As senhoras estão muito cansadas.

Hoje tive que ir ao banco. Coisa para durar uma hora de tempo, como se diz por aqui. Ou mais.

Como ir ao banco é coisa para durar muito e muito tempo, há pessoas que esperam sentadas e outras que esperam, em fim, em pé. Independentemente do lugar na fila que ocupam.

Hoje não foi excepção. Chegar, preencher o papel (que no final não serviu para nada) e ir para a fila. Tudo como sempre. Até que… Duas cadeiras ficaram vagas. E olharam para nós. Eu e a mamã que estava à minha frente. E um senhor fez sinal com a mão para que, eu e ela, nos sentássemos. Agradecemos e lá fomos em direcção às tais cadeiras.

Eis senão quando, quase ao mesmo tempo, o senhor que estava ao meu lado acrescenta: “sim, podem sentar-se. Nós somos mais jovens podemos ficar de pé.”…

“Desculpe?! (Inserir imagem de chamas a saírem dos nossos olhos raiados ao mesmo tempo que esboçamos aquele sorriso parvo do “deves estar a brincar!”) Está a chamar-nos velhas?”

“Bem, não”… tentou ele, meio atordoado pelo olhar fulminante. “É só porque sei que as mulheres estão sempre mais cansadas… Porque passam muito tempo na cozinha e tal…”

Estava eu já de lança chamas na mão quando a mamã, em toda a sua grandeza, levanta a mão, faz sinal para que se cale e em toda a sua sabedoria diz: Está dito, não há como desdizer.

Não tem como mesmo. É isto. Em pleno 2018.

Um pouco de tempo mais tarde, o senhor lá arranjou uma cadeira para descansar as suas jovens pernas. E do alto de todo o seu cavalheirismo passou à nossa frente.

Estive quase para lhe ir dizer: “Tem toda a razão, caro senhor. As senhoras estão muito cansadas. Mas não é da cozinha.”

(E eu que não sou cá de coisas, só espero que lhe apareçam sempre muitas cadeiras na vida. Para ir descansando as suas jovens pernas enquanto espera por essa dama que lhe vai preparar a papinha toda.)

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Este não é um post bonito

Este não é um post bonito, porque a vida também não é sempre bonita. A vida pode ser bela e fantástica num minuto e bem feia no minuto seguinte. É assim mesmo. Todos o sabemos. E a vida em Maputo não é diferente.

Se por um lado é um privilégio viver numa cidade à beira-mar plantada, com uma luz que irradia, avenidas grandes com árvores, parques para passear os miúdos, capulanas garridas e cajus torrados, bairros de casas brancas, bom café e óptimos pasteis de nata, também há o outro reverso da medalha.

A vida tem tudo para ser fácil por aqui, mas há sempre aquele mas, aquela coisinha que te consome, que te tira do sério. E ultimamente os dias têm andado polvilhados dessas pequenas coisinhas. E tudo te irrita. Sobretudo quando passas o marco dos primeiros seis meses num país e acaba a lua-de-mel…

São as infiltrações, os buracos, a criminalidade, as praias cheias de cacos de vidro, os cocos que apodrecem na beira da estrada, as prateleiras vazias, o custo exorbitante de produtos básicos, as saudades do mimo asiático, a falta de um bom restaurante vietnamita…

Ontem foi a seca que me irritou. A seca extrema que se vive em Maputo, quando o resto do país está em alerta para o risco de cheias. Quando o país é atravessado por ciclones que destroem tudo o que apanham, Maputo não tem água. Vai para um mês. Não chove aqui e não chove no ponto de captação, na Suazilândia, pelo que a barragem que abastece a cidade está no limite. Como medida protectora, a água da rede é cortada por zonas para obrigar a poupar água. Por vezes um dia, por vezes dois, por vezes quatro…  Quem pode, compra água para encher depósitos gigantes. Quem não pode fica sem água nos furos, porque os grandes camiões-cisterna vão lá abastecer para vender aos que podem… Mas não se ensina a poupar a água. Não se explica que a água não é infinita. Que há alterações climáticas. Não há qualquer tipo de educação ambiental. E, por isso, desde que haja água na torneira, lava-se o carro, rega-se a relva, lava-se o passeio, metem-se os cortinados na máquina…

Tentamos fazer a nossa parte. Poupamos e tentamos ensinar as pessoas que nos rodeiam. Vamos verificando o nível da água no depósito. Após três dias sem água da rede ainda está a meio. Fantástico, pensamos. Entretanto, a água há-de vir, como se diz por aqui.

E depois chegamos a casa ao final do dia e nem pinga de água! Nem uma gota. Puf… Porque os senhores que vieram reparar as infiltrações e arranjar (ou destruir) as casa-de-banho gastaram meio depósito em meia-dúzia de horas. Onde, não sei. Dizem que estavam a testar. E para testar, não usaram os garrafões e os bidons de água reservada como lhes tínhamos dito, mas a torneira (claro!). E para testar, gastaram o mesmo que nós tínhamos gasto em três dias!!! É para ficar com raiva, certo?

Sem água para cozinhar e lavar loiça, fomos jantar fora. No regresso, usámos os tais garrafões para tomar um duche de caneca (10l dão para quatro, sabiam?) e para as aflições de casa-de-banho e água potável para lavar os dentes. E cruzámos todos os dedinhos para que a água voltasse hoje de manhã (ou já tínhamos um contacto dos tais senhores que roubam água para vender a preço de ouro).

Felizmente, a água voltou de manhã. Mas quando os senhores das obras chegaram estava ainda zangada. Não tanto como ontem, mas ainda o bastante para lhes abrir a porta com cara de poucos amigos. E para lhes dar uma bela reprimenda. E uma lição sobre poupança.

E fui fazer o meu café, zangada por ter que ficar em casa a tomar conta deles e terem chegado uma hora e meia depois do combinado. E depois vieram-me pedir água quente para tomar chá. E caiu-me tudo. E lembrei-me do sítio onde estou. Perguntei se tinham chá. E responderam “não, mãe, só temos açúcar”. E tu sabes o que isso significa. Fome. Muita fome. Por aqui, as pessoas sobrevivem apenas. Passam fome a sério. Uma fome que nunca vamos compreender. E quando as pessoas têm fome, não pensam em poupar. Pensam em sobreviver. Vasculham os caixotes do lixo à procura de comida. E comem ali mesmo. E passam o dia com água com açúcar no estômago. E a noite. E isso nota-se no olhar. Um olhar de fome que me era desconhecido. E que me moi. Muito. E que rapidamente me tira da raiva e me deixa só absolutamente triste. Não devia ser permitido viver assim.