O até já às Fadas…

Há dias que sabemos que hão-de chegar mais cedo ao mais tarde. Aqueles dias marco em que, de repente, nos damos conta que nada vai voltar a ser como era até ai. Sabemos que esses dias hão-de chegar porque fazem parte dessa grande aventura que é educar crianças (mais ou menos) saudáveis neste mundo de loucos. E sabemos que, se estivermos a fazer as coisas mais ou menos bem, quando chegarem, esses dias hão-de ser bons dias. Apesar de tudo isso, torcemos para que se demorem no caminho e cheguem mais tarde do que cedo, porque também sabemos que nos vão deixar cheios de saudade de todas essas coisas que não vão voltar a ser. São dias-canção “O que foi já não volta a ser mesmo que muito se queira.”. E ontem foi um desses dias…

  • Mãe, confessa, foste tu que escreveste a carta. Confessa. Foste tu, não foste?
  • Como assim, fui eu que escrevi a carta? Porque haveria de ser eu a escrever a carta da Fada?
  • Mãe… Diz lá… Eu percebo todas as letras, menos a tua e a da Fada. (e a do Pai, mas eu sei que não foi ele) E a dela é muito parecida com a tua! Vá, responde!

Neste momento, acho que procurava desesperadamente por um comando que permitisse meter todo aquele momento em pausa. Ou apagar ou mudar o episódio…. Estava apanhadíssima! Encurralada. E com o Gabriel no mesmo quarto… Socorro!

  • Mana, a mãe não pode escrever cartas, a fada é que escreve, não é mãe? A Fada é que traz os presentes, não é, mãe?! (Pânico!)
  • Claro que sim, Gabriel, a mana está um pouquinho confusa… (Entre os dentes, faço-lhe sinal: POR FAVOR, NÃO EM FRENTE AO MANO!!!)

Saí a correr do quarto, com a desculpa que era tardíssimo e tinha que ir deitar o Gabriel. Pobre Pirata que se foi deitar angustiado com a ideia de que de um dia para o outro iria ver todos os seus dentes a cair (e porque é que o dente da mana estava vermelho?, pergunta ele em horror) e que não ia haver fadas suficientes para o salvarem de tão trágico destino. Por fim, ele dorme e eu respiro fundo, rio de tão caricata situação e volto ao quarto da Carolina, que me espera sentada na cama com aquele ar de então, é agora que vais confessar o crime?!

  • Então conta lá o que achas que se passa?
  • Bem… já há algum tempo que ando desconfiada. No outro dia, quando fui para a Ponta do Ouro e me caiu o dente, pus o dente debaixo da almofada e a Fada não veio. Depois voltei a casa e a Fada apareceu. E ai confirmei: a Fada só vem quando os pais estão por perto, estás a perceber o que quero dizer, certo? Além disso, a tua letra é muito parecida com a da Fada e eu tenho dificuldade em perceber as duas.
  • (Glup! Respira. A miúda é esperta, e era óbvio que este dia havia de chegar!) Bem, isso é verdade, mas também houve uma vez em que te caiu um dente na Azaruja e nós não estávamos e a Fada veio, tento eu, em vão…
  • Sim, mas a letra era diferente do costume! E eu até a consegui perceber! E estavam lá os avós e eu sei que a Célia esteve a falar no Whatsapp contigo, portanto, tu deves ter-lhe explicado!
  • (…) (Risos) Pronto, tens razão. Sou eu, somos nós que fazemos de Fada. Mas tu acreditavas tanto no poder das Fadas e da Magia. E foi bom ter uma Fada, não?
  • Sim, foi! Mas percebes o que estou a dizer? Depois também pensava como é que ela sabia tudo o que se tinha passado… Já há algum tempo que andava a pensar que não batia muito certo! (Risos!)
  • Então, ela sabia porque as Fadas sabem tudo sobre os seus meninos. Era nisso que tu acreditavas. Lembras-te como te zangavas quando estávamos no Cambodja e as tuas amigas diziam que a magia não existia? Mas é normal que tenhas percebido. Sinal que já estás uma crescida e que pensas sobre as coisas de uma maneira diferente. Sonhas outros sonhos. Fico triste por deixares de ser a menina das magias e das fadas e dos unicórnios. Mas fico contente, por ver que estás a crescer e a tornar-te numa menina crescida, curiosa e inteligente. Olha, gostava de te pedir uma coisa, pode ser?
  • O quê?
  • O mano ainda está na idade da magia e os dentes dele vão começar a cair daqui a pouco. Achas que podemos guardar este segredo e deixá-lo acreditar nas fadas por mais uns tempinhos?
  • Hum… acho que sim. Mas se queres um conselho, escreve com a outra mão para a letra ficar completamente diferente e ele não desconfiar que és tu. (ups!) Ou se quiseres, posso ajudar-te.

E foi assim, com risos e histórias e abraços que nos despedimos da menina-borboleta- aprendiz-de-unicórnios. E dissemos até já à Fada dos Dentes.

