O lado jasmim da vida

Parte de estar longe, é aprender a lidar com as coisas não vividas, com o não estar presente no momento certo, o não partilhar as alegrias e as tristezas. O início da vida e o fim da mesma. A vida vai correndo ao sabor dos fusos horários, das luas e dos soís que se põem em lados opostos, obrigando a uma distância que se quer curta, mas que teima em se afirmar mais e mais a cada dia, mês e ano que passa.

Estar longe, é também aprender a lidar com a inveja que se sente quando percebemos que quem lá fica consegue viver sem nós, que preenche o espaço que nós deveríamos ocupar com outras pessoas, com outras vivências. De repente, já não somos os primeiros na linha. E ficamos magoados com isso. Mas que fizemos nós para que isso não acontecesse? Seria tal possível? Agora não dá, agora é de noite, agora estão no trabalho, agora já não interessa… E adiamos e esquecemos. Ou insistimos e não corre como esperado, porque o tempo não congela.

Mas estar longe, é também aprender a aceitar tudo isto. Não foram só os outros que mudaram, nós também. E muito. O tempo não congelou lá do outro lado do mundo, continuou a correr, tal como aqui. E é aprender a lidar com essa diferença e relativizar. E celebrar o que se tem. Aprender que se queremos mais, também temos que dar mais. Aprender a lidar com as ausências, com os momentos não vividos, com as expectativas que caem, com as amizades que mudam, com as memórias que se esbatem e não são retocadas. Mas também com as amizades que renascem de forma inesperada. Com os pequenos gestos, com palavras inesperadas que surgem no momento certo.

Afinal, estar longe é aprender a lidar com tudo isto, aprender a estar perto, estando longe. Aprender a tirar a culpa, a inveja, o ressentimento e aceitar o que vem. Aceitar as decisões, as nossas e as dos outros. Ser generoso. Ser feliz com felicidade dos outros. Sentir à distância a tristeza dos outros. E cheirar o jasmim. Ou como dizem os budistas por aqui, é aprender a ser livre e deixar ir… “all the bad things out, all the good things in…”

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A vida é engraçada.

 

A vida dá voltas engraçadas. Se nós deixármos, claro.
Há quatro anos atrás, acabadinha de chegar ao Cambodja, quando confrontada com a hipótese de ficar sozinha no sítio mais turistico do mundo, Siem Reap, numa mansão com segurança 24h pensei: Desculpa?! E se nos acontece qualquer coisa? E se somos assaltadas, raptadas, partimos um dedo, sei lá?!
Quatro anos depois, ando no meio do mato. Literalmente. Uma semana de montanha, caminhos tt, kuiteos e a mais completa imersão cultural nas comunidades indígenas deste país. E a ser paga para isso! E só paniquei (um bocadinho) quando o tal moço que me deixou uns dias há quatro anos atrás me disse: “não saias da estrada. A probabilidade de haver minas é mínima, mas nunca se sabe”… Ahah! Está bem,  mas isto ninguém me tira.

Escola de Magia

Rainbow Girl

Conversas soltas a caminho da escola…

“- Mãe, vamos chegar atrasadas…

– Tens razão, não percebo porque os carros não avançam.

– Queres que faça a minha magia? É muito rápida!

– Sim, já agora, se faz favor…

(Silêncio)

– Viste, já estamos a andar, parece que andou.

– É verdade, resultou mesmo, obrigada! Fizemos a avenida toda sem voltar a parar…

(Silêncio, explicação sobre como se faz o poder de acelerar, o poder de parar, o poder de fazer contas, silêncio)

– Sabes, a Y e a A não acreditam em magia. O que é que tu achas?

– Eu acho que há pessoas que não conseguem ver a magia e por isso não acreditam que ela existe.

– Pois, eu é que tive muita sorte porque os unicórnios ensinaram-me a fazer magia e, por isso, eu acredito.

– E eu também tenho muita sorte porque tenho uma pessoa mágica ao pé de mim.

– Pois e eu posso fazer magia por ti. No outro dia também fiz este poder dos 20 com o pai no tuk tuk e resultou. Ele também tem muita sorte. Pena não poder fazer magia na escola, senão podia ensiná-las.

– Pois filha, é mesmo uma pena que não se possa ensinar magia nas escolas.

– Sabes o que eu gostava mesmo? Era de ir para uma escola de magia.

– E eu gostava muito que fosses para essa escola. Vamos procurar. Se houver uma e a encontrarmos, prometo que vais!”

E agora, onde é que eu arranjo uma Hogwarts em Phnom Penh?

