Porque há dias assim…

Gosto de trabalhar a ouvir esta senhora. As suas músicas são assim como ela, poderosas, suaves, belas, inspiradoras, melancólicas e ao mesmo tempo carregadas de energia.

Porque me acompanha há tanto tempo, tem também a capacidade de me fazer viajar para sítios distantes onde fui tão feliz. Hoje é um desses dias.

Prendas para a Vida.

Escrevi este pequeno desabafo há um ano atrás, quando ainda estávamos no Cambodja…

“Ser emigra há quatro anos é também ter todos os cadernos de notas escritos em inglês, falar numa língua com a pessoa à direita e noutra com a pessoa à esquerda, mas raramente falar na nossa. É dizer Gaibriel em vez de Gabriél, é ouvir a filha a dizer “coconut muy” e corrigir para “dong muy” em vez de “um coco”. É ter um filho que diz água, shoe e main. É ter uma filha tão poliglota que os comentários de tagarelice na sala chegam ao fim do primeiro mês de aulas e não no fim do ano como costume. É não saber que língua se está a falar, pensar em “estrangeiro” e achar que há expressões que resultam melhor noutra língua que não a nossa, mas que também deve ser nossa se nos ocupa 90% do tempo. É também ter muito mais respeito por todas aquelas pessoas que no verão voltavam a casa com os seus avecs e vien ici e saber que não é mania, é mesmo assim. Enfim, o dia está cinzento, deve estar bom para a melancolia.”

O dia por aqui também ainda acordou meio cinzento. O tão aguardado Verão africano teima em não chegar. Mudámos de país, estamos agora “quase que como em casa” e com isso, também perdemos um pouco desta diversidade linguística. Os dias já não são passados maioritariamente noutra língua que não a nossa. As pesquisas no google começam já a ser feitas em Português, mas o pensamento ainda teima em ter explosões em Inglês. Aqui não há Khmer, mas há Changana, do qual não sei mais que Kanimambo. Mas estamos em conflito e continuamos a fazer por nos manter fora da bolha fácil do Português. Porque não sabemos onde estaremos a seguir. E porque nos agrada este malabarismo constante entre línguas, pessoas e modos de estar.

Tenho hoje a certeza que saber línguas é uma chave para o mundo. E é a melhor prenda que se pode dar a alguém. Porque quando falamos outras línguas aprendemos também a ver o mundo sobre outros olhos. Porque língua também é cultura. E é esta diversidade cultural que nos torna mais ágeis, mais aptos, mais tolerantes e mais desenrascados (essa coisa tão portuguesa).

Para os meus pequenos exploradores poliglotas apenas isto: Se nada mais sobrar deste constante saltitar de país em país, que sobre isto, esta capacidade que hoje têm partir à descoberta, de conhecer, de explorar, de aceitar e de se desenrascar em qualquer ambiente, em qualquer parte do mundo. E que o céu é o limite (para já). Sem medos, porque o mundo, eles já o sabem bem, é do tamanho de uma ervilha.

 

Nota: Esta foto foi tirada à chegada ao Laos em 2014, durante a nossa aventura asiática. Era na altura, o terceiro país da Carolina, depois de Portugal e do Cambodja, e o primeiro do Gabriel, na altura com apenas 3 meses.

Viver a vida com a casa às costas

Hoje de manhã quando saíamos de casa deparei-me com este caracol absolutamente gigante. Não tendo um objecto ao lado para comparar poderá ser difícil perceber a real dimensão do bicho, mas, assim a olho nu, posso assegurar que tem tamanho suficiente para ser considerado um Senhor Caracol! A sério, grande, gigante!
Achei piada ao Sr. Caracol. Já ele olhou para mim com o mesmo ar que encontro na maioria dos expatriados com que me cruzo por estas bandas. Tipo, “Só cá estás há quatro meses. Hum, pois… (Novata, pensam) eu já cá ando há quatro anos”, dizem eles com ar de quem sabe tudo, mas não vai partilhar nadinha. A não ser que peças, muito, claro. Coisa que, quem me conhece, sabe que bem podem esperar bem sentadinhos. E ficamos assim mesmo. Salvo raras e boas excepções, claro.
Mais espantoso ainda é que ele sobreviva dia após dia. De acordo com fontes seguras, o Sr. Caracol já por aqui anda há algum tempo. Aparentemente, o senhor vive junto ao nosso portão e gosta de atravessar de um lado para o outro, colocando-se em sério risco de ser atropelado pelo carro mais feio de Vientiane, o nosso, claro! Mais tarde, ao voltar a casa dei por mim a fazer marcha-atrás e a corrigir a rota, de modo a evitar passar por cima do dito Sr. Caracol).
Numa altura em que nos preparamos, mais uma vez, para soltar amarras e voltar a por a casa às costas, acho fantástico que este senhor Caracol, traga consigo toda a sua vida, ali, naquela casa móvel que o acompanha. Sem malas, sem tralhas, sem complicações. Um dia, quando for grande, hei-de ser assim, destralhada. Só com bagagem na memória, no porão do avião e, vá lá, no disco externo! Ou talvez não.