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A filha missão

Carolina queres ir passear?… Não posso, estou num missão.

Carolina podes vir ajudar-me?… Agora não posso, estou numa missão.

Carolina que andas a fazer?… Estou numa missão.

Sempre foi assim. Desde menina pequenina. Estávamos ainda no Monte e lá ia ela… Em missão vou só ali tratar das galinhas. Ou em missão vou ali plantar uns sobreiros com a avó Mena. Ou em missão estou só aqui a fazer uns laçarotes para a nOa que ela gosta mesmo muito. Ou em missão um bocadinho de giz de cor neste chão de ardósia é que era bom. Ou em missão vou aprender ballet porque os unicórnios convidaram-me para participar no espectáculo de dança que eles estão a organizar. Ou em missão tenho tantas ideias na minha cabeça e estão sempre a incomodar-me para ir fazer outras coisas!

Era assim que se passava e ainda assim é. Sempre em missão e sempre a queixar-se da falta de tempo. E de missão em missão lá vai ela aprendendo, experimentando e crescendo. E uma missão leva a outra e a outra e a outra. Assim como se fosse um daqueles jogos que jogávamos no Juventude, onde tínhamos que ir de nível em nível enfrentando obstáculos e acumulando vitórias até chegar ao boss final para então passar para a ilha seguinte. Ou pelo menos foi mais ou menos isto que imaginei quando esta semana ela anunciou que estava muito ocupada para sair porque estava a escrever um livro.

Senão vejamos… Para que a missão estou aqui ocupada a escrever um livro se concretize há que primeiro passar pela missão só mais uma história, vá lá, vá lá, vá lá! Essa e outras importantíssimas onde nos perdemos dentro das histórias, das músicas, dos espectáculos e se aprende a saborear os livros e as letras.

Concluída esta ilha, passámos à missão seguinte: do aprender a ler e a escrever o som das letras. Missão complicada esta! É que além de ainda não estar muito para ai virada quando começou, teve que aprender em Francês, com letras que às vezes estão lá, mas não se ouvem e outras letras que umas vez soam assim e outras assado. Não satisfeita, decidiu embarcar na missão os meninos devem aprender na sua língua… e ensinar-se a si mesma a aprender a ler a escrever em Português. Pronto. Já lá vão pelo menos mais duas ilhas! E o big boss final foi escrever o seu primeiro livro. E em Português ainda por cima! (Leia-se aqui: a mãe está a rebentar de orgulho!)

Ora, para se escrever diz que é preciso um tema. Normalmente, um tema de que se gosta. Que nos dê prazer falar, sonhar, ler, partilhar… Certo? Certo. Ora, estamos a falar da Carolina. E se há uma missão onde ela é, claramente, a Big Boss é na missão eu adoro todos os animais do mundo e quando for grande quero ser tratadora de animais e viver no meio deles e dar-lhes muita comida e fazer muitas festinhas. Por isso, este livro que foi escrito primeiro em Português e depois em Francês só podia ser dedicado a eles.

Carolina e o seu livro 3

O bom deste jogo é que, ao contrário das máquinas de jogo do Juventude que chegavam ao fim ou davam a volta como dizíamos, este jogo não acaba nunca… há sempre um novo nível, uma nova ilha, uma nova missão a superar. E eu cá estarei para me deliciar com esta Filha Missão e com todas as suas novas aventuras. (inserir emoji sorridente e cheio de baba!)

Domingos preguiçosos

Os últimos fins-de-semana em Phnom Penh têm sido uma roda-viva. É o ano novo chinês, são aulas de jardinagem, sessões de cinema, passeios arquitectónicos, hidro-ginástica, festivais de arte, concertos, jantares com amigos, conferências, workshops disto e daquilo… Para adultos, para crianças, para famílias, dentro de casa, ao ar livre… Parece que andamos numa corrida para aproveitar tudo ao máximo antes que a época quente se instale de vez e a única actividade possível seja a de ficar a vegetar no sofá com a ventoinha no máximo ou, eventualmente, na banheira porque até a piscina está quente demais e a simples ideia de pensar em sair de casa aumenta o grau de exaustão… E pelo caminho, ainda aquelas coisas do costume, tentar trabalhar um pouco, preparar a semana, fazer compras, ajudar nos TPC… Vai daí, um pensamento recorrente nos últimos Domingos tem sido: “amanhã já podia ser Domingo outra vez!”

Foi por isso, que lá em casa declarámos este Domingo, o Dia da Preguiça. Sim, apesar do Pai Nelson ter posto o despertador para ir jogar futebol às 7 da manhã. E do Gabriel ter acordado às 6:30. E de pouco depois já estarmos os dois na cozinha a fazer crepes com mel e canela para o pequeno-almoço. Sim, apesar disso tudo, foi dia de preguiça.

