Noites mal-dormidas e robots que fazem pequenos-almoços

Esta noite o Pirata decidiu que não queria dormir. Queria água. Queria papa. E mais água. E a mãe. E cereais. E iogurte. Mas afinal já não queria iogurte, apenas os cereais. E mais água. E mais mãe. Estava mortinho de sono. Mas nada que o impedisse de ficar acordado. E eram quatro. E quatro e meia. E cinco…

Mãe, sabes porque é que eu quero ir para robótica?

Já estou a ouvir coisas, pensei. Mas não. Lá estava ela à porta do quarto, com o ar mais fresco do mundo, sorriso aberto e caracóis em contra-luz. Não?, arrisquei…

Porque assim, podia fazer um robot que, quando o mano acordava, ia buscar água e fazia o pequeno-almoço, enquanto tu continuavas a dormir. Enquanto isso não acontece, vai lá dormir que eu já não tenho sono.

Sorri. Dei-lhe um beijo e um abraço. Que ideia fantástica, disse-lhe, mas vai lá descansar que isso de fazer robots precisa de muita energia.

Certo dia, um amigo dizia: Não lhe digas, mas ela é uma num milhão. E é mesmo verdade.

Quanto ao Pirata… Adormeceu lá para as cinco e meia. Ou seis. Já não sei. Entre uma mãe e um pai. Eu adormeci entretanto. Na falta de robot, não há nada que um mimo e a cama dos pais não resolva.

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Como assim só passaram dois anos?

O Facebook diz-me que passaram dois anos desde que publiquei esta foto.

Pois eu cá acho que ele deve estar enganado. Impossível que tenham apenas passado apenas dois anos. Não… Isto já foi há muito, muito tempo. Toda uma vida já se passou depois desta foto. Vá, uma vida não, mas umas boas duas décadas, concerteza!

Porque se fosse verdade o que dizem os senhores que controlam as datas do Facebook, queria dizer que faz pouco mais de dois anos que atravessei meio mundo com uma pulga e um recém-nascido (que nessa altura ainda não tinha direito a cognome!) naquela que foi provavelmente a pior viagem intercontinental da história, para nos juntarmos ao pai Nelson que já estava no Laos. E faria pouco mais de dois anos que arranjávamos uma casa espectacular cheia de árvores de fruto, comprávamos o carro mais feio de Vientiane, arranjávamos, a custo, escola para a Carolina, tentávamos, também a custo, que eu fizesse um mestrado online que definitivamente tinha tudo para não acontecer, naquilo que parecia o local perfeito na época errada. E faria pouco mais de dois anos que sobreviviamos à pior época quente que já tínhamos vivido e passávamos pela festa mais louca e refrescante do ano (o Sabaidee Pii Mai) até chegar a este dia em que finalmente conseguimos fugir da chata e cinzenta capital Laosiana em direcção às palmeiras e aos campos de arroz verdejantes?…

Impossível caros senhores do Facebook! Isto já foi há muito, muito tempo! A sério!

Porque isso quereria dizer que foi apenas há dois anos que aconteceu este fim-de-semana, o primeiro Dia da Mãe a quatro, em que finalmente nos re-encontrávamos depois de uma saída apressada do Cambodja e de um período familiar complicado (para ser simpática…) e que voltávamos a ser uma família não-totalmente-destrambelhada e que sabe viver a quatro. E que a partir daqui a vida parecia boa, boa. E andávamos a apanhar mangas e cocos no quintal, a fazer barbecues com os amigos, a alimentar a colónia de gatos do bairro que crescia sem parar, a torcer ao longe com cada notícia do avô Adérito, a vibrar com a pulga a dar os seus primeiros passos no ballet e o pirata a dar as suas primeiras reboladelas no chão da sala…

Não senhores do Facebook. O pirata já anda faz séculos e a pulga diz que ballet é para meninas e zumba é que está a dar! Okay?

