O Soldado João

Quando a Carolina nasceu, a avó ofereceu-lhe “a Fada Palavrinha e o Gigante das Bibliotecas” da Luísa Ducla Soares. Perdi a conta à quantidade de vezes que contámos essa história, que foi a sua preferida durante muito, muito tempo (mas vai para mais de uma centena, concerteza!). Foram tantas, tantas que a sabíamos de cor (e nada de tentar abreviar caminho, por que ela dava por falta da pausa da vírgula, quanto mais das palavras!). Gostávamos tanto, tanto desta história, que a oferecemos a quase todos os nossos amiguinhos que nasceram nos últimos anos.

Hoje a nossa menina está mais crescida. Continua a adorar livros e não passa sem uma história ao deitar. Histórias de fadas e coelhos, galinhas e princesas, lobos e cabritinhos, sapos e porquinhos. Em Português, em Inglês ou em Francês. E às vezes todas as línguas ao mesmo tempo. Mas agora a princesa também gosta de ser ela a ler as histórias de encantar. Começou por ler pequenas histórias em Francês, que depois passaram a médias histórias (como ela diria no seu Português-afrancesado). Passou depois para o Inglês. Percurso normal, de menina da Escola Francesa que tem um ensino bilingue.

Até que certo dia começou a escrever coisas esquisitas no quadro lá em casa. Primeiro em segredo. Depois, à medida que foi ganhando confiança, começou a vir chamar-nos. “Lê o que escrevi”, dizia com orgulho. As palavras esquisitas que ali víamos, era a forma dela escrever na nossa língua, com as regras que conhecia. Escrevia em Português, mas fazia o som das letras em Francês. Brilhante, pensávamos nós. Ainda não foi desta, pensava ela, tristonha. Dizíamos-lhe que não, que era fantástico que tivesse chegado até ali sozinha, sem nunca ter aulas de Português. Fomos-lhe explicado aquilo que nos pedia, o som das letras em Português, algumas regras. Devagarinho, dando-lhe espaço para ser ela a fazer as suas descobertas, como era a sua vontade. Nas férias de Natal, fomos a casa. Quis levar consigo os livros franceses e ingleses, mas nem lhes tocou, só queria histórias em Português. E tentava e ensaiava… E lia e relia. E escrevia bilhetes e postais para a família e os amigos. Tudo em Português. E melhorava.

No regresso das férias, quis ler a história d'”O Soldado João” também da Luísa Ducla Soares. Primeiro pediu-nos que a lêssemos. Depois foi a vez dela. Uma história linda, é certo, mas cheia de páginas e páginas de letras e palavras e frases, mais ou menos complicadas. Todos os dias lia uma página, às vezes duas. Umas vezes rápido, outras não tanto. Umas vezes com ajuda para encontrar os sons, outras nem por isso. Mas leu, todinha. Terminou ontem. O seu primeiro grande livro. Que passo gigante, pensava eu.

Que história bonita esta de um soldado-menino que vai à guerra distribuir flores e cafézinho quente para o pequeno-almoço. Tal como o soldado João, ela mostrou-nos que vale a pena desafiar as normas e lutar por aquilo em que se acredita. Mesmo que sejamos uma pequena minoria a dançar no meio de uma multidão de gente zangada. Por isso, mais do que me preocupar porque é tarde e ela está a brincar em vez de fazer as fichas aborrecidas do TPC que ninguém corrige ou porque a professora comenta que ela ainda “écrit très lentement et donne des petites erreurs dans l’écriture”, vou parar para pensar: “Não. Ela tem apenas 7 anos e devora livros. Em Francês, em Inglês e em Português. Et cella suffi!”

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O Skit – o cão caminheiro

Encontrei esta foto por acaso no meu telemóvel enquanto procurava por uma outra foto para um outro texto do blog (que há-de ficar para outro dia…). Não me lembro sequer de tê-la tirado, imagino que tenha sido durante as nossas férias relâmpago na Tuga, mas ao deparar-me com ela não pude deixar de ficar emocionada. Que foto mais doce.