O circo

Tini Tinou - International Circus Festival - May 8th 2015, Phnom Penh, Cambodia
Tini Tinou – International Circus Festival – May 8th 2015, Phnom Penh, Cambodia

Estar de volta ao Cambodja, é também estar de volta a uma das nossas actividades preferidas, o circo. Adoro este tipo de circo, acrobático, dinâmico, colorido e ritmado. Daquele que chegamos ao fim cheios de energia e boa disposição.

Phare, a companhia de circo do Cambodja, tem-nos proporcionado noites fantásticas cheias de cor, ritmo, magia e diversão desde o tempo em que viviamos em Siem Reap e que vimos a sua estreia com Putho. E foi isso que tivemos este fim-de-semana no Tini Tinou, o Festival International de Circo que anda a percorrer as principais cidades do reino.

Para começar, uma actuação da Escola Nacional de Circo do Cambodja, seguida de um grupo de ginástica rítmica da Suiça, Les Papillons. Duas apresentações fantásticas para encher os olhos da princesa caracolinhos que olhava fascinada para as bailarinas e os seus acessórios cheios de cor e brilho. E uma oportunidade também para fazer a tia Célia brilhar quando lhe dissemos: “sabes, a tia Célia é muito boa a fazer esta dança com as fitas e os arcos, tens que lhe pedir para te ensinar!” (Célia, faz favor de treinar, tens um mês e meio!)

A actuação do grupo de Taiwan, Formosa Circus Arts foi absolutamente brilhante. Fica aqui um cheirinho da performance de diablo foi uma das mais fantásticas que já vi (e já vi umas quantas!). Aqui foi a vez do pirata ficar completamente embasbacado a olhar para todas estas acrobacias. Foi a sua segunda ida ao circo e acho que podemos dizer que temos mais um fã! Tanto, que até decidiu explorar as escadas para cima e para baixo até encontrar O lugar! E ai se sentou feliz a dançar e aplaudir todos os movimentos.

A alegria e boa disposição de Phare é contagiante, mesmo quando trazem a cena uma peça como Sokha, que fala sobre a invasão dos Khmers Vermelhos. Foram muitos rostos fechados, alguns silêncios difíceis de digerir. Ainda ontem a Carolina perguntava porque é que a guerra vinha de noite. E se havia fantasmas. Felizmente, estes momentos mais pesados foram na altura aliviados por este final cheio de energia característico do circo cambodjano. Desde a primeira vez que os vimos em 2013, a evolução é gigante e fica a vontade de voltar para ver a peça completa.

E para terminar, mais umas fotos de família para o álbum…

TIni Tinou - With the Crew Tini Tinou - Phare

Citronella

IMG_2014

Decido começar a minha semana com um pequeno-almoço tranquilo num dos meus espaços preferidos em Phnom Penh. Sento-me na mesa do costume, tiro o computador e recosto-me na cadeira. Três pessoas com ar de turistas recém chegados à Ásia sentam-se na mesa ao meu lado. Cada um tem 3 adesivos anti-mosquitos. 9 adesivos numa só mesa, deve ser para ai uma caixa inteira. É demasiada citronella por m2. Meus senhores, os mosquitos já fugiram, a malária e a dengue também e o meu capuccino poderia estar a saber muito melhor!

Viver a vida com a casa às costas

Hoje de manhã quando saíamos de casa deparei-me com este caracol absolutamente gigante. Não tendo um objecto ao lado para comparar poderá ser difícil perceber a real dimensão do bicho, mas, assim a olho nu, posso assegurar que tem tamanho suficiente para ser considerado um Senhor Caracol! A sério, grande, gigante!
Achei piada ao Sr. Caracol. Já ele olhou para mim com o mesmo ar que encontro na maioria dos expatriados com que me cruzo por estas bandas. Tipo, “Só cá estás há quatro meses. Hum, pois… (Novata, pensam) eu já cá ando há quatro anos”, dizem eles com ar de quem sabe tudo, mas não vai partilhar nadinha. A não ser que peças, muito, claro. Coisa que, quem me conhece, sabe que bem podem esperar bem sentadinhos. E ficamos assim mesmo. Salvo raras e boas excepções, claro.
Mais espantoso ainda é que ele sobreviva dia após dia. De acordo com fontes seguras, o Sr. Caracol já por aqui anda há algum tempo. Aparentemente, o senhor vive junto ao nosso portão e gosta de atravessar de um lado para o outro, colocando-se em sério risco de ser atropelado pelo carro mais feio de Vientiane, o nosso, claro! Mais tarde, ao voltar a casa dei por mim a fazer marcha-atrás e a corrigir a rota, de modo a evitar passar por cima do dito Sr. Caracol).
Numa altura em que nos preparamos, mais uma vez, para soltar amarras e voltar a por a casa às costas, acho fantástico que este senhor Caracol, traga consigo toda a sua vida, ali, naquela casa móvel que o acompanha. Sem malas, sem tralhas, sem complicações. Um dia, quando for grande, hei-de ser assim, destralhada. Só com bagagem na memória, no porão do avião e, vá lá, no disco externo! Ou talvez não.