Ou acham que caímos num qualquer túnel do tempo? E que aquele momento em que de repente percebemos que afinal a vida não seria assim tão boa e, sem alternativas, decidimos sair e voltar para Portugal, sem eira nem beira, com um pirata à frente e uma pulga atrás, dois pais desempregados e um futuro incerto, mas sempre com esperança (ou muita loucura, aquilo que der mais jeito para a malta andar para a frente) para acreditar que dali a uns meses as coisas mudariam e estaríamos novamente a embarcar numa nova aventura, se passou afinal há apenas dois anos e não numa outra vida como realmente parece?

Não senhores do Facebook. A vida não se mede assim. Até porque nesta vida onde nós andamos, temos direito a celebrar pelo menos três passagens de ano, por ano! Diz que temos o International, o Chinês (e Vietnamita) e o do Laos (e do Cambodja, da Tailândia…). E, por isso, caros senhores das datas do Facebook, a bem da minha sanidade mental e dos restantes membros da família, vou ignorar esta vossa provocação e continuar a achar que já se passaram uns bons aninhos desde que esta foto foi tirada. Até porque ninguém passaria por isto tudo em apenas dois anos e estaria já de novo a preparar-se para fazer as malas e embarcar em nova aventura, certo?… Ufa, ainda bem que nos entendemos. Obrigada!

 

 

 

A menina do monte e as grutas

A menina do monte não se lembrava, mas não gostava muito de grutas…

A menina do monte não se lembrava se era especificamente de grutas que não gostava ou simplesmente daquela sensação de estar fechada num sítio do qual poderá ter dificuldade em sair. Tipo, e se isto nos cai tudo em cima?

A menina do monte não se lembrava de nada disso, até porque há muito tempo que não se colocava numa situação em que tivesse que pensar sobre o assunto. Pois. Até que decidiu ir passear para o Vietname.

No Vietname, a menina do monte e a família, decidiram fugir aos turistas que se concentram em magote em Halong Bay e ir para um sítio, mais frequentado por locais e ao qual chamam “Halong na terra”.

Chegaram ao local, entraram para o barco, uma aventura por si só, que aquilo é pouco mais que uma jangada de bambu… Tudo a postos, lá vamos nós.

A menina do monte olha espantada para tudo o que a rodeia. Que maravilha, pensa, que paz. 

O que a menina do monte não pensou foi nas grutas. Até que viu a primeira. E mesmo ai também não pensou muito no assunto. Até que viu a placa: 350 metros. Ena, grande! Pensou ela. E foi das últimas coisas que pensou. A partir daí concentrou-se em tirar fotos, ver as estalactites, filmar o percurso, escutar os OH!!! da pulga e do pirata. E afastar os pensamentos do “epá, isto é mesmo baixinho…” e “e se ficamos aqui presos?”

Chiu!!!… dizia a menina do monte a si própria. Está tudo tranquilo… Eles fazem isto todos os dias.

Quando se vislumbra, literalmente, “a luz ao fundo do túnel”, a menina do monte finalmente esboça um sorriso. Está quase… E ao passar a barreira que nos divide entre o dentro da gruta e a liberdade exterior… Uau! Que lindo!… e respira pela primeira vez em algum tempo.

Grutas

Aliviada, a menina do monte confessa: “acho que não gosto muito de grutas”. Riso geral. “Para quem não gosta, portaste-te muito bem!”, dizem eles!

A menina do monte não se lembrava, mas não gostava de grutas. Mas depois foi ao Vietname. E passou dois dias a andar de barco. Barquinhos pequeninos, de bambu, a remos. Que entravam e saiam de grutas. E entravam e saiam de grutas. Umas compridas, intermináveis. Outras tão curtas que quase não dávamos por elas. Umas altas. Outras baixinhas, baixinhas, baixinhas. E entravam e saiam…

A menina do monte não se lembrava, mas agora também já não importa. O que importa mesmo, é chegar ao final de cada uma, e ver o que a Natureza guardou para nós. E ouvir o OHHH! da pulga e do pirata.