A Carolina apareceu na sala bem mais tarde e, vagarosamente, mudou-se da cama para o sofá. A sua melhor amiga, que lá foi passar o fim-de-semana, apareceu pouco depois e juntou-se a ela no sofá. As duas vinham de cabelos no ar e olhos empapados de quem ficou na conversa até bem depois da hora…

Infelizmente, esta coisa da preguiça nas crianças passa rápido. Demasiado rápido. Um bocadinho de sofá, dois episódios de Tivi5 e uns crepes com nutella são o bastante para repor os níveis de energia… E o Gabriel, bem o Gabriel tem dois anos. Ponto. Ora, se queríamos manter o nível de preguiça, tínhamos que arranjar um plano de sobrevivência. E já.

Com os cérebros claramente a meio gás, só conseguimos pensar em duas opções para salvar o dia: ir almoçar fora (e assim, evitar cozinhar e lavar loiça, que aqui não há esse objecto divino que se chama máquina de lavar loiça) e tirar as crianças de casa (antes que comecem a trepar paredes!).

“Meninos! Vamos passear!” (“Oh Não!”) “É capaz de haver batatas fritas!” (“IUPI!”) (Não houve, mas também ninguém se chateou por causa disso…)

Chapéus na cabeça, protector solar e carrinho de bebé, lá fomos nós de passeio até um cafézinho simpático, pertinho de casa, com comida boa e o melhor chocolate do Cambodja! Mas a verdadeira razão que nos levou até lá foi outra. Mesmo ao lado fica uma verdadeira relíquia, uma biblioteca comunitária, gerida por uma pequena associação chamada Au livre Ouvert e que tem como objectivo promover o prazer da leitura num país pouco dado aos livros. Com livros em Khmer, Inglês, Francês, Vietnamita, Alemão e muito provavelmente em Português, tem histórias do tamanho do mundo para todas as idades, gostos e aspirações. E tem também brinquedos. E outras crianças. E anda-se descalço. E foi assim que entrámos na nossa tarde, vagarosamente, entre livros, legos e sestas nas almofadas…

De regresso a casa, e para terminar o dia em beleza, os pais ainda tiveram direito a um luxo raro: SESTA! Nós e o pirata, enquanto as duas pulguinhas saltitantes aproveitavam as últimas horas em conjunto entre jogos, porquinhos da índia e conversas de raparigas.

Bom, bom. Nada como um Domingo preguiçoso. Boa semana para todas e para todos!

Escola de Magia

Rainbow Girl

Conversas soltas a caminho da escola…

“- Mãe, vamos chegar atrasadas…

– Tens razão, não percebo porque os carros não avançam.

– Queres que faça a minha magia? É muito rápida!

– Sim, já agora, se faz favor…

(Silêncio)

– Viste, já estamos a andar, parece que andou.

– É verdade, resultou mesmo, obrigada! Fizemos a avenida toda sem voltar a parar…

(Silêncio, explicação sobre como se faz o poder de acelerar, o poder de parar, o poder de fazer contas, silêncio)

– Sabes, a Y e a A não acreditam em magia. O que é que tu achas?

– Eu acho que há pessoas que não conseguem ver a magia e por isso não acreditam que ela existe.

– Pois, eu é que tive muita sorte porque os unicórnios ensinaram-me a fazer magia e, por isso, eu acredito.

– E eu também tenho muita sorte porque tenho uma pessoa mágica ao pé de mim.

– Pois e eu posso fazer magia por ti. No outro dia também fiz este poder dos 20 com o pai no tuk tuk e resultou. Ele também tem muita sorte. Pena não poder fazer magia na escola, senão podia ensiná-las.

– Pois filha, é mesmo uma pena que não se possa ensinar magia nas escolas.

– Sabes o que eu gostava mesmo? Era de ir para uma escola de magia.

– E eu gostava muito que fosses para essa escola. Vamos procurar. Se houver uma e a encontrarmos, prometo que vais!”

E agora, onde é que eu arranjo uma Hogwarts em Phnom Penh?

Pó de Chocapic

 

Conversa de hoje de manhã.

Eu – Que queres comer?
Carol – Chocapic
Eu – Pois, isso não pode ser, são pouquinhos, temos que ir às compras.
Carol – Há sim, há o pó. Podemos fazer chocapic com o pó. (Pó – Aquele resíduo de cereais que fica no fundo do pacote)
Eu – Ó filha, não podemos nada, temos que ir comprar.
Carol – Mas porque é que vocês NUNCA confiam em mim!!! Eu sei que dá. Eu já fiz com os Unicórnios!
Eu – Ok, Se já fizeste com os unicórnios, estás à vontade! Bom apetite!

Eu – Então? Está bom?
Carol – Sim, estás a ver, o leite ficou castanho e ficaram uns bocados maiores. Se tivesse esperado para crescer (como no pão) tinha ficado mesmo com a forma dos chocapic.

Ok… E assim se começa o dia. O primeiro de quatro dias de fim-de-semana prolongado. (Suspiro!)