O Skit era o cão da minha prima Rita. Uma mistura de Basset Hound e Dachshund, de smoking ao peito e voz grossa, era um cão deveras especial.

Chegou até nós numa tarde de Inverno, há 14 anos atrás, quando estávamos todos reunidos na casa do Castelo para comemorar o aniversário da minha mãe. Apareceu ele, uma mana malhadinha e a sua mãe, igualzinha a ele. Ao ver três cães tão diferentes num lugarejo tão pequeno quanto Évora Monte, foi num instante em quanto os puxámos para casa, demos de comer e saimos à procura dos donos. Ninguém parecia conhecê-los até que uma senhora se lembrou que um médico de Lisboa tinha uma quinta com uns cães assim “rodinhas baixas”. Não tardou muito até se localizar a quinta e o telefone do tal médico que já ia a caminho de Lisboa sem saber que os cães andavam no passeio.

Entretanto, a menina Rita, que ainda era pequenina, chorava: “Eu quero um cão! Eu quero um cão!!!” E o seu pai desperava. Sempre tinha dito que não queria animais, porque já sabia a quem iria sair a sorte do cuidar do dia-a-dia… As opiniões dividiam-se… E ela insistia: “Eu quero um cão!!!!”

Eis que chega o tal médico de Lisboa. “Olha, a menina já tem dono, mas se quiseres podes ficar com o menino, queres?”… E foi assim… amor à primeira vista.

E o Skit e a menina Rita nunca mais se largaram. Excepto quando ele ia aos seus passeios. E se ele passeava!

Quando era ainda novo, os meus tios viviam num bairro próximo do nosso e costumavam passeá-lo até nossa casa. Até que um dia, estávamos nós a jantar e ouvimos “Au… … Au!” (Nota: a dupla reticência é porque o ladrar dele era mesmo assim, pausado, profundo, solene)… Fez-se silêncio. Passado uns minutos… “Au… … Au!”… Isto parece mesmo o Skit!, diziamos nós. E o nosso Rufus parecia doido. Abrimos a porta e não vimos ninguém na escuridão. Estranho. Novo “Au!” E foi ai que vimos o reluzir dos seus olhos negros… Ligámos para eles: “Por acaso sabem onde anda o vosso cão?!”… E foi só a primeira de muitas.

Amante de caminhadas, tinha um faro incrível e atravessava a cidade de uma ponta à outra (sempre pela passadeira!) para ir visitar os velhos amigos. Quando mudaram de casa, para o outro lado da cidade, foram muitas as vezes que foi apanhado por amigos a meio do caminho a chegar à nossa casa! Em Santa Susana, na Malagueira, no Bacelo, na Senhora da Saúde… A mais caricata de todas foi quando ao chegar a casa dos meus pais, certa noite, o encontrámos deitado à porta, sem se mexer de tão cansado que estava… Pudera, de manhãzinha cedo tinha-o deixado na Azaruja! Nunca havemos de saber quantas horas demorou ou por onde veio. Estava cansado, mas estava feliz. Tinha chegado ao destino. E voltou a repetir a brincadeira.

Era assim o Skit, o cão caminheiro, o cão dorminhoco, o cão lorde, o cão rodinhas baixas, o cão incapaz de apanhar um biscoito no ar. Diz a lenda (aka Maria José) que ele até dizia Vó Vó Vó para pedir comida. Enfim, coisas de avós! Mas era sem dúvida nenhuma, o único cão da história com tanta classe, tanta classe, que partia um biscoito ao meio e pousava a outra parte no chão, para o poder saborear… Infelizmente, nunca conseguiu ser suficientemente rápido para impedir que o resto da matilha, comesse os deles e ainda fossem a tempo de lhe roubar o seu. Isso e aprender a abrir a boca e apanhar o biscoito no ar. Digamos que o Rufus e a Noa tinha sempre dose reforçada…

Enfim, era um cão meigo, que gostava da sua liberdade, mas também do seu descanso e, sobretudo das suas pessoas. Era o cão da minha prima e era o cão de todos nós. Era porque infelizmente, já partiu. Velhinho e doente, despediu-se de nós este Natal. Mas ficará para sempre na nossa memória. E como se pode ver na foto, até na memória do mais petiz da família. Até já grande Skit. “Au… … Au!” para ti também!