A menina do monte não se lembrava, mas faria tudo outra vez. Porque quando deixamos, a vida arranja sempre maneiras de nos surpreender.

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Domingos preguiçosos

Os últimos fins-de-semana em Phnom Penh têm sido uma roda-viva. É o ano novo chinês, são aulas de jardinagem, sessões de cinema, passeios arquitectónicos, hidro-ginástica, festivais de arte, concertos, jantares com amigos, conferências, workshops disto e daquilo… Para adultos, para crianças, para famílias, dentro de casa, ao ar livre… Parece que andamos numa corrida para aproveitar tudo ao máximo antes que a época quente se instale de vez e a única actividade possível seja a de ficar a vegetar no sofá com a ventoinha no máximo ou, eventualmente, na banheira porque até a piscina está quente demais e a simples ideia de pensar em sair de casa aumenta o grau de exaustão… E pelo caminho, ainda aquelas coisas do costume, tentar trabalhar um pouco, preparar a semana, fazer compras, ajudar nos TPC… Vai daí, um pensamento recorrente nos últimos Domingos tem sido: “amanhã já podia ser Domingo outra vez!”

Foi por isso, que lá em casa declarámos este Domingo, o Dia da Preguiça. Sim, apesar do Pai Nelson ter posto o despertador para ir jogar futebol às 7 da manhã. E do Gabriel ter acordado às 6:30. E de pouco depois já estarmos os dois na cozinha a fazer crepes com mel e canela para o pequeno-almoço. Sim, apesar disso tudo, foi dia de preguiça.

A Carolina apareceu na sala bem mais tarde e, vagarosamente, mudou-se da cama para o sofá. A sua melhor amiga, que lá foi passar o fim-de-semana, apareceu pouco depois e juntou-se a ela no sofá. As duas vinham de cabelos no ar e olhos empapados de quem ficou na conversa até bem depois da hora…

Infelizmente, esta coisa da preguiça nas crianças passa rápido. Demasiado rápido. Um bocadinho de sofá, dois episódios de Tivi5 e uns crepes com nutella são o bastante para repor os níveis de energia… E o Gabriel, bem o Gabriel tem dois anos. Ponto. Ora, se queríamos manter o nível de preguiça, tínhamos que arranjar um plano de sobrevivência. E já.

Com os cérebros claramente a meio gás, só conseguimos pensar em duas opções para salvar o dia: ir almoçar fora (e assim, evitar cozinhar e lavar loiça, que aqui não há esse objecto divino que se chama máquina de lavar loiça) e tirar as crianças de casa (antes que comecem a trepar paredes!).

“Meninos! Vamos passear!” (“Oh Não!”) “É capaz de haver batatas fritas!” (“IUPI!”) (Não houve, mas também ninguém se chateou por causa disso…)

Chapéus na cabeça, protector solar e carrinho de bebé, lá fomos nós de passeio até um cafézinho simpático, pertinho de casa, com comida boa e o melhor chocolate do Cambodja! Mas a verdadeira razão que nos levou até lá foi outra. Mesmo ao lado fica uma verdadeira relíquia, uma biblioteca comunitária, gerida por uma pequena associação chamada Au livre Ouvert e que tem como objectivo promover o prazer da leitura num país pouco dado aos livros. Com livros em Khmer, Inglês, Francês, Vietnamita, Alemão e muito provavelmente em Português, tem histórias do tamanho do mundo para todas as idades, gostos e aspirações. E tem também brinquedos. E outras crianças. E anda-se descalço. E foi assim que entrámos na nossa tarde, vagarosamente, entre livros, legos e sestas nas almofadas…

De regresso a casa, e para terminar o dia em beleza, os pais ainda tiveram direito a um luxo raro: SESTA! Nós e o pirata, enquanto as duas pulguinhas saltitantes aproveitavam as últimas horas em conjunto entre jogos, porquinhos da índia e conversas de raparigas.

Bom, bom. Nada como um Domingo preguiçoso. Boa semana para todas e para todos!