The Little House

The Little House

“The Little House” é um nome de um pequeno café perdido no meio de Vientiane. Não tem página no Facebook nem sítio na net. Não tem wifi nem se deixa encontrar pelo Google Maps. Aliás, dificilmente se deixa encontrar por quem não o procurar. Quem por ali passa, raramente repara que, para lá das árvores e do bambu, há uma pequena casa de madeira, sempre de portas abertas para quem quiser entrar. E ainda bem, digo eu, egoisticamente.
O espaço é simples, rustico e discreto. A dona é japonesa e talvez, por isso, seja sobretudo frequentado por japoneses. Talvez também, por isso, as empregadas se movimentem calma e silenciosamente, fazendo lembrar as gueixas dos filmes. O silêncio é apenas interrompido pelo barulho dos pássaros e pela máquina de moer o café. E que bem que cheira o café acabado de moer!…
Conheci este espaço por acaso, acabadinha de aterrar no Laos. Um dia, ao entrar de forma atabalhoada num restaurante da cidade à hora de almoço, ainda com as duas crianças atreladas a mim, ouço: “desculpe, falam português? São portugueses?”… Conversa puxa conversa e português que é português gosta de tomar café depois de almoço (e de manhã e à tarde… enfim…). Foi assim, que esse português vindo do nada me disse que me ia levar ao sítio onde serviam o melhor café da cidade. E não me enganou.
Haverá melhor forma de começar o dia do que sentar-me confortavelmente num grande ratan, a beber café e a olhar para o verde e para luz do sol que atravessa a copa das árvores e ilumina radiosamente o espaço? Melhor do que isso, só se o café fosse torrado no local. E se fosse possível escolher o tipo de torra. E melhor ainda, só se fosse moído na hora, deixando aquele fantástico aroma a café invadir o espaço. Melhor do que isso, só mesmo se o bebermos tranquilamente, enquanto o bebé dorme. Ou enquanto trocamos dois dedos de conversa com alguém que acabámos de conhecer. E o melhor, é que é mesmo assim.
É por isso que, se voltasse a encontrar este tal português lhe diria: Obrigada! E lhe diria também que o baloiço de madeira pendurado na árvore não foi feito para a filha da dona. Esse tal baloiço está ali, tal como estão as duas árvores e o caminho de entrada, porque aquela pequena casa foi inspirada no livro “The little house” de Virginia Lee Burton, escrito em 1942. Isto disse-me um menino inglês, que descobriu no meio das estantes cheias de livro em japonês, a versão em inglês do livro e a veio contar ao bebé.

Para os avós.

 

No Dia da Criança, a avó Mena mandou algumas fotos-miminhos para os netos. Esta era uma delas. O comentário da Carolina foi: “Xiii, o mano era mesmo bebezinho!”.
A avó Mena e o Avô Adérito são pessoas fantásticas. Ou, usando uma palavra que eles gostam muito de usar, são pessoas ESPECTACULARES. A vida tem-lhes pregado umas quantas partidas menos simpáticas (para ser também simpática no termo a usar). Apesar disso, mantém sempre o sorriso e a vontade imparável de lutar. Por eles e pelos outros. Muitas mais vezes pelos outros. Para a Carolina, a avó Mena é uma médica que gosta de ajudar os outros e que faz pasteis de carne. Já o avô Adérito é pastor, trata dos animais da quinta e trabalha numa carruagem de comboios. Lindo.
Nem sempre é fácil gerir esta coisa de se viver cada um na sua ponta do mundo. Faz-se o que se pode para gerir a distância, as memórias e a saudade. Felizmente, a tecnologia ajuda-nos bastante, contam-se as novidades, os netos mostram as suas gracinhas, rimo-nos com as parvoíces e aborrecemo-nos com as falhas de rede. De repente ficamos todos um pouco mais perto. Mas ainda assim, há coisas que não se substituem. Há coisas que fazem falta. Sobretudo em dias como o de hoje, em que mais uma vez, as forças são colocadas à prova. É, por isso, que, em especial no dia de hoje, daqui para ai vai um beijinho, um abraço e uma festa. Mas assim daqueles de partir pescoços. De todos nós. Para os pais e os avós mais espectaculares do mundo.

Pó de Chocapic

 

Conversa de hoje de manhã.

Eu – Que queres comer?
Carol – Chocapic
Eu – Pois, isso não pode ser, são pouquinhos, temos que ir às compras.
Carol – Há sim, há o pó. Podemos fazer chocapic com o pó. (Pó – Aquele resíduo de cereais que fica no fundo do pacote)
Eu – Ó filha, não podemos nada, temos que ir comprar.
Carol – Mas porque é que vocês NUNCA confiam em mim!!! Eu sei que dá. Eu já fiz com os Unicórnios!
Eu – Ok, Se já fizeste com os unicórnios, estás à vontade! Bom apetite!

Eu – Então? Está bom?
Carol – Sim, estás a ver, o leite ficou castanho e ficaram uns bocados maiores. Se tivesse esperado para crescer (como no pão) tinha ficado mesmo com a forma dos chocapic.

Ok… E assim se começa o dia. O primeiro de quatro dias de fim-de-semana prolongado. (Suspiro!)

É Natal, É Natal!!! E ainda só estamos em Maio.

 

Hoje foi dia de ir aos correios levantar a tão aguardada encomenda! Só por si, isto já era um acontecimento fantástico. Mas há todo um conjunto de variáveis que o tornam ainda mais emocionante.
Em primeiro lugar, o simples facto da encomenda ter chegado já é digno de celebração. Ter chegado em apenas 8 dias dá direito a abrir uma garrafa de champagne! Isto porque até agora a experiência com encomendas internacionais foi sempre, digamos, peculiar. Passo a explicar…
Quando o Nelson estava em Angola, consegui que uma pessoa conhecida da família enviasse uns pequenos mimos de Natal por mala diplomática. Coisa pouca: um bacalhau, uns enchidos, mel, um vinho decente, uns livros, uns cabos… ah! e uma garrafa de vodka moldava que a Alexandra da minha mãe tão carinhosamente ofereceu para o Sr. Nelson. Como ele foi passar o Natal para a montanha, sem rede, esqueci-me de perguntar se tinha recebido as coisas. Algum tempo mais tarde, finalmente lembrei-me de perguntar e a resposta foi: “Sim, recebi! (e gostaste?) Sim.” Confesso que contava com mais entusiasmo, mas está bem, assim ficou. Passado algum tempo, descubro finalmente o motivo para tal. Parece que, durante o processo, a mala de viagem cheia de prendinhas (embrulhadas e tudo!) se transformou num saco de plástico com uma garrafa de vodka aberta e um livro! Imagino o que ele deve ter pensado…
Para Timor, enviei várias encomendas. Era barato e diziam (diziam…) que demorava só dez dias. Cerca de um mês antes do Natal decidi enviar uma daquelas caixas térmicas de esferovite mais uma vez cheia de produtos típicos. Quando me meti no avião rumo à terra do sol nascente decidi, pelo sim, pelo não, levar o jantar da consoada comigo na mala de viagem. Toda eu tremia cada vez que passava no raio-x com receio que me perguntassem o que eram aqueles rectângulos embrulhados em prata. Bacalhau, Sr! Bacalhau! Pensava eu. Mas ninguém perguntou. E ainda bem, porque a encomenda só chegou bem mais tarde e já bem bolorenta por sinal.
No Cambodja, as opiniões sobre os serviços de correios eram divergentes. Não chega. Nunca tive problemas. Chega uma em cada quatro… Como era caro e não tínhamos grande necessidade, a nossa experiência limitou-se ao eventual envio de postais. Contudo, quando saímos do país, apesar de tudo o que demos e vendemos, apesar dos 120kgs que trouxemos connosco e da tralha que deixámos para trás à última da hora porque as malas já não fechavam, decidimos fazer uma experiência. Enchemos uma caixa com 8 kgs de fotografias (acreditem, 8 kgs é muita fotografia!). Como tínhamos os negativos e a maior parte até estavam digitalizados, o risco, caso a encomenda se perdesse, não seria grande. Passou-se um mês, dois meses, três meses… até que descobrimos que ela estava de novo no Cambodja! Pedimos a uma amiga que a fosse levantar. A caixa estava em péssimo estado depois de ter viajado por sítios como a Tailândia, Hong Kong, França e Canadá, mas as fotografias estavam intactas.
Ora, estas peripécias poderiam levar-nos a pensar que o melhor seria deixar os correios internacionais em paz, especialmente, quando envolvem viagens intercontinentais. Sim, seria a atitude mais sensata. Pois. Mas, e o que fazer desta menina que, resolvendo encher as malas de roupa e traquitanas de bebé e criança, se esqueceu de trazer roupa e traquitanas para a própria? E, se toda a gente diz que os correios funcionam e que recebem tudo o que encomendam, nós ficamos aqui sem experimentar? Nem parecia bem. E lá convencemos a família a gastar uma pipa de massa para nos fazer cá chegar 3 quilinhos de mimos, sem ter a certeza se, de facto, cá chegariam ou não! Mas chegaram! Mesmo! Iupi!

Nota: Este texto foi escrito antes de ir experimentar a roupa, não fosse dar-se o caso da dita não servir e ficar subitamente de mau-humor!