nasceste?

– Sei. No Cambodja.

– Quase. Quando ainda estavas na barriga da mãe, saímos do Cambodja e fomos para Portugal. Nasceste lá, mas depois foste ainda bebezinho para o Laos. Depois, quando já eras um pouquinho menos bebé fomos para o Cambodja.

– Ah !!! Está bem.

– E agora sabes onde estás?

– Sei. Na casa nova em Moçambique.

Gabriel. 4 anos, 4 países. E um mundo cheio de casas novas por descobrir.

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Como assim só passaram dois anos?

O Facebook diz-me que passaram dois anos desde que publiquei esta foto.

Pois eu cá acho que ele deve estar enganado. Impossível que tenham apenas passado apenas dois anos. Não… Isto já foi há muito, muito tempo. Toda uma vida já se passou depois desta foto. Vá, uma vida não, mas umas boas duas décadas, concerteza!

Porque se fosse verdade o que dizem os senhores que controlam as datas do Facebook, queria dizer que faz pouco mais de dois anos que atravessei meio mundo com uma pulga e um recém-nascido (que nessa altura ainda não tinha direito a cognome!) naquela que foi provavelmente a pior viagem intercontinental da história, para nos juntarmos ao pai Nelson que já estava no Laos. E faria pouco mais de dois anos que arranjávamos uma casa espectacular cheia de árvores de fruto, comprávamos o carro mais feio de Vientiane, arranjávamos, a custo, escola para a Carolina, tentávamos, também a custo, que eu fizesse um mestrado online que definitivamente tinha tudo para não acontecer, naquilo que parecia o local perfeito na época errada. E faria pouco mais de dois anos que sobreviviamos à pior época quente que já tínhamos vivido e passávamos pela festa mais louca e refrescante do ano (o Sabaidee Pii Mai) até chegar a este dia em que finalmente conseguimos fugir da chata e cinzenta capital Laosiana em direcção às palmeiras e aos campos de arroz verdejantes?…

Impossível caros senhores do Facebook! Isto já foi há muito, muito tempo! A sério!

Porque isso quereria dizer que foi apenas há dois anos que aconteceu este fim-de-semana, o primeiro Dia da Mãe a quatro, em que finalmente nos re-encontrávamos depois de uma saída apressada do Cambodja e de um período familiar complicado (para ser simpática…) e que voltávamos a ser uma família não-totalmente-destrambelhada e que sabe viver a quatro. E que a partir daqui a vida parecia boa, boa. E andávamos a apanhar mangas e cocos no quintal, a fazer barbecues com os amigos, a alimentar a colónia de gatos do bairro que crescia sem parar, a torcer ao longe com cada notícia do avô Adérito, a vibrar com a pulga a dar os seus primeiros passos no ballet e o pirata a dar as suas primeiras reboladelas no chão da sala…

Não senhores do Facebook. O pirata já anda faz séculos e a pulga diz que ballet é para meninas e zumba é que está a dar! Okay?

Ou acham que caímos num qualquer túnel do tempo? E que aquele momento em que de repente percebemos que afinal a vida não seria assim tão boa e, sem alternativas, decidimos sair e voltar para Portugal, sem eira nem beira, com um pirata à frente e uma pulga atrás, dois pais desempregados e um futuro incerto, mas sempre com esperança (ou muita loucura, aquilo que der mais jeito para a malta andar para a frente) para acreditar que dali a uns meses as coisas mudariam e estaríamos novamente a embarcar numa nova aventura, se passou afinal há apenas dois anos e não numa outra vida como realmente parece?

Não senhores do Facebook. A vida não se mede assim. Até porque nesta vida onde nós andamos, temos direito a celebrar pelo menos três passagens de ano, por ano! Diz que temos o International, o Chinês (e Vietnamita) e o do Laos (e do Cambodja, da Tailândia…). E, por isso, caros senhores das datas do Facebook, a bem da minha sanidade mental e dos restantes membros da família, vou ignorar esta vossa provocação e continuar a achar que já se passaram uns bons aninhos desde que esta foto foi tirada. Até porque ninguém passaria por isto tudo em apenas dois anos e estaria já de novo a preparar-se para fazer as malas e embarcar em nova aventura, certo?… Ufa, ainda bem que nos entendemos. Obrigada!

 

 

 

E nós somos o quê?

Conversas a caminho da Escola…

“Eu não sou budista! Os Cambodjanos é que são budistas, eu não sou Cambodjana… Nós (Os Portugueses) somos o quê?”

Nós somos o que quisermos ser, digo eu. Eu até pensava que eras um bocadinho budista, estás sempre a falar do ciclo da vida e como voltamos a viver…

“Não! – continua ela – Somos o quê, lá em Portugal? Ah… E nós também acreditamos nisso dos Católicos? Mas também achamos que as pessoas voltam a viver? E quem é Deus? Não estou a perceber… É diferente do Budha? E as pessoas depois de irem para o Céu também voltam a viver?.. Eu cá acho que devia ser assim, umas pessoas se quisessem iam para o Céu, outras se quisessem voltavam a viver e pronto, acabava-se a confusão das Religiões!”

… Silêncio…

“O meu professor de (Cultura) Khmer diz que as pessoas más ficam na terra e isso não é bom porque depois são comidos pelos bichos, pelas tartarugas e as minhocas e isso… É melhor ser-se bom. O que é isso do Inferno? Ufa! Ainda bem que o Big Cat era bom, ao menos assim, não ficou a ser comido pelos bichos e anda a brincar no Céu…”

Suspiro… (eu!)

E o Rei ainda é vivo?

Qual Rei?, pergunto eu.

O Rei de Portugal, aquele que fugiu para o Brasil. Ou já há outro Rei? Há um Rei mas não diz a ninguém que é Rei para não o mandarem outra vez para o Brasil? Mas quem era a Corte? E porque é que eles ficavam com tudo? Também ficavam com a água? Quem era o Governo? Ah… então o Governo era o povo! E quando se chateavam também tinham que fugir? Porque é que o povo não fugia para o Brasil? E ainda há pessoas dessas do povo que estão vivas? Mas se a avó Mina não se lembra como é que tu te lembras?”

(Pausa)… “Eu acho que se calhar já estão vivas outras vez. (Como assim, vivas outra vez?) Sim, lembras-te do que te expliquei do Budismo? Nós nascemos, crescemos, vivemos, ficamos doentes e velhinhos, morremos e depois nascemos outra vez. É assim. É o ciclo da vida.”

Portugal já andou à guerra?

“Porque é que as pessoas fazem guerras? Portugal andou à guerra com quais países? Mas houve guerra lá mesmo dentro de Portugal? O que são exércitos? Isso quer dizer que as pessoas se zangaram porque queriam ficar com os países todos? O que são fronteiras? Isso quer dizer que Portugal era muito pequenino e depois ficou grande e depois ficou pequenino outra vez? Os outros países zangaram-se com Portugal? E porque é que as pessoas já não querem Reis e Rainhas? O que são Duques? E Condes? Quer dizer que é tudo uma grande família como na Princesa Sofia? Súbditos? Como na Princesa Elza? Mas isso não é fazer a paz. E porque é que os mataram em vez de prender? E como é que os nossos Reis foram para o Brasil? Foram de avião como nós? Ah… E também tiveram que apanhar um barco pequeno e um barco grande e um barco pequeno outra vez, como os nossos aviões?…”

 

… Três horas depois…

“Mãe!!! Na história do Rei de Portugal, o Rei já morreu?”

…Onde é que anda o meu livrinho verde da história de Portugal contada às crianças quando preciso dele?!