Today I rise

“Today I rise” is a Beautiful Short Film that is like a love poem for your heart and soul.

Watch here: Today I rise – Films for Action

Where are you?

Little girl with broken wings but full of hope….

Where are you?

Wise women covered in wounds……

Where are you?

Today is the day
I will not sit still and give in anymore
Today I rise
I am bruised but I will get up and walk again
Today I rise
I don’t care if you ignore my beauty
Today I rise
Through the alchemy of my darkest nights I heal and thrive
Today I rise
I move through the world with confidence and grace
I open my eyes and I am ready to face
My wholeness as a woman and my limitless capacities
I will walk my path with audacity
Today I rise

I reconnect with the many aspects of myself
I am in awe of the reality I can create
I am a healer
I am a queen
A wise women – A wild woman
I will rise and beam
I am a rebel
I will wake up and fight
I am a mother and I am a child
I will no longer disguise my sadness and pain
I will no longer suffer and complain

I am black and I am white
There is no reason to hide

Where are you….

I call upon Kali
To kiss me alive
I transform my anger into power
No more heartache or strive

The world is missing what I am ready to give
My wisdom, My sweetness, My love
And my hunger for peace

I weep with the trees and the rivers and the earth in distress
I rise and shine and I am ready to go on my quest

Today I rise
Without doubt or hesitation
Today I rise
Without excuses – Without procrastination

Today I call upon my sisters to join
A movement of resoluteness and ….concern

Today is the day I rise and scream
Today I foresee the future of my dreams!
Today is my call to action………… I will fulfill my mission
Without further distraction.

Today is the day!
Today I will start
To offer the world
The
Wisdom of my heart.

Alexandra Feldner

 

O lado jasmim da vida

Parte de estar longe, é aprender a lidar com as coisas não vividas, com o não estar presente no momento certo, o não partilhar as alegrias e as tristezas. O início da vida e o fim da mesma. A vida vai correndo ao sabor dos fusos horários, das luas e dos soís que se põem em lados opostos, obrigando a uma distância que se quer curta, mas que teima em se afirmar mais e mais a cada dia, mês e ano que passa.

Estar longe, é também aprender a lidar com a inveja que se sente quando percebemos que quem lá fica consegue viver sem nós, que preenche o espaço que nós deveríamos ocupar com outras pessoas, com outras vivências. De repente, já não somos os primeiros na linha. E ficamos magoados com isso. Mas que fizemos nós para que isso não acontecesse? Seria tal possível? Agora não dá, agora é de noite, agora estão no trabalho, agora já não interessa… E adiamos e esquecemos. Ou insistimos e não corre como esperado, porque o tempo não congela.

Mas estar longe, é também aprender a aceitar tudo isto. Não foram só os outros que mudaram, nós também. E muito. O tempo não congelou lá do outro lado do mundo, continuou a correr, tal como aqui. E é aprender a lidar com essa diferença e relativizar. E celebrar o que se tem. Aprender que se queremos mais, também temos que dar mais. Aprender a lidar com as ausências, com os momentos não vividos, com as expectativas que caem, com as amizades que mudam, com as memórias que se esbatem e não são retocadas. Mas também com as amizades que renascem de forma inesperada. Com os pequenos gestos, com palavras inesperadas que surgem no momento certo.

Afinal, estar longe é aprender a lidar com tudo isto, aprender a estar perto, estando longe. Aprender a tirar a culpa, a inveja, o ressentimento e aceitar o que vem. Aceitar as decisões, as nossas e as dos outros. Ser generoso. Ser feliz com felicidade dos outros. Sentir à distância a tristeza dos outros. E cheirar o jasmim. Ou como dizem os budistas por aqui, é aprender a ser livre e deixar ir… “all the bad things out, all the good